Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Possuo a doença dos espaços incomensuráveis.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Bambina mia,

Recebi sua missiva numa manhã seca, já com nuances de queimada em meu lugar. Diferente de você, eu aconteço nas manhãs e sigo rituais que meu corpo já acostumou viver. Coar o café, aguar as plantas, falar com os cães e pássaros, olhar o céu e sua infinidade de cores matinais e ouvir músicas… e daí me componho diante das horas…

Lendo sua missiva me vi durante horas no seu questionamento – quanta espera realizamos durante um dia inteiro? – e pensei nos caminhos invisíveis que cruzamos. No meu último encontro com meu pai falamos sobre o sentido das horas… ele disse que chega um tempo em que as horas não fazem mais sentido e que o sentido do tempo fica registrado no olho. Pensei em você e contei para ele como você “fazia” meus livros. O olho dele lacrimejou e um riso se desenhou dentro dele. Algumas pessoas são destinadas para nossas vidas – ele falou – e fiquei pensando nisso. E de como algumas coisas são comuns entre nós. Como os chás.

O chá ocupa minhas tardes, você sabe… Nas manhãs, eu sou cafeína e nas tardes sigo o ritual dos chás… Aprendi lá na infância com meu pai e tenho minhas ervas plantadas aqui, no quintal. Colho ora o alecrim, ora o hortelã, e outras ervas que tenho aqui… e também escolho a xícara. Sou apaixonada por xícaras e tenho uma preferida… Por falar em xícaras, queria te contar que meu pai ainda tem as xícaras esmaltadas em uma caixa de chapéu e fazendo a limpeza de algumas coisas, encontrei a minha – essa da foto que ilustra a carta – já gasta pelos anos e as mudanças.

Você sabe quantas coisas cabem dentro de uma simples xícara de chá?  Sua pergunta fez meu cuore saltar… eu poderia te responder essa pergunta com todas as memórias que o olho do meu pai desenhou. Nessa xícara com florzinhas amarelas, eu bebi leite tirado na hora, dentro do curral, café com bolo de queijo, na beira do fogão de lenha e chás de erva-doce para aliviar a febre. Ela foi companheira de uma vida toda e estava guardada com ele, como se fosse um tesouro.

Embora meu pai ame café, ele foi feito de rituais de chás. Daria um livro as histórias que ele conta sobre chás. Já te contei que na casa dele tem um pé de canela? Dessa vez, não tive sorte. As folhas ainda estavam verdes e não havia nenhum pau pronto para colher. Ai de mim se arranco qualquer folha sem o consentimento dele! Esse pé de canela é um santuário para ele e foi ali, na sombra dele que nossos abraços aconteceram na despedida. Parece que foi ontem e já fazem 7 dias.

O tempo e sua velocidade além de nós… O tempo e essa ligeireza das horas. Lembro-me que você me perguntou se eu já havia chegado de viagem… eu ainda tenho o olho do meu pai na alma. Acho que possuo a doença dos espaços imensuráveis, bambina. Cada vez que volto, fica um pouco de mim no choro de minha irmã, na benção do meu pai e em cada imagem que registro ao longo dos dias.

A tarde avança… é quase noite… uma canção ecoa aqui e o chá esfria na xícara. Aceitei seu convite brindando o ano 10 de Catarina.

Bacio,
Mariana Gouveia
*Último post do projeto 52 – 52 cartas escritas no último domingo de cada mês, durante um ano –
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em que asa, em que sol?

“Queria ter o sol só pra mim, tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus amigos mais íntimos” 

Luís Miguel Nava

Edi,

Posso eu te desejar mais do que o sol? Posso eu te desejar mais além do que asas? Devo te confessar que entre tantas conversas com sua mãe, em muitos momentos, nós duas te desejamos sol – nem sei se ela falou sobre isso com você – nos dias em que a notícia ou um telefonema dizia a ela sobre o frio do seu lugar. E em muitos momentos, eu te desejei asas… para que você fosse além das dificuldades que se apresentavam.

Sabe, dias desses, fiquei a lembrar-me da vez que te vi e te conheci… seu olho foi mais rápido do que a porta e alcançou sua mãe na cama. Eu, que já te conhecia de antes, de palavras, de fotos, fiquei ali, inerte, olhando seu olhar de amor para minha menina. Naquele dia, eu quis te tocar e dizer o quanto eu te admirava pelos olhos de sua mãe.

Lembro-me de quando nossos olhos se encontraram, eu já era reverência e logo quando você saiu, o brilho no olho dela foi de importância… Foi ali, que entre uma ligação de Marcelo e sua presença que senti a sensação de pertencimento em sua família. A minha – marido e filho – estavam no estacionamento aguardando o resultado da cirurgia, porque quando ela era frágil – e foi tantas vezes – ela era “nossa”. A gente a fazia forte para guiar você e seus irmãos.

Eu estive muitas vezes presente nas meias-noites em que ela esperava para te abraçar nesse 25 de julho – ihhh, e quanto ela demorava para abraçar vocês em datas especiais – e eu morando quase 15 Km de distância e brigando com o fuso – e sendo amparo ali. Ou parte do desejo dela. Ela era tanto amor quando desligava o telefone que eu movia céus e mundo para estar presente nas datas de 29 de maio, 16 de julho e 25 de julho.

Posso te confessar que você é um presente. Sua amizade é um amparo que me fortalece. Não saberia descrever a importância de sua mãe em minha vida e eu que ganhei ela através de Marcelo – ainda vou escrever sobre isso – tive a presença dela através de você.

Você é o extraordinário da poesia e tão menino dentro desse homem que abraço e te ofereço o sol para os dias frios e asas para alcançar o infinito, porque de alguma maneira ele te pertence… eu e ela já te demos ele de presente em anos anteriores. É seu! Basta pegar!
Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Ph: Cristina Coral

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

A vida por um instante parecia laranja.

Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.

Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.

O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.

Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
©️Aleah Michele 

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta ao meu amor da vida toda.

Eu disse que ele viria, nasceu!
E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia: filho é pro mundo
Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor das coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra: sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre, contente, e parecia dizer: É sábado, gente!
A freira que o amparou tentava reter
Seus dois pezinhos sem conseguir
E ela dizia: Mas que menino danado!
Como vai chamar ele, mãe?

Emicida

Filho, eu te chamei de Lauro Rodrigo, porém, mas do que seu nome composto, logo quando nasceu você era meu bebê… Depois, vieram os diminutivos – que aos olhos de quem ama é a expressão do amor. Você foi duas sílabas – rg – , foi Laurinho, zé das couves, John Play e é filho sempre. O tio, para os primos pequenos, o amigo que acolhe, o torcedor que sofre e empurra o time preferido, a voz em defesa dos animais, o homem que sonha e o nosso menino sempre.

Eu sempre achei que tinha essa doce carga de ser mãe. Antes de você, eu tentei duas vezes. Então, posso dizer que você foi o milagre das preces atendidas. E eu, que fico presa nas datas especiais, nem escolhi o dia 22 de julho. E como na ansiedade das esperas, você antecipou um mês a sua vinda. Um leonino que chega chegando. Era para ser agosto, o mês. Mas, com sua vontade de nascer, rompeu barreiras como se dissesse que pode fazer isso o tempo todo: Se eu nasci um mês antes do prazo, posso ser o que quiser. E pode!

Como se conta 34 anos em uma carta? Como se diz eu te amo nessa lonjura que nos afasta? Há uma semana e meia atrás, eu ouvi a palavra mãe sendo chamada de novo. Um barulho de chave no portão e sua voz ecoando na brincadeira com os cães.

E justificando esses momentos, guardei tudo em um potinho para abrir nos momentos de saudades. Parece que mãe sente saudades o tempo todo. Mãe sente medo o tempo todo e mãe tem coragem o tempo todo. E traz nas mãos sempre o rosário da fé, as orações na ponta da língua e o agradecer imensurável de quem foi atendida.

Se como artesã eu pudesse te bordar, te faria igual, porque a tenacidade e força que você carrega – mesmo duvidando dela, às vezes – é tão forte que ultrapassa a ciência. Isso, quando você era apenas o menino que saiu de dentro de mim e me fez a mais feliz das mães.

Te abraço dentro de minhas palavras nesse dia que não marquei, mas que ficou tão marcado em mim. O seu dia. Dá uma olhada na agenda que te enviei no seu dia. Antecipei um ano dentro de nossas vidas e se adivinhei o tempo de agora lá atrás, devo confirmar a teoria de que mãe sabe das coisas.

E sabe o que mãe é, filho? Mãe é asa o tempo todo, é colo o tempo todo e é casa o tempo todo… Então, como um filho nasce de Mãe, e sabe que se precisar, ele sabe sempre o caminho de volta e funciona como se nunca tivesse ido.

Feliz Aniversário em todos os seus dias sempre!

Te amo muito ❤

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta direcionada para a esperança.

Mana,

minha caçulinha, eu ainda era menina e me lembro do dia que você nasceu. O céu era tão azul que eu cheguei a pensar que ele só tinha essa cor porque você tinha nascido. Todo mundo comemorava a Copa de 70 e eu e nossos irmãos comemorávamos teu nascimento.
Você não sabe o quanto te amo e o quanto te desejo o bem. Nas tuas escolhas, na tua vida, na vida de teus filhos.
Queria poder com palavras traduzir e talvez até consiga, mas ainda assim, acho que serão pequenas as dimensões que elas conseguirão passar.

Hoje, minha carta é escrita com toda esperança que existe em mim na sua cura e do nosso irmão Messias. Sei que essa máquina de hemodiálise será apenas um atalho e logo o transplante virá.

A vida é tão leve – assim como a água – e que ela seja vivida ao máximo. A umidade que precisamos ter seja em um copo com água ou na atmosfera do ar é apenas um agravante para que possamos dar valor ao que temos.

Que esse dia, minha irmã, seja de alegria em seu coração, mesmo que seja simplesmente por ter acesso a uma máquina de hemodiálise – há tantos e muitos que ainda nem tem – e que você valorize o instante. O agora.

Te amo muito. Você é minha caçula preferida… ops, é a única!

Feliz Aniversário!
Te amo muito.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Caso perca uma pena de sua asa…

Querido Jean,

Eu devia dizer que guardo uma aqui? Dia desses quando estava a caminho da fisioterapia, me deparei com um olhar atento a mim… Confesso que meu riso se abriu para logo em seguida a saudade me abraçar. Vi um rapaz que parecia demais com você e ele riu, me acenou e meu coração acelerou.

O cabelo, o olho e a voz… foi como se um sopro de esperança me tocasse, para logo depois, a sensação da realidade me atingir mais forte. Não sei se meu olho captou apenas a saudade, mas o moço, parado, no ponto de ônibus acenou enquanto o veículo seguia seu rumo. Lembrei-me de que você é apenas essa saudade que faz meu coração doer.

Enquanto eu tentava segurar as lágrimas – porque será que a gente tem vergonha de chorar em público? – fiquei lembrando das últimas palavras que trocamos, do momento em que nos aproximamos tanto e de como a canção do Charlie Brown Jr nos uniu em algum momento…

Mas pra quem tem pensamento forte
O impossível é só questão de opinião
E disso os loucos sabem
Só os loucos sabem
Disso os loucos sabem
Só os loucos sabem

Confesso que muitas vezes, a data de hoje me chateia… queria riscar do calendário e apenas dizer que te amo infinito, além desse tempo e espaço que os humanos sabem… porque os anjos só entendem de amor e esse amor meu por você, é incondicional. Guardo sempre uma pena aqui, caso perca uma da sua asa.

Te amo,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Que a estrada te leve ao melhor caminho…

nesta via, de imprevistas geografias
curva fechada, pista escorregadia
só espero que os faróis iluminem este chão
– agora e na hora da mais árdua cerração
Albano Martins

Júnior,

“Roubei” uma fotografia que você tirou para falar um pouco com você e ilustrar o que meu coração te deseja. lembro-me de tantos momentos que te vi e hoje, confesso que lamento não ter conversado mais com você sobre as coisas.

Confesso que fiquei imaginando se te escreveria e como essa carta chegaria até você. Sempre te vi discreto e fiquei pensando se meu carinho chegaria até você da forma que eu gostaria que fosse. Espero que sim.

Meses atrás estive bem perto de você, e quis muito te ver, mas, infelizmente, não deu certo. Só que hoje é seu dia e como em dias especiais escrevo para alguém que toca meu coração de alguma maneira e veio em minha memórias alguns almoços juntos, nos sábados em que eu ia me encontrar com sua mãe. Resolvi te escrever aqui, no meu blog, que funciona às vezes, como uma caixa de correios, onde coloco minhas correspondências.

De alguma forma, me vi dentro de sua família há mais de duas décadas e a casa de sua mãe era meu ponto favorito nos sábados. Esse dia da semana era dela dentro do meu calendário e junto com ela eu vibrava nos aniversários de vocês. Eu vivia com ela uma extensão de minha família e isso não posso mudar, mesmo com a ausência dela. Quero estar perto de vocês, saber-compartilhar as vitórias e conquistas.

A minha memória revive ela diariamente. Todos os dias. Em pequenas coisas que nos ligava. Numa música que toca, no perfume que acabou, mas o vidro – mesmo que vazio – ainda permanece na cômoda, ao lado da caixa que ela fez para mim e nos dias especiais para ela, como hoje.

É o seu dia e te desejo muita coisa boa. Todas as coisas boas. Que teus olhos enxerguem além das lentes que mostram uma visão melhor e que você representa tão bem. Eu acho que ela está muito orgulhosa do pai que você é, do marido e do homem que ela deu a vida.

Que a estrada te leve ao melhor caminho e que você seja feliz. Temos em comum, além do amor por sua família, o amor pela fotografia e é baseado nisso que desejo que seus olhos só vejam imagens lindas, para além dos dias e de aniversários.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Luís Eduardo.

que abraço seria o nosso
se fosse possível podar um coração
como se fosse uma árvore
Raquel Serejo
Martins

Sabe, filho, depois que escrevi uma carta para seu irmão, que assim como você, só viveu algumas horas, venho aqui falar com você. Queria te contar tantas coisas e me vejo muda, sem palavras nesse dia que amanheceu estranho.

Acho que minha alma segue a tenacidade dos dias e como sempre faço cuidei primeiro das flores. Arranco as ervas daninhas que insistem em brotar aqui, uso o regador que improvisei para aguar elas e recebo o pouso das borboletas. Depois, sigo na rotina da casa e assim, a manhã passa ligeira.

Não me recordo desde quando os bichos vem para minhas mãos. Meu pai diz que desde sempre, porém, hoje, pensei no dia que em que você nasceu há 35 anos atrás. Molhei as plantas como sempre, recebi pousos na mãos… Alguém gritou no prédio vizinho, uma ambulância passou pela rua e a bolsa estourou. Minha vizinha protetora – dona Nega – me pegou pela mão e seguimos duas ruas acima rumo ao hospital, enquanto alguém avisava ao seu pai o tempo de você nascer.

As minhas mãos já antevia a vontade de te ter nelas e você foi leveza por alguns minutos. Nos dias seguintes, elas ficaram vazias. Repetiu-se o mesmo gesto que senti quando seu irmão também se foi. Repeti várias perguntas no coração, revoltei-me com a singularidade das coisas e chorei e mais uma vez, voltei para casa de mãos vazias.

Mas, descobri que o tempo é essa coisa inexplicável… e que você, filho, ainda é meu filho mesmo vivendo tão pouco comigo e que as mães sempre serão mães, mesmo quando os filhos vão embora… não importa de que maneira.

Ainda assim, eu folheio os calendários e conto os dias dentro dos anos. Minha memória ainda guarda coisas nossas e ainda tenho perguntas que nunca foram respondidas. Mas, cada vez que uma borboleta pousa em minha mão te embalo no coração.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Meus tantos… eu…

Mariana, Mariana…

Te escrever é como abrir um mapa e encontrar suas rotas… já se deu conta de quantos caminhos você andou? E os atalhos? Já pensou nas escolhas feitas a partir de um ponto?

Você se fez menina e suas memórias se alimentam das coisas vividas entre o campo e a cidadezinha, da lavoura para a cidade grande, de ouvinte para dentro do rádio. A menina franzina que teve de crescer… a mulher transgressora, que teve de virar menina.

Já te contei que você cura, foi bênção e foi milagre? Já te falei que aquele sonho de escrever para as pessoas virou realidade aos olhos do mundo e que suas palavras são lidas mundo afora?

Sabe, Mariana… já vivemos um pouco de tudo. Já enfrentamos algumas batalhas e foi aí que descobri que as escolhas tem sempre dois lados – no mínimo – e que nem sempre fazemos as escolhas certas. Quebramos a cara algumas vezes – e vamos continuar quebrando – porque a vida não vem com um manual onde você segue as regras e pronto.

Mas, sabe o que descobri? Que ser feliz só depende de mim, mesmo quando algumas coisas não vão bem. Que eu não posso colocar sobre o outro o poder de decidir quando e como eu possa sentir e isso, só mesmo o tempo que ensina.

Outra coisa que aprendi é que o tempo é realmente um dos deuses mais lindos, como diz Caetano em uma canção. E que ele passa em um galope. Daqui a um ano estarei escrevendo para a mulher em mim ou a menina sonhadora do meu coração?

Sempre digo que sou protegida e abençoada pelo universo pelas pessoas que ele coloca em meu caminho. As minhas raízes são profundas e feitas com muito amor e a minha entrega pela vida tenho certeza de que aprendi com você.

Seremos sempre pouso para os bichos – sem dúvida nenhuma – e seremos sempre abraços e mãos estendidas para quem precisar. Isso é o que faz com que no fim do dia o coração entre em acalanto e sossego.

Sabemos que mesmo que o dia não esteja tão bom, o riso será nosso escudo, mesmo que entre lágrimas… e que a vida é mesmo bonita de se viver.

Viva os 57 anos que a ternura nos moldou. Continuo contado com você.

Abraço,

Mariana Gouveia
Para a Mariana tantas que existem em mim.

Das palavras das cartas · Projeto52

Um elogio à sombra.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo


Jorge Luís Borges

Luci,

ontem senti tanta vontade de te escrever que acho que senti no meu coração o seu, todo doído. O tempo não é nosso, Luci… A gente olha a hora só de teimosia. Porque quando for o tempo de acontecer, seja voo, seja pouso a gente só vira essa miudez. Mas o tempo também é remédio e eu queria te dar um abraço nessa hora, sem tempo de largar.

Foi meu pai que me ensinou que o tempo cura e que a gente não deve temer as coisas que acontecem, pois de alguma forma, elas já estão destinadas a acontecer. Isso do destino, Luci, não tem como fugir, você sabe. Caetano já dizia que o tempo é um dos deuses mais lindos. Nana Caymmi, que ele é uma eterna criança que não soube amadurecer…

Sabe, Luci, a gente gasta tempo – que nem é nosso – demais com pensamentos ruins e às vezes, se esquece que a mente atrai as coisas. Então, que tal deixar essa sombra escura e começar a ver as coisas do seu lado da janela, com a visão que tem, de lugar bom e por isso, coisas boas te acontecem. Existe o lado bom, mesmo que a gente não veja, não perceba.

Eu espero que seu pai te receba com um riso hoje e que ele esteja forte par seguir vida afora. Ainda me lembro do tempo em que ele não queria comer. Você sabia, Luci, que os pais depois de um tempo viram crianças de novo? Meu pai está desse jeito. Mesmo com o olho lúcido e uma vontade grande de viver, ele, às vezes, parece que fica um tempo determinado em uma história que ele mesmo criou, como se fosse um personagem de um livro. O pai que vira menino e que conta causos que me faz ter medo das sombras.

Eu ouvi que somos o reflexo de nossa própria sombra, Luci e considerando todos os ensinamentos do meu pai a sombra não existe e eu fiquei olhando a borboleta pousada no chão do quintal e seu reflexo ali, grudado no cimento. Seria ela reflexo da asa da borboleta? Você entende de borboletas, Luci. Até cuidou de uma doente em sua casa.

Eu elogiei a sombra da borboleta e quando ela voou a sombra foi atrás, bailando como se dançasse, mas eu não consegui fotografar isso, porque parei no tempo, Luci, pensando no seu céu, no meu céu e no céu dos passarinhos… seria o mesmo céu das borboletas? Vamos tentar descobrir isso juntas?

Olha, Luci, essa minha carta é para te abraçar e dizer que às vezes, a beleza está no modo que vemos as coisas… mesmo em momentos tristes. A sombra pode vir até minha mão mesmo que a dona dela esteja de asas machucadas. A vida é assim. A única coisa que não podemos mudar é o tempo… mesmo que a gente possa pensar que pode.

Te amo, Luci.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega