Pai,
mais uma vez eu te escrevo e percebi que faz tempo que não nos falamos. O telefone, para você, se tornou obsoleto, porque você não ouve direito. É apenas a chamada de vídeo, os gestos e o riso de sempre lembrando que ainda me reconhece.
Sabe, pai, de vez em quando eu volto ao meu tempo de menina. Isso acontece quando eu acolho os bichos em minhas mãos. Você me dava coragem para acolher os bichos de asas… e depois disso, passei a ser escolhida por eles. Eu acho que sou parte deles, pai. É quase involuntário. Abro a mão e eles vêm e pousam. Tanta gente tem medo deles… eu tenho carinho, pai e nem sei bem se a palavra é essa.
Pai, o junho começa com seu dia e as lembranças do mês dos santos me faz ter nostalgia dos dias em que a gente ficava à beira da fogueira, as simpatias feitas em nome do santo casamenteiro. Os doces, os balões e as histórias. Sabe, pai, você me deixou um legado de histórias e sempre conto elas para um ou para outro para registrar essas coisas que ficam dentro de nós para sempre.
Escuta, pai, tenho as lembranças todas penduradas no porão… as fotografias guardadas em caixas antigas, com o cheiro de antigamente. É disso que vivo e dos dias em que lembro-me de você, tão presente na minha história. Apenas sou no mundo, pai e o mundo é em mim, e o tanto que isto é, por sua causa. E hoje, dentro desses dias e dessa representação, te ofereço minha mão pedindo benção, pai e feliz aniversário!
Te amo muito!
Mariana Gouveia