* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli
Ana,
Ontem fui de novo na sua rua e fiquei me perguntando se existe ex rua ou se apenas a denomino como a rua que não quero passar. Dessa vez, não ia adiantar dar a volta em duas quadras, porque eu tinha de levar documentos para o moço que comprou sua casa.
Percebi que perdi a conta dos anos que passaram… a cerca ainda está desbotada e desconfio que ele não pintou nenhuma vez desde que comprou. Enquanto eu aguardava ele encontrar a chave do portão meu olho avançou quintal afora… me pareceu que ouvi sua gargalhada lá no fundo… ao invés das hortênsias, no vaso branco que plantei, samambaias pendem dele… inquilinas indesejadas – penso eu – e a cerejeira está seca – penso que de saudades tuas – e ele explica desajeitado que a árvore morreu do nada.
Alguns badulaques que deixei lá me foram entregues em uma caixa… as argolas que prendiam as cortinas laranjas, alguns papéis – que segundo ele, estavam em gavetas e caixas no fundo do armário. Enxerguei sem querer seus anõezinhos e a Branca de Neve num canto do muro e o sapinho… ah, o sapinho…
Sabe, Ana, não sei onde está agora. Qual universo te possui… vejo Marte e lembro-me de você. Confesso que andei meio avessa ao céu noturno nos últimos anos… e não falo disso com tristeza não. Falo disso como se com isso pudesse te libertar de vez para seus voos além das nuvens…
Lembro-te cada vez mais longe, mas em dias como hoje, onde meus olhos perderam a noção de ver, te vejo ali, amiúde, no vaso branco e as samambaias invasoras em um lugar que nunca foi delas.
E ainda com as pupilas dilatadas escrevo seu nome no vidro embaçado da janela pensando o que fazer com essa saudade quando pronuncio seu nome.
Mariana Gouveia
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