das coisas breves · Das palavras das cartas · infinitamente

Dos dias breves

Eudes,

A manhã estava vazia de pássaros e o céu apareceu lindo como no dia em que você partiu. Quantos anos fazem hoje?
Às vezes, parece uma eternidade que não te tenho aqui… Às vezes, parece que foi ontem.
Ainda me lembro de sua gargalhada ganhando as ruas ou seu silêncio dentro das minhas falas.
Penso que em algum momento, você usa a linguagem do céu para conversar comigo e nesse instante, tenho todas as respostas que você deixou sem responder.

Te amo muito, até além.

Mariana Gouveia

infinitamente

Nomeei-te de liberdade

Um dia ela escreveu uma história sobre mim.
Fez com que eu coubesse dentro da latinha de sonhos dela e decorou de laranja para me enfeitar.
Guiou meus dias e me levava para onde quer que fosse.
Pendurada em seu pescoço, dentro da latinha de sonhos, eu podia observar o mundo pelos olhos dela.
Às vezes, ela ria e nesse instante, tudo valia a pena.
Minha gaiola era de lata. Reforçada. Com aves e cores que eu podia sonhar.
Fiquei pequena no espaço. Cresci.
Ganhei abraços, outros nomes. Outras cores.
Outras asas e resolvi voar.
A palavra mais linda que eu conheci ali, ao lado dela era Liberdade.
Quando enfim ela me libertou. Ela ficou livre.
Fui ponto final na história dela.
Continuo reticências dentro da minha história. Voando.

Mariana Gouveia

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

De noite, o mar é dourado

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.

Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.

Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.

O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.

Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.

Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.

De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz. O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Você é minha melhor história

Era manhã quando você nasceu. O dia estava bonito quando as dores chegaram. Só depois de alguns anos entendi a sua pressa ao nascer. Você é desses meninos/homens/pessoas apressados para viver. Chegou antes – mas quem disse que era antes? – segundo a previsão dos médicos e sob o signo de leão me fez mãe. São 35 anos com sua voz me chamando assim. O meu olho de amor te abraça mesmo com tanta distância de lugar. O meu olho de poesia te faz minha melhor obra e o meu olho de mulher se orgulha do homem que criei. Dizer que te amo é repetir mantras feito aqueles que acalma a alma. Minha alma se acalma quando você sorri.

Mariana Gouveia
Agenda Scenarium Livros Artesanais 2023

Desvios para atravessar os quintais · infinitamente · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das casas habitadas de lembranças

Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.

O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.

As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.

A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.

Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

tanta gente, Mariana!

Como eu escreveria sobre a outra – aquela que me habita na solidão dos dias.
A fumaça envolta naquela menina que ri e conta histórias que ninguém conhecia.
Como pode o ritmo ser medido pelo movimento que roda a saia e o vento pelas folhas que ele derruba? Quantas tem o pertencimento sobre o que você sente? A que dança? A que que chora? A que segue as regras e lê os manuais? Aquela que se esconde dentro do espelho? A que nunca se maquiou ou a que anda nua nas madrugadas insones pela casa em uma noite de calor infernal… Quantas mulheres te habitam, hein? Que voz sai de sua boca quando grita nos rituais da lua? Quantos humanos estão dentro de você? Cada vez que fala traz em você os seus irmãos – e os pais e avós – nas suas lembranças? Ah, você, tão dona de si e tão frágil… tão forte e complexa… tão fraca, às vezes. Talvez, se olhando na água que balança na bacia no quintal apenas responda: tanta gente, Mariana!

Mariana Gouveia
Agenda 2023 – Scenarium Livros Artesanais

infinitamente

Acontecia o dia do amor. 

A gente sempre acontece na rotina das coisas. Havia recado estampado em tudo. O céu estampado em cores suaves.
Uma canção repetida ao limite e o riso ecoando coragem antes da viagem.
Cabia qualquer amor em declaração ardente. O nome da flor declamado em versos.
A palavra do dia esparramada no gesto. O eu te amo dito em alta voz e o rodopio lembrando asas em voos.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

O impossível é só questão de opinião

Jean,

Dia desses eu sonhei com você e acordei com o som de sua voz ainda ecoando em mim. Você cantava sua música favorita e usava a boina de crochê colorida estilo Bob Marley que fiz para você.

Lembro-me que falávamos sobre tatuagens e você queria fazer uma… seria uma letra de música? Tribal? Ou um dragão? Confesso que não me lembro e perdi os anos desde que você se foi. Já são quase duas décadas e ver você em meu sonho me levou para dentro de nossas conversas. Seu time preferido já foi campeão tantas vezes e seus amigos quase todos já casaram. Alguns, ainda perguntam de você e contam as coisas que vocês viveram juntos em um sorriso gratificante de poder ter te conhecido.

Queria te dizer que sinto saudades de você e que alguns lugares daqui me lembram você. E você sabe que sua tia nunca vai te esquecer. Hoje, seria seu aniversário e me pergunto se além da terra e da fé que a gente vive será que ainda é aniversário para além de onde você vive? Alguns diriam que é impossível, mas como sua canção preferida diz: pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião e eu prefiro acreditar que sim, para além dos sonhos e dentro de mim.

Essa é uma daquelas cartas que eu apenas escrevo, para continuar te mantendo dentro do meu carinho. E é assim que comemoro seu dia, mesmo que seja em meu coração.

Te amo,
sua tia,
Mariana

Das palavras das cartas · Das rotinas · infinitamente

Das sílabas feitas dentro do verbo amar…

Era uma vez e muitas vezes
Um homem que amava uma mulher 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher que amava um homem 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher e um homem 
Que não amavam aquele e aquela que os amava. 

Era uma vez 
Talvez uma vez apenas 
Uma mulher e um homem que se amavam. 
 Robert Desnos

Amor,

às vezes, eu preciso voltar no tempo dentro do meu amor por você. É onde nos encantamos com o que vimos para além do céu, das flores, dos bichos e nas trocas de olhares. Um sabe tanto do outro, que em muitos momentos, as palavras perdem o significado.

Em outras vezes, te nomeio guardião de mim… de tantos momentos difíceis e de sua capacidade de entender meus medos, de admirar minhas coragens, de chorar junto nas minhas dores e de ser o amigo que me ouve nos desabafos.

Comemorar seu dia é repetir gratidão ao Universo pela bênção de te ter comigo, de dividirmos juntos uma história em sílabas feitas dentro do verbo amar.

Sabe, amor, em alguns dias eu revisito os passos que me levaram até você… e o que é bom é que, dentro de tantos momentos, tenho certeza de que se pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo, para viver a mesma história de amor com você.

Te amo infinitamente,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

mais uma vez eu te escrevo e percebi que faz tempo que não nos falamos. O telefone, para você, se tornou obsoleto, porque você não ouve direito. É apenas a chamada de vídeo, os gestos e o riso de sempre lembrando que ainda me reconhece.

Sabe, pai, de vez em quando eu volto ao meu tempo de menina. Isso acontece quando eu acolho os bichos em minhas mãos. Você me dava coragem para acolher os bichos de asas… e depois disso, passei a ser escolhida por eles. Eu acho que sou parte deles, pai. É quase involuntário. Abro a mão e eles vêm e pousam. Tanta gente tem medo deles… eu tenho carinho, pai e nem sei bem se a palavra é essa.

Pai, o junho começa com seu dia e as lembranças do mês dos santos me faz ter nostalgia dos dias em que a gente ficava à beira da fogueira, as simpatias feitas em nome do santo casamenteiro. Os doces, os balões e as histórias. Sabe, pai, você me deixou um legado de histórias e sempre conto elas para um ou para outro para registrar essas coisas que ficam dentro de nós para sempre.

Escuta, pai, tenho as lembranças todas penduradas no porão… as fotografias guardadas em caixas antigas, com o cheiro de antigamente. É disso que vivo e dos dias em que lembro-me de você, tão presente na minha história. Apenas sou no mundo, pai e o mundo é em mim, e o tanto que isto é, por sua causa. E hoje, dentro desses dias e dessa representação, te ofereço minha mão pedindo benção, pai e feliz aniversário!

Te amo muito!
Mariana Gouveia