Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Beda – azul de qualquer céu.

O barulho do envelope rasgando apenas insinua a expectativa das letras. Havia um perfume entre as palavras.

As pedrinhas quase imperceptíveis acariciavam as mãos.

– Vê? Toque a areia do mar! E assim ela me trazia a maresia e seus arredores.

Dias depois, as folhinhas das árvores do Central Park viriam desenhar a estação dentro dos meus dias.

Depois, os bordados de Guimarães a caber vontades e a areia do deserto.

Relatou a neve, a chuva e os dias longos dentro do quarto.

A sala de aula na faculdade do sonho. O sabor da paella a evaporar caminhos.

Santiago foi dominado sozinha por ela. Acho que ela fingia lugares pisados, gramas mais verdes que os olhos dela podiam prever. Amores estranhos que eram personagens reais dentro da história dela.
Detalhava os ruídos das ruas. A cor dos carros. O vento a derrubar as violetas na janela.

O lenço com poema bordado. O ” pensei em você” era engraçado diante de coisas simples ou encantadoras. A rosa que nascia na casa vizinha. A cor do batom.

Eu, apenas podia desenhar os dias por aqui, O azul do céu. O azul dos dias e o azul dos bichos…Ela somente ria – bicho azul, tirando passarinho…nunca vi – e o sol em seu estranho jeito de ser no meu lugar.

As palavras dela desenhavam rotinas no meu dia e meu dia desenhava cores nos dias dela.
Há que estalar os dedos diante da vida. Essa é a mágica diante do redemoinho dos dias.

Mariana Gouveia
Das palavras das cartas
Agosto é o mês de céu azul e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Fotografia: Ines Kosic

Das palavras das cartas · Divã

Beda – Das palavras das cartas

Vim aqui dizer que aprendi a absorver as flores do campo e que durante a noite, quando o silêncio grita dentro de mim e a vontade de voltar atrás e abrir a porta que eu mesma fechei é maior do que a saudade, eu volto para um campo imaginário.

É lá que grito seu nome infinita vezes e choro.

Às vezes, ouça uma música lá fora. O homem da reciclagem canta uma canção de amor rua afora… faço comparação entre a voz dele e a sua. Acha que posso confundir?

Busco o baú de lembranças e está lá o sol, a lua e as três graças do poema torto, dos deuses mitológicos que a história nos contou.

Há também na caixinha ao lado meus comprimidos coloridos que parecem bijuterias – tiram as dores, aliviam a alma – fazem com que eu te conte as histórias que não viveremos, levam meus braços aos ventos como se fossem abraços.

Aprendi a olhar a noite como se fosse um campo de flores e lá no fim da paisagem, você, dentro do meu amor.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
Agosto é o mês de escrever cartas e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Imagem: Fabrizia Milia

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã

beda – das cartas que rasguei.

A manhã desenhou na memória dias atrás. Era o ano que passou e a delicadeza da data destoa dentro das carta que escrevo… nela, eu posso dizer tudo que sinto e brigar… comigo, contigo e com esse sentimento infinito no sentido exato do amor.
Será mais uma que vou rasgar…

Não saberá das rotinas das manhãs e nem das minúsculas vida pelo quintal.
Nem quando a chuva se aproxima pelos lados do sul.
Em todo mundo amanhã será o dia do amor – como se amor precisasse de dia – e haverá vida além das palavras das cartas que rasguei.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
Agosto é o mês de envelopes rasgados e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*Imagem: Marta Bevacqua

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Beda – Carta para a menina nuvem

Versos. Rimas.
Palavras distraídas.
Submersa. Dispersa.
Um poema rasgado
despedindo-se do papel.
Suzana Martins

Minha menina nuvem,

Confesso que nem me lembro quando comecei a gostar de você, mas sei que quando percebi já estava cheia de carinho e te nomeei minha menina nuvem. Depois disso, já tomei posse dessa amizade e cá estou eu a te escrever.

Sabe, Su, desde menina fui-sou apaixonada por nuvens. Você precisa ver o céu do meu lugar! Eu fico horas olhando para ele e dependendo do dia vejo figuras que parecem saídas de um livro… já vi asas de anjo, corações, nomes, palavras de cartas e letras. Vai me dizer que o céu não quis escrever seu nome aí?

E hoje, Su… o céu desenhou o S como se fosse uma estrada e fiquei lembrando do nosso carinho e de como meu abraço alcança também quem você ama… e se eu te disser que, às vezes, bem às vezes mesmo, o universo conversa comigo?

Mas, não lembro de você só quando surgem as nuvens… lembro de você também quando a poesia me alcança para além dos olhos e lembro da sua risada. Nessa hora, lembro-me de que a poesia tem som… sua voz ecoando poemas é de aconchegar o coração.

Há um antes e depois nessa carta, Su… o antes – a menina nuvem – e o depois – a menina marítima – porque te vejo de pé na areia, cheirando a sal e com sua poesia espalhando ondas. Te vejo água e abraço no seu amor e isso, de alguma forma, me toca.

mas, também gosto da artista que se desdobra e milita. Gosto das nuances e de como os caminhos ligam os iguais. Eu gosto imenso da mulher que se apresenta em tudo que faz e gosto de todos os Inversos que sua poesia provoca em mim…

Posso dizer que em muitas vezes, eu apenas suspiro e digo: uau!!! E uso todas as exclamações que tenho direito. Em outras, eu apenas me silencio e te reverencio… de todas as maneiras sua poesia me abraça e me aconchega. Muitas vezes, me tira o ar e em todas as vezes, me arrebata para além das nuvens da minha menina nuvem.

Grata por tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de ver desenhos em nuvens e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura –  Suzana Martins – 
Roseli Pedroso

Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Sob o voo do tsuru.

A ave muda,
feita de papel
chora saudades

Watashi no amai Kaori,
私の甘いかおり,
Minha doce Kaori,

queria falar com você no seu idioma, mas minha limitação ficou apenas nas poucas palavras que me ensinou.

Na última segunda estive na rua em que moramos. Fui parar ali por acaso, na procura de um endereço e o aplicativo parece que seguiu meu coração e quando reparei – embora um pouco modificada – estava na esquina do lugar onde morei por tantos anos. No lugar da minha casa há um edifício enorme, a calçada alta onde sentei tantas vezes no fim da tarde nem existe mais. Tudo tão estranho.

Mas a casa que era sua ainda está lá… quase igual. As paredes em tons suaves de azul… Respirei saudades ali, Kaori e parece que o tempo voltou. Era quase noite e eu já não via mais o sol dourado… Ouvi vozes estranhas do lado de dentro da casa. Juro que pareceu a sua… mas, foi a minha imaginação que me pregou uma peça.

Ainda está lá a árvore que o Seiko plantou e ganhou galhos enormes. A cerca branca mudou de cor e já não há mais gerânios nas janelas. Uma cortina esvoaçava e vi vultos, ouvi risos e minha saudade encheu o coração de amor por você.

E há tanta vida em seu lugar, Kaori… olhando a ladeira que acaba na outra esquina – que era para onde eu deveria ir – pareceu ser seu vulto com seus passos desenhando nuvens no chão. Tantas vezes te esperei no pé dessa ladeira para te ajudar a carregar as sacolas de compras. Ali, lembrei-me de tudo que vivi… foi como se Colcha de Retalhos estivesse sendo exposto folha por folha, palavra por palavra. O livro, na lembrança e na pele que arrepiou.

Fui me afastando aos poucos e conversando com você as palavras dessa carta. Fui invadida por uma imensa gratidão e mais uma vez me senti inundada pelo seu amor. Foi como se um tsuru pudesse voar dentro de mim… foi como se mais uma vez Ana nos abraçasse em sua alegria contagiante. Foi como se Marte tivesse ao alcance das mãos.

Este é o meu livro, Kaori. Foi criado pelas mãos da Lunna Guedes, minha editora – ela soube captar o meu amor e transformar em um aconchego para aquecer os corações de quem o ler.

Quando sai de nossa antiga rua, rumo ao meu compromisso tantas lembranças me acompanharam… Programei voltar, Kaori e conhecer quem vive ali, no lugar que ainda guarda tanto de você. Prometo que assim que isso acontecer, volto a te escrever.

Um abraço de vento na asa de passarinho,


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de tsurus e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · infinitamente

Beda – do meu pai ao pai do meu filho

Pai,

Como se corre contra o tempo? Se eu fosse contar os dias me perderia no calendário nos agostos todos em que me vi sua filha… quantas sementes você colocou em minhas mãos para que eu semeasse muito mais do que palavras.

Meu olho de filha segue os caminhos que você traçou para mim, muito mais do que os ensinamentos básicos, eu aprendi sobre a natureza das coisas. Sobre reconhecer os sinais do céu… de como a lua influencia nas marés e de como a colheita tem de ser feitas em madrugadas amenas – antes que chovesse no dia seguinte – para a perda não ser maior.

Acho que uso a data – meramente capitalista – para aprofundar meu amor nas cartas que te escrevo… e lembro-me das vezes em que me falava sobre escolhas. De como eu escolheria alguém para seguir comigo no caminho que eu trilhasse. E eu soube escolher bem, pai…

Um dia, o meu olho cruzou o dele em uma avenida e eu já sabia que se havia alguém que pudesse ser o pai do meu filho seria ele. Até hoje, não sei porque e a amiga que me acompanhava ouviu que eu disse: é ele. Se existe alguém nesse mundo que pudesse ser o pai de um filho meu, seria ele. E foi!

Li em alguns textos e comentários sobre o marido ser parecido com o pai. Durante anos, acreditei nisso… Depois, pensando melhor sobre os pais de nossa família, entendi que o olho da filha sobre o pai é que designa essa teoria. Talvez, a forma em que vejo meu pai tenha trazido para mim o melhor pai para meu filho. Não é cientifico e nem posso provar. Mas posso dizer que minha escolha – ou a do destino – foi certa.

O que posso dizer é que não poderia ter pai melhor… dias atrás, entre suas palavras, afetadas pelo avc meu pai ria com o olhar. Reconheceu tão antes de mim, o homem que me acompanha vida afora na palavra amor.

E assim, dias atrás, o pai do meu filho me guiou com as mãos como se ele fosse o sortudo de ter sido escolhido por mim.

O Universo me presenteia com os melhores. Sempre. Os que riem comigo nos momentos engraçados e os que riem comigo, mesmo em momentos doloridos. Os que silenciam comigo nas coisas absurdas que se apresentam na vida e os que falam comigo sobre bobagens… Os que se tornaram pais por mim-comigo. O meu pai e o pai do meu filho.

Já vi tantos modelos de pais. Já vi tantas mães que são pais também e em tantos momentos que vivi como filha e mãe sou a pessoa mais sortuda. Sou pura gratidão.

Poderia ter escrito duas cartas, mas dentro de mim, um complementa o outro. O pai que me guiou até eu entender os caminhos da estrada e o pai que me ajudou a ensinar ao meu filho como se descobre os caminhos.

Amo vocês!
Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos pais e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Afetos · Das palavras das cartas

Beda – Das cartas que recebi

Mari,
Escrevo para responder as palavras que me mandaram – suas e as de seu pai – estava no metrô quando sua carta chegou. Sorte estar sentada, daí pude ler com calma. Sabe, Mari, há coisas nessa vida que é preciso estar em paz para se aproveitar como se deve: comer é uma. Tem que ser sentada e sem frio e sem vontade de fazer xixi. Outra, é ler. Por muito tempo meu tempo de ler era no banco do ônibus (e como chacoalham os circulares!). Às vezes penso que, em parte, enxergar tão pouco é devido esse gasto de leitura em ônibus ou nos trens de subúrbio. Bem, estou respondendo hoje. Agosto passado, te respondi do pátio da escola… Era um lugar que adorava! Vestia uma bata xadrez e tinha uma cigarra pousada na mão. Do pátio se via a cidadezinha iluminada embaixo de uma lona esburacada de estrelas. Fazia calor, apesar de agosto à noite. Hoje faz frio e não estou no pátio. Muitas coisas aconteceram de lá para cá, inclusive a passagem do Teté. Sinto falta dele e ler os conselhos de seu pai me deram alento. É preciso falar do que se sofre ou se alegra, por isso escrever e fazer terapia é tão bom. Falo com você na minha cabeça e tenho fotografias que querem dizer isso ou aquilo. Sei de cada imagem que fotografo e para quem são… É minha comunicação secreta.
Fazer bolo é também dizer que amo muito. Se chego a fazer um bolo para alguém, é sinal de amor. Há lugares também que consagro aos que amo. A biblioteca Mário de Andrade é sua, faço vênia antes de entrar, assim como faço nos teatros e nas agências dos correios.
Fui a São Paulo te conhecer de verdade, porque para mim era coisa de livro. Contei isso pro chauffeur depois. Era um moço japonês de nome Sérgio, que me deixou perto da Sé, na despedida disse que queria ter amigas como nós.
Subi as escadas do prédio antigo que abrigava um partido e fiquei olhando a cidade, é um ritual meu. É preciso ter rituais quando se tem uma janela em cima de uma cidade para se pensar na sorte que se tem e a bendita da paz para aproveitar os instantes que nos dão.
Naquela noite, antes de todo mundo chegar, agradeci por ter te conhecido de verdade.
Amo vocês.


Luciane Recieri
Agosto é o mês de receber cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Fotografia de Luciane Recieri

Afetos · Das palavras das cartas

Beda – carta para as bobagens dos abraços.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Luci,

Mais uma vez te escrevo uma carta. Sabia que te escrevo infinitas cartas na mente? Basta ver uma coisa que minha alma defina como poesia, escrevo para você mentalmente e cada vez que vejo a sua frase acima – que acho pura poesia – fico imaginando se você seria uma música de Belchior ou de quem seria…

Vi que no meio do seu caminho tinha uma borboleta, e minhas borboletas vagueiam no céu do meu lugar e pousam em tudo que é flor… e que para você, as segundas-feiras são lindas. Já eu, gosto das quartas e não gosto muito dos domingos. Quando é para marcar algo especial, marco as quartas-feiras e foi numa quarta que vi meu pai de novo, Luci. Te contei que eu ia lá ver ele? Eu fui, Luci! E meu pai estava como se fosse fruta da época – com o riso tímido de sempre, como se quisesse fazer uma confissão e não fez.

O olho dele, Luci… ah, o olho dele… cada vez que volto do meu pai a minha alma fica pelo caminho… e o olho dele vem junto. Ele falou tantas coisas e eu fui me perdendo nas palavras dele. Contou histórias que eu nunca tinha ouvido – ou não lembrava que ele contou – e parece que pai sabe sempre o que vai no coração dos filhos, Luci. Acho que dessa vez, o olho dele me contou coisas que não consigo confessar nem para mim mesma. Essa coisa de saudade que a gente sente e você sabe de noite quem seu coração chama.

Eu nem queria falar de despedida com ele… mas, ele sabia que eu tinha de vir embora e num abraço, beijei o cabelo dele, Luci. Parecia flocos de algodão. Lembrei-me dos rolos de algodão da fazenda e ele cheirava a algodão recém colhido. Depois, na volta, parei para além da cerca e via o campo todo branco, como se tivesse se vestindo de noiva… era alguma cerimônia e eu não estava preparada para isso. Me lembrei de tanta coisa que chorei. Fiquei a olhar os trieiros que separavam os pés de algodão. Na minha infância, isso era feito por ele, num equipamento chamado matraca… hoje, as máquinas gigantes fazem isso. Mas, o cheiro é igual de quando eu era menina.

A gente viu passarinho juntos… acho que ele ainda tem esse dom – que deve ter sido repassado para mim – sabia que os passarinhos vêm na mesa onde ele almoça e divide com ele os restos? Era tanta divindade que recusei registrar em fotos. Apenas orei, Luci… e mostrei você para ele. Falei do seu pai e do estuque verde. Li algumas cartas que trocamos e vi que ele chorou. Falei também para ele que você, Luci, para mim, é quase uma personagem de conto de fadas e de quanto você viajou só para ir me dar um abraço em São Paulo. Já fazem 6 anos isso e parece que foi ontem… ah, esse tempo doido, Luci! Parecem apontamentos dos dias que voam.

Contei que você se encanta pelas delicadezas das coisas e que sou muito sortuda. Ele disse que eu sou igualzinha a tu… Os iguais se atraem – meu pai disse isso em outras palavras e com a dificuldade de quem voa com a mente, mas se prende pelas sequelas do avc. Tem pai, Luci, que é essa ilusão de outro tempo. Fica registrado como se fosse um retrato 3×4 na carteira. Meu pai e o seu são assim.

Falei que a gente chora por qualquer coisa mesmo e que amamos cachorros… até os de rua e que aprendi com ele isso. Sabe, Luci, meu pai fez 91 anos e ele me falou de curas. As dores de quem perde um animal demora mais para curar – ele disse – porque a gente fica buscando presença em qualquer canto e cachorro é quase igual anjo. Mas ele me disse que tem dias que cheira a frio, mesmo nos meus quase 40º aqui. hoje é um deles e quis te escrever, só para nossos abraços se encontrarem nesse universo pleno de contato. porque a gente é assim, gosta de resolver bobagens e de abraçar, às vezes.

Contei para ele, Luci, que você tem a doença da saudade do Tetê e ouvi que essas doenças são cicatrizes que mesmo curadas, ainda ficam a marca. Faz parte – repetiu – e é sinal de que amou, assim como eu, que possuo a doença dos espaços imensuráveis dentro de mim… não tem cura, Luci… mas alivia sempre quando te escrevo… mesmo que sejam cartas que não te envio.

Grata por estar comigo sempre, mesmo longe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de escrever cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins  Roseli Pedroso


Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

Beda – 6 on 6 – a… gosto.

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei

Almir Sater

César,

Eu sempre quis te escrever e nunca consegui… hoje, as palavras ganham reforço onde o dia seria seu e coube diretamente minha palavra dentro do seu olhar. Você chegou na minha vida como um olho curioso de padrasto do meu marido e logo se posicionou como avô do meu filho. Daqueles desejos que grávidas têm… você cumpriu todos. Desde o mamão que eu vomitava ao comer até a fruta do conde roubada da vizinha. Você era o olho grudado em nossos desejos e meu filho virou seu neto de verdade, dentro do seu amor.

Para mim, você era sempre uma canoa à espera. Bastava chamar seu nome e você aparecia, como se fosse um super herói… como se estivesse sempre à espera. Como se fosse sempre o condutor do barco que me levava para outras margens. Era a forma segura de travessia… uma placa a indicar para qual lado era melhor seguir. Você foi guia.

Você estava sempre ali, como se estivesse preparado para ser o “pai”, o avô e o amigo. Era pescador e pescava ilusões em seus sonhos… Pescava vontades para os que você amava e peixes para alimentar a gente. E mesmo quando não trouxesse nada em seu embornal, o riso encorajador era mais do que alimento.

Você sempre foi essa margem para onde a gente podia ancorar… e o rumo torto onde a gente seguia mesmo com medo de se perder no caminho. Mas, você, sempre nos levava ao porto seguro e a trilha sonora eram as canções sertanejas, as modas de violas que até hoje quando ouvimos seu nome ecoa na saudade e nos nossos corações.

O lugar que você mais amava era o rio… a vara esperando o peixe… as nuvens alcançando a água como se determinando que seu limite fosse o céu… acho que é seu endereço hoje. Será que depois que a gente morre, o aniversário fica marcado em alguma folhinha?

Sabe, César… acho que não tivemos tempo de agradecer. Você foi embora tão ligeiro como se fosse um peixe que escapou do anzol… Mas, você teve uma importância tão grande em nossas vidas que a gente sempre ri quando vê um rio, um peixe, um anzol, uma isca… e quando a gente ouve uma canção que nos leva a você. Agosto é marcado para mim como seu… e aposto que você também gosta. Minha gratidão profunda por tudo que fez por nós e que seus dias onde quer que estejam sejam como seu aniversário, com moda de viola e amor.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de pescaria e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos
Contigo sinto azul em qualquer céu.


Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Ana,


Às vezes, eu volto nas noites, em dias que já fazem parte do passado… essa história de guardar os dias nos calendários que não gosto, mas que fica registrado na memória. Nessas horas, eu fico em silêncio e quase não cabe em mim a respiração.

Já te contei sobre sua pele e as veias azuis? lembro-me que quando a vi pela primeira vez – em algum agosto de algum ano – seu rosto escondido na cortina e vi suas mãos. Eu disse que nunca vi mãos tão brancas, com as veias saltadas e o azul fluindo… Pensei: ela tem sangue azul… Só te falei isso tempos depois, quando já conhecia toda sua pele, tecida pelas minhas mãos, nas curvas onde desenhei corações.

Hoje vi o céu e seu azul celeste… fiquei horas a espreitar as nuvens desenhando formas e o vento ia empurrando uma a uma rumo ao sul. A gente sempre falava do sul e de quais caminhos a gente seguiria até lá. Não fizemos isso e nem tivemos tempo de viver o norte. Ficamos com a bússola nas mãos a rir do nosso centro oeste. Era assim a vida com você… leve como o azul e as nuvens caminhando para o sul.

Esqueci algumas datas – você deve ter percebido – e algumas coisas que eram para serem esquecidas ainda continuam aqui. Já parei várias vezes na esquina da sua rua, como se algo me levasse até lá. O moço que agora é dono da casa me deu flores hoje… Disse que sentiu vontade de trazer, já que nunca mais fui lá. Dei um café para ele em troca e ele disse que o pé de laranjas deu flores e que logo teremos frutos. Ele disse nesse verbo mesmo, como se eu ainda tivesse parte nas árvores. Dei a ele mudas do alecrim que plantamos e que nunca deu flores. Não sei porque.

Fiquei buscando na memória esse dia, para ver se a data diz algo sobre nós… não me lembrei de nada, mas isso acontece sempre aqui… é nesses dias que busco Marte nesse azul do céu para chegar mais perto de você.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias azuis e de BEDA.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso