Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 25 — *Samambaias despertam em vasos que não lhes pertencem

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ana,

Ontem fui de novo na sua rua e fiquei me perguntando se existe ex rua ou se apenas a denomino como a rua que não quero passar. Dessa vez, não ia adiantar dar a volta em duas quadras, porque eu tinha de levar documentos para o moço que comprou sua casa.

Percebi que perdi a conta dos anos que passaram… a cerca ainda está desbotada e desconfio que ele não pintou nenhuma vez desde que comprou. Enquanto eu aguardava ele encontrar a chave do portão meu olho avançou quintal afora… me pareceu que ouvi sua gargalhada lá no fundo… ao invés das hortênsias, no vaso branco que plantei, samambaias pendem dele… inquilinas indesejadas – penso eu – e a cerejeira está seca – penso que de saudades tuas – e ele explica desajeitado que a árvore morreu do nada.

Alguns badulaques que deixei lá me foram entregues em uma caixa… as argolas que prendiam as cortinas laranjas, alguns papéis – que segundo ele, estavam em gavetas e caixas no fundo do armário. Enxerguei sem querer seus anõezinhos e a Branca de Neve num canto do muro e o sapinho… ah, o sapinho…

Sabe, Ana, não sei onde está agora. Qual universo te possui… vejo Marte e lembro-me de você. Confesso que andei meio avessa ao céu noturno nos últimos anos… e não falo disso com tristeza não. Falo disso como se com isso pudesse te libertar de vez para seus voos além das nuvens…

Lembro-te cada vez mais longe, mas em dias como hoje, onde meus olhos perderam a noção de ver, te vejo ali, amiúde, no vaso branco e as samambaias invasoras em um lugar que nunca foi delas.

E ainda com as pupilas dilatadas escrevo seu nome no vidro embaçado da janela pensando o que fazer com essa saudade quando pronuncio seu nome.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Nunca mais regressaste a casa 

Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
 Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera 
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, 
porque era a tua voz que me trazia o outono, 
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica 
da extinção das espécies. 

  Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
a soletrar silenciosamente o teu regresso. 

 José Rui Teixeira

Mãe,

mais uma vez eu conto os anos e venho dizer do tempo que voa… sabe, já faz uma vida inteira que você se foi e confesso que em dias como os atuais não me acostumei com sua ausência – nem sei se um dia vou me acostumar.

Hoje fiz os biscoitos de polvilho e ficou tão iguais aos seus que liguei para cada um dos irmãos – erámos sete, mas hoje, só temos seis vivos e um está em um lugar que não tem como ligar – que consegui para contar. Uma das minhas irmãs me disse que havia feito de chá de canela e louro e a gente riu junto chorando… você sabe como somos bobas quando falamos de você.

A outra, falou do barulho da máquina de costura e de como aquele som soava para a gente como uma canção. E um dos irmãos disse que olhou a fotografia na carteira. Pareceu, mãe, que estávamos em sintonia em seu nome, em lembranças e em amor.

E de repente, enquanto falávamos sobre tudo isso… choveu. Depois de mais de 160 dias sem chuva, choveu e ficamos ali, um junto do outro em enlace ao seu nome. A chuva do caju sobressaiu em cada conversa e contei também das sementes do meu ipê que se espalharam pelo quintal inteiro.

Acho que era só isso que queria te contar, mãe… da saudade que ainda reina por aqui, do vazio de sua presença em nossas casas e do seu regresso que nunca aconteceu.

Te amo,
Beijo meu

Mariana

infinitamente

A sorte que ela me dá

Peguei o verbo da rua de cima e misturei no jardim. Nasceu a sorte em todos os lados. O trevo de quatro folhas se prontificou a ter apenas três para fugir da simpatia de sempre e o de quatro se misturou nas graminhas para ser encontrado no gesto simples da menina do lado, que se encantou quando eu disse que a sorte morava no jardim que brotava no coração dela.

Palavra do dia: acreditar!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

Hoje é o primeiro aniversário seu sem você por aqui. De repente, percebo que não vou poder mais enviar a carta para o locutor da rádio local ler para você nesse dia. Posso eu mesma ler em alto e bom som por aqui.

Agora, a linha é direta com o universo e nem preciso mais de dia especial. Várias vezes, me pego te perguntando sobre coisas que só você sabia me responder. E nem vou saber mais sobre a colheita do algodão. Nem de sua fala dizendo que o campo parecia um véu de noiva de tão branco.

Aqui, as coisas continuam iguais você deixou. Ainda irei juntar as memórias, as malas antigas, as fotografias e passear pelos lugares que a gente já foi juntos. Guardar o ferro de passar, o moedor de café e a xícara esmaltada que você tanto gostava.

Eu sigo firme por aqui, pai… embora cheia de saudades… que seu voo tenha alcançado a paz dentro de sua fé.

Te amo sempre!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Para além dos campos de flores amarelas

Não sei, minha mãe, o que escondeste nas sílabas, 
que violenta neblina lá guardaste, 
mas não esqueço a euforia do espanto, 
essa festa distante onde chamava por ti devagar, 
sempre tão devagar. 

José Oliveira Fernandes

mãe,

como eu conto esses dias que atualmente passam tão rápidos? Mesmo que eu não queira, maio me traz o dia que seria seu aniversário. A folhinha arrancada logo cedo vem junto com as memórias desse dia em anos anteriores – tantos, que às vezes, esqueço quantos são.

Sabe, mãe, são mais dias sem você do que com você. E não podia nessa data ficar sem o parabéns para você. Sete filhos já dava uma festa ao redor da mesa, lembra? O bolo de milho, de puba e os biscoitos de polvilho, o suco de tamarindo, servidos na mesa de madeira debaixo do pé de sete copas e os campos enfeitados de flores amarelas. Eu sempre dizia que os campos se enfeitavam para você, dentro de maio, como se com isso te presenteasse com o dourado a se estender até se misturar com o verde das matas.

Acho que você se orgulharia de mim, mãe… tenho conseguido me sair bem, mesmo quando alguns dias ficam difíceis de gerir. E mesmo quando os olhos se espremem em lágrimas, logo tudo passa e sigo em frente. Ainda falo com você também, mesmo com 42 anos de ausência. É tão presente, que às vezes, parece que está logo ali, a cuidar da horta, dos bichos, das roupas na bacia.

Gostaria que você soubesse que ainda sigo alguns rituais que você nos ensinou. Também vivo fazendo artes como as que você fazia e seu neto, mãe, já é um homem lindo. A vida continua mágica, apesar de tantas coisas estranhas causadas pelo homem e nesse dia, te reverencio com as mãos justapostas e te abraço com meu coração.

Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

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Das metades de tantas, (eu) inteira

Ph: Steve Richard

Inventou a si mesma
no pretérito imperfeito
cada vez que tocava
sem jeito seu corpo
via as palavras
da mãe, da irmã
o pecado em palavra,
dedo em riste
o incômodo das que eram submissas


– nunca quis isso para si –
sabia que cabia dentro dela
as promessas de prazer
como se fosse dia de chuva

Sabia-se única
e ainda assim sentia
um abismo de sujeições. 
Um céu fotografado em dia de sol
tal qual nuvem dissolvida
em várias formas
com o carimbo da ancestralidade
na pele
um marco geodésico das outras
de sua linhagem, o sangue –
feito nuvem vermelha
em dia intenso.

Mariana Gouveia
Coletivo de Poesias Mulher de Nuvem
Scenarium Livros Artesanais

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Das metades de tantas, (eu) inteira II

Ph: Kassandra

Fazia perguntas a si mesma
já com a resposta encravada
na garganta
como se fosse lâmina –
pode, mas não deve.
queria dizer
– faço porque quero.
Como a nuvem que traz o trovão
… ecoando céu afora.
Pensou na pureza dos desejos
indecifráveis e suspirou
Nem era farol, nem norte.
Apenas rota –
cruzando caminhos.

Mariana Gouveia
Coletivo de Poesias Mulher de Nuvem
Scenarium Livros Artesanais

infinitamente

Quando o amor acontece

Quando o amor atravessou o quintal, ele era quase alado
Dava pulos no peito e voava para além das árvores.
Depois, com o tempo – e só o tempo compreende essas nuances – ele foi esparramando raízes, com suas gavinhas, como se fosse abraço e hoje, já mora aqui… De vez. Acho que para sempre.
Em alguns dias, como o de hoje, ele muda o nome para paixão, só para mudar a rotina dos batimentos dentro do peito.

Mariana Gouveia

das coisas breves · infinitamente

dos lutos

No dia em que uma aldeia chorou as perdas, o quintal emudeceu.
Já era noite quando eu cheguei e abri os braços em oferenda do meu abraço.
Lembrei -me do avô, tão guerreiro – tão frágil diante da dor.
Lembrei -me da fragilidade da avó – tão menina – a se oferecer em troca para que os dela não sofressem.
No dia em que o quintal ficou em silêncio, até às flores e o sino dos ventos ficaram em silêncio em respeito à aldeia que chorava saudades.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para falar de saudades

Eudes,

vim te trazer flores e falar de saudades. Antes mesmo de levantar refiz os rituais que eu fazia nesse dia, antes de ir ao seu encontro. Ouvi mis uma vez Kiss The Rain e outras canções que você gostava.

Na minha imaginação, eu fui até seu encontro e te falei da saudade que você deixou aqui. Já conversei com você infinitas vezes durante o dia e resolvi te escrever mais uma vez como nos outros anos no seu aniversário.

No fim da tarde choveu lá pelos lados de onde você morava. Lembrei-me das chuvas que tomamos juntas e do quanto rimos com as tintas do cabelo escorrendo. Já te contei que nunca mais consegui atravessar a ponte? Sempre invento uma desculpa quando por algum motivo me chamam para ir até sua cidade.

Sei que um dia isso irá acontecer, mas por enquanto, dentro desses três anos de sua partida, acredito ainda na leveza de nossa amizade e do nosso carinho. O amor ultrapassa esses limites que nós humanos traçamos e ainda reverbera sua voz aqui: o amor é essa forma de você vir me ver todos os sábados – você dizia… para mim, era apenas as delícias dos momentos que vivemos juntas.

Não sei se aí onde está se comemora aniversários, mas para mim, esse será sempre seu dia e como você sempre me cobrava o presente, te trago a flor do nira que desabrochou aqui e perfuma meu quintal.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia