Das rotinas · infinitamente

uma data é uma data

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia. Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.
A vida fica instável na palavra cantada. Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza… Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente. Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Era uma vez, a primeira vez.

Filho,

eu já te escrevi tantas cartas e para mim será sempre como se fosse a primeira vez… você fez isso comigo desde sempre. Me fez experimentar primeira vez em tantas coisas. A primeira vez que ouvi seu coraçãozinho bater foi como se eu estivesse ouvindo meu coração bater fora do peito.

Com o tempo, filho, as datas se tornam comuns. Qual a graça de se comemorar dia das mães com o filho longe? E eu, que já nem tenho minha mãe aqui, como comemoro? Dia das mães é todo dia e dia do filho se resume em horas, porque uma mãe pensa em seu filho ou filha em todas as horas – Será que comeu? Está com frio? Gripou? Tomou chuva? Chora por amor? Está se sentindo só? – e fica registrado na memória das mães o dia em que o filho nasceu.

Foi de você que ouvi pela primeira vez a palavra mãe… e depois disso, eu me tornei a mulher mais poderosa do mundo, capaz de enfrentar qualquer coisa por você. Infelizmente, esse super poder se limita quando a gente não consegue mais impedir que outras dores te machuque. E resta apenas oferecer o colo e rezar para que tudo passe logo.

Ainda temos muitas primeiras vezes para viver… e temos ainda que repetir mil vezes outros instantes. E no dicionário de mãe, filho vem sempre em primeiro lugar e é essa palavra que me abraça quando penso em você.

Obrigada por ter me escolhido ser cuidadora de você nessa vida. Tenho muito orgulho do homem que você se transformou. E o meu melhor presente é seu sorriso. Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Minha vez de saudade.

A vida corre ligeira, mãe e mais uma vez eu brindo o dia que era seu. Coube em mim nesse anos todos, saudade e as lembranças me visitam com mais assiduidade do que o normal.

Olhando hoje, tudo parece que foi feito de brinquedo os dias e que a data ainda é real e você está ali, entre a cortina e a janela a esperar que a surpresa seja feita, mesmo sabendo que nem era mais surpresa.

Os presentes vinham sempre em forma de bilhetes, poemas, corações de pedra e abraços demorados. Tudo era uma casinha de boneca onde o amor pelas coisas simples surgiam e seu dia se tornava além de uma festa, uma verdadeira brincadeira.

Você nos deixou a delicadeza e registro mais um ano em que falar com você é como desembrulhar um pacote de presente e me perder nas lembranças que insiste em brotar como se fosse flor em nós. Que a vida infinita seja!

E que mais uma vez, eu agradeço por ser parte sua.
Parabéns, mãe!

Beijo,

sua filha
Mariana Gouveia

infinitamente

Era uma vez e muitas vezes

Outono… diziam que era a estação atual e eu já havia desistido de olhar o calendário… eu só escrevia o diário. Escrevi sobre o primeiro encontro. De quando me apaixonei. Desenhei flores, corações e as letras decoradas com o nome dela.

Mas, isso de amor encontrado, o primeiro beijo desejado, ensaiado, parece invenção da minha cabeça. O vento não… eu pude sentir quando ele chegou se misturando aos ventos de todos os lugares. Ora brisa, ora furacão e o cheiro do perfume a invadir o quintal. Uma vida inteira não basta para apagar a sensação do toque das mãos dela na minha pele. Do vento, do que me lembro foi o sopro dela em meu pescoço e depois disso, decidi não lembrar de nada. Ficou apenas o diário escrito em um dia qualquer: era uma vez e muitas vezes ela, dentro do meu outono.

Mariana Gouveia
De todas as estações

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Dos dias aleatórios de abril

Havia roteiros de lua no quintal. Um vaga lume invadiu a sala e chamou a atenção do cão – logo ele que gosta de correr atrás da luz da lanterninha vendida nos ônibus – foi um achado! Teve de contê-lo e socorrer aquela luz que voava.

Procurava no céu alguma coisa que estivesse escrito nas estrelas. Elas desenham o caminho de Santiago – alguém disse um dia – desde então, lembra-se disso quando olha para o céu em noite de lua e estrelas. Depois disso, sonha em fazer o caminho de Santiago e já desenhou o mapa quinhentas vezes mentalmente e outras quinhentas vezes no papel. De tão lindo que ficou, pensou em bordar.

Olha para o Cruzeiro do Sul e vê Vênus quase na ponta da Lua – um piercing ou um riso disfarçado de Lua – no quadrante leste do céu.

Relembra coisas da infância. Das regras que seguia em relação à lua. O cabelo – sob recomendação séria da mãe – só poderia ser cortado na lua cheia. Era assim que os cabelos das mulheres indígenas ficavam fortes e bonitos. As pontas poderiam ser tiradas na lua crescente.

As rosas brancas deveriam ser replantadas na lua nova. O feijão, colhido durante a minguante de Maio – evitava perdas, o pai dizia – e fazia o feijão não carunchar. A macela, colhida na lua cheia específica da sexta-feira da Paixão para fazer chás potencializava a cura.

Tudo na vida dela fora um ritual de datas lunares e solares. De cores e de sabores. De magia e expectativas.

Quando deita no chão do seu quintal, refazendo o mapa das estrelas que indicam o caminho para Santiago, revê esses instantes que fez de sua infância uma riqueza só.

Os rituais ficaram marcados – segue até hoje – Deus a livre apontar o dedo para uma estrela! Apesar de ter ficado lá atrás a lenda de que se fizesse isso, nasceria uma verruga na ponta do dele.

Fica horas ali, todas as noites. É um momento único de lembranças que vão e se recriam no doce modo de espiar o céu.

Sabe desenhar cada coisa sentidas nas fases que a lua inventa em seu caminho no céu. É o ritual que segue quase místico na essência de viver.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

infinitamente

Rotas

Ph: Tumblr

Viveu ausências nos dias. Traçou rotas, criou mapas.
Foi buscar cura em aconchegos distantes.
Viu loucura nos olhos das pessoas – epelho refletido – alguém disse.
A loucura é da dona do espelho.
Tudo que acontece de maneira estranha enlouquece.
Visitou um sábio numa manhã de rotinas. Não falou nada. Apenas concordava. O olho atingia o centro da lucidez.
Pegou ramos verdes e a benzia.
Murmurava orações antigas que ela conhecia de outros tempos.
Abençoou um casamento.
Ainda acredita em tradições.
Registrou os instantes da fé, da troca do beijo, da aliança na mão.
Lembrou da sua. Do vento uivante que cantava no dia.
Desejou as rotas todas vividas para o coração da noiva.
O noivo tinha riso de filme de cinema.
Falou tudo isso num ímpeto e ela nem teve tempo de anotar nada.
Os ramos verdes que murcharam ficaram em cima da mesa.
Era a benzedura que tinha efeito de saudade.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes  Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Ao Sul de nenhum Norte

Ph; Pinterest

Não fosse eu esse rio,
que deságua em meu peito
Morreria todo dia
feito flor no deserto
e com a solidão dos quintais.

não fosse eu esse céu,
as asas… 
sem o dom de voar

enquanto espero o ônibus da linha 508
as ruas ganham o vento de companhia
e na calçada  
o cacto de tantos anos que floresce… 

não fosse eu a cor…
desbotada, sem realces e tons

o sabor da invenção das palavras na boca
tal qual um beijo que nunca veio.
Solidão.

Não fosse eu,
seria o perfil de uma casa que
não lembro mais o nome.

Mariana Gouveia
Poema publicado no Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

infinitamente

Desenhei a sorte…

no topo da lista dos desejos – isso, anos atrás como querência de amor tranquilo – e fiz e refiz em oração a palavra amor.

Nas simpatias, nos dias dos santos, o nome surgia em forma de código e na casca da laranja, retirada inteira, sem quebrar, a letra do seu nome gerava riso entre os irmãos.

O tempo junto com o universo tratou de ouvir meus pedidos e a sorte, hoje, mora comigo e cuida de mim.

Na canção que canta para mim, fala do amor infinito. Na oração diária, a esperança de cura. No cuidado do jardim, a simbologia da primavera que me oferece em gestos.

O amor é isso e mora comigo nas noites de insônia, na mão estendida, no ombro de amparo e até no silêncio, quando as poesias me habitam.

Ter você por todos esses anos é acreditar que muito mais que o amor de homem e mulher, a amizade e cumplicidade nos faz mais fortes, mais unidos.

Te amo sempre!
Grata por tanto!

Mariana Gouveia

infinitamente

Alquimista

Minha mãe era uma alquimista – embora ela talvez nem soubesse o que significava a palavra – e fazia mágica em tudo que tocava. Não fazia chover, como ela mesma dizia… mas fazia a delicadeza brotar em encantos bordados pelas mãos dela… dedos finos a tocar a linha como se fizesse carícia com o tecido.

Os bordados feitos com a delicadeza que ela sabia tão bem começava antes com o plantar do algodão e esperar seis longos meses para a colheita e só depois disso começava o preparo da linha. A fiadeira a dar o ponto e a espessura do fio.

Quando ela sentava no banquinho ao lado da roca, isso, depois de colhermos um a um os capuchos, colocados para secar até a hora de fiar, enquanto colhíamos as folhas-madeiras-galhos-cascas de diversas árvores que ela sabia tão bem qual cor seria a linha a ser tingida e ela ganhava – aos meus olhos – ares de bruxa ou fada. O cabelo de coque feito, o suor a escorrer no rosto como se tocasse a face de uma rainha – e ela era a nossa rainha – e o olho a medir a quantia certa de água e folhas ou raízes. Era um ritual que ela seguia – e a gente também – passo a passo… a folha da amoreira produzia um verde mais claro e a casca da cebola fazia com que a linha ficasse sépia e com isso o tecido ficava quase creme – ou beirando a isso – durante o processo químico. O caldeirão no fogo a ferver e o tempo certo do tingimento… a troca das folhas e o mergulhar do pano na água quente dava à ela o poder da cor e eu ficava encantada vendo o processo.

Depois da linha tingida, secada e tecida era a hora de bordar e criar delicadezas com as mãos. Os riscos desenhados por ela e o trabalho pronto me dava a sensação de mágica e assim, eu aprendia a arte do artesanato. O enxoval das minhas irmãs eram criados por ela e os das meninas de toda a região. Era a poesia desenhada em monogramas – que ela adorava fazer – onde o tecido era o papel enquanto a chuva caía.

Mariana Gouveia

infinitamente

Era uma vez, Marte

O dia ganha visão de outro planeta. O horóscopo avisa que Marte continua em meu signo – ainda – e eu respondo que Marte vive dentro de mim.
A saudade invade quando visito o lugar dela. Cada canto tem a presença forte ali. Viva. Intensa e vibrante.
Olhos me espreitam na sonoridade do dia. Os cheiros das frutas, o canto das aves e a garoa fina que cai.
Isso é de outro planeta – ouço o inquilino da casa dizer – esse quintal tem vida própria. Os mais diferentes bichos vem aqui.
Me distraio nas palavras perdidas como se um eco a trouxesse nos olhos do Louva-Deus que assanhadamente me segue.
A flor que adormece ao gesto simples do toque. É estranho, mas ela permanece ali, em cada canto, em cada folha, em cada planta que nasce e renasce.
A canção do rádio da vizinha do lado ecoa a melodia que ela gostava e Maria Gadu diz:

” Será que te conheço desde a infância
Será que na infância eu parti
Prum mundo imaginado por você
Ou por você um mundo veio
E a infância assim se foi”

Aqui, no mundo dela sou apenas saudade. E me recordo da voz que repetia:
Marte é logo ali. Ponha uma vírgula no teto, dá três pulinhos e Marte acontece.
Hoje, Marte acontece onde meu olhar alcança vida.

Mariana Gouveia