Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

e as ipomeias azuis beberam da água que caíam.

Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam. Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas. O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal. Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo. Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela. A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.


Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
O livro está a venda aqui

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – miudezas

A vida é tão miudinha que a gente tem que vivê-la ao máximo para ela se engrandecer”
Minha mãe

Bambina mia,

A tarde já ensaia seu final aqui no meu quintal e ouço os trovões para além dos muros… você sabe que meu lugar tem além da ave de todo dia as miudezas que encantam meus olhos. O jardim é enfeitado por elas… E quando chove, eu tento protegê-las.

Eu poderia te escrever e falar sobre as grandezas que enxergo aqui… teria muita história e coisas para contar e mostrar. Mas, hoje, vamos falar sobre essas coisas mínimas, que muitas vezes, nem enxergamos quando passamos apenas o olho ligeiro.

Sabe, bambina, eu fico horas entre a levezas das pétalas e os insetos miúdos que aparecem aqui. Já enumerei mais de 100 espécies. Algumas, parecem partículas de átomos de tão pequenas e não deixam de ser, sendo que somos todos parte desse universo imenso.

Para falar a verdade, eu ia te contar sobre outras miudezas que povoam minha memória e traz lembranças da infância. Mas, essas, estão guardadas no Armário das Maravilhas e quando for possível, falaremos dela. Por enquanto, quero te trazer pela mão enquanto troveja e te escrevo a singularidade das joaninhas e insetos que moram aqui.

Quando me deparo com alguma lady bug – como tu chama – em uma folha, flor, ou capim, eu penso como somos pequenos diante da magia do universo – mesmo imensos em nosso tamanho e ego – e vejo aqui, nesse quadrado de 130 metros quadrados que é meu quintal a magnitude nas miudezas das coisas.

Bambina mia, muitas vezes, uma pequena demonstração de afeto muda o dia de alguém, um afago na cabeça dos cães faz o instante ser feliz, um riso leve para um desconhecido na rua faz ele se sentir em paz, mesmo que por poucos minutos. A gente nem sempre repara na pequenez das coisas… nem sempre somos tocados pelo mínimo, porque de alguma forma sempre queremos o muito. Mas, a vida é feita de pequenas coisas que nos engrandecem, como minha mãe me dizia, lá na infância. E como aqui, uma pequena chuva começa a cair, finalizo essa pequena carta para tocar a grandeza do tuo cuore.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesnais
Participam comigo:
Lunna GuedesRoseli Pedroso e Suzana Martins

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Luci aos cuidados das árvores

Querida Luci,

Hoje eu vim responder seu puxado de assunto sobre árvores. Aqui choveu o dia inteiro… aliás, desde ontem chove e o rio que corta minha cidade ao meio está a ponto de esparramar água ruas afora. São quase doze horas de chuva ininterrupta.

As árvores do meu lugar fazem festa… tem até pé de manga dando flor. Da porta da sala onde trabalho vejo as manguinhas se formando. São temporãs, eu sei…Mas essa água benta que cai favorece algumas a se manter em pé, florir, dar frutos e outras até cair, Luci.

Nos meus arredores não caiu nenhuma… mas foram derrubadas. – e isso é pior do que cair porque já cumpriu sua missão de árvore –
Aqui, derrubaram em nome de um progresso que nem veio. Falaram que iam construir o VLT, Luci e levaram centenas dos meus ipês que coloriam as ruas com suas cores para o lixo.

As ruas hoje, estão peladas de árvores. E não há também o tal VLT. Mas ainda há alguns lugares onde elas exalam a singeleza pura da natureza.

Ali, eu me faço descalça e peço a permissão para o abraço. Há o ipê rosa, o branco e o amarelo dourado… além do roxinho do araçá e a magnitude dos flamboyants.

Não sei se o tempo de uma figueira para renascer de novo. Sei que o cedro demora anos. Lembro até a canção que meu pai cantava quando ia campear o gado.

As árvores cumprem uma missão, Luci…A sua também teve. E assim, vamos seguindo catando sombras que tão gentilmente nos dão. As flores e algumas, a cura em forma de folhas e raízes.

Todos os dias, quando o ônibus me leva rumo a mais um dia de trabalho, eu ainda busco as que existiam por aqui. E faço como você, olho para o canto e as vejo – ou imagino – e ali, acato o céu em seu rumor de asas e sigo.

Dia após dia.

Beijo, Luci
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Escrevi mil cartas no meio da tarde…

Repeti nelas o episódio do dia. O pássaro de todo dia a vasculhar momentos no quintal.
O vento traz a brisa mansa. Desenho rotinas dentro da memória.
Fotografo a ave que te falei para que fique registrado.
Algumas das cartas rasguei, sem colocar no envelope.
O sol colore o céu com suas nuances de laranja.
Chamei seu nome mil vezes ao anoitecer.
Cabia saudade dentro da palavra falta.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
O livro está a venda aqui

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Havia um pássaro a derrubar paredes

– era o ninho vazio e a solidão da asa enquanto chovia. O gesto da noite de fechar as portas era ele quem fazia. Ficou vazio o canto onde ele dormia.
Nem cabia ninguém nessa ausência. A casa continha presença em todo canto.
Arrastei o tapete pela casa. Tentei vencer as horas dos lugares mortos. Um telefone toca ao longe e alguém grita. O cão late na ansiedade de um portão que não abre.
As gotas que aliviam as dores dentro do chá. A rotina do tic tac do relógio da sala. Fazia tempo que não chovia dentro de mim.
Respirar é um ato difícil dentro dos corredores. Nos muros, os grafites quase apagados – havia uma declaração de amor descrita na carta – e o pássaro invade o dia com seu canto.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
O livro está a venda aqui

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dentro do que lembrava de felicidade.

A carta veio dentro do livro. O envelope colorido a evocar lembranças de tudo que foi vivido. Ali, cabia a frase da música que gostava e continha a tradução do que sentia. Riu ao lembrar dos gestos que mãe fazia quando escrevia. Há quem diga que ela faz igual.
Podia junto com as palavras fechar os olhos e sentir o cheiro do mato, das verduras frescas da horta, do chá de hortelã a invadir os aposentos… a broinha de milho a atiçar a fome… até os gritos dos irmãos lá fora. A sensação é que se abrisse a janela as lembranças se materializariam diante dos olhos.
A letra miúda a descrever os instantes tão bem que poderia desenhar se quisesse.
A mão a acolher o voo, a ser pouso do inseto preferido enquanto os irmãos morriam de medo de qualquer ser que pudesse voar.
Era uma carta antiga… Lida infinitas vezes como se com isso pudesse voltar no tempo e apreender tudo de novo, dentro do que lembrava de felicidade.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Para ter um livro para chamar de seu, pode pedir aqui

Das palavras das cartas · infinitamente

É o inesperado que muda nossas vidas.

Ph: Ziqian Liu

Sayuri, minha flor

Lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta. As coisas que eu quis te dizer foi sempre nas mensagens trocadas, nos comentários em comum e na leveza do carinho que temos uma com a outra.

Mas hoje, eu quis falar com você. Em outros anos, a gente se falava horas por telefone e eu derramava minha admiração por você e mesmo quando não dava – como hoje – a gente se comunicava em pensamentos.

Esse dia é seu, Sayuri e eu queria escrever aqui seu nome lindo – o de verdade – que você precisa esconder para se proteger. Muitas vezes, pronunciei seu nome para o vento e com ele eu repetia sobre sua coragem. Poucas vezes eu vi uma mulher com tamanha coragem, mesmo cheia de medo. E tantas vezes eu quis te proteger. Queria te trazer para perto de mim e cuidar para que todo o sofrimento e lágrimas ficassem para trás.

Quando, por algum motivo, eu passo por alguma dificuldade e quero me abater, me lembro de você. De sua fala mansa e encorajadora. E fico tão grata ao universo por tê-la colocado em minha vida há mais de uma década. E não ouso fraquejar, porque de alguma maneira, te vejo tão valente diante de tantos obstáculos.

Hoje, mais uma vez, te busco dentro de um abraço imaginário e lembro de sua risada gostosa… e de como enfrentou o inesperado e transformou ele em lugar bonito de viver.

Felicidades todos os dias, para que o inesperado – roubei sua frase para dar título a essa carta – de fato, tenha transformado sua vida num lugar melhor., para que ninguém mais no mundo possa te definir em alguma outra coisa que não seja amor.

Te amo,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

só você sabia quantas flores eu usava


foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem.


Matilde Campilho

Eudes,

de novo eu te escrevo no seu dia e suspiro a imaginar nossa história. Será que onde você está se comemora aniversário? Será que o aniversário aí é igual aqui? Será que te dão presentes, flores ou outra coisa que seja importante aí?

Faço essas perguntas todas porque me lembro como você gostava do seu dia e de como resmungou quando escondi o presente até quase o momento em que ia me despedir naquele janeiro de antes. Todos os anos você me pedia a toalha bordada. E todos os anos eu bordava nas cores que você escolhia.

Hoje, conversei com Edi, e choramos juntos em uma distância tão longe e tão perto. Falei que queria contar a ele nossas histórias e sei que um dia isso acontecerá. Engraçado como o Edi se tornou mais próximo de mim do que Junior e Marcelo, depois que você se foi.

A gente fala sobre você, e às vezes, eu conto coisas que vivemos juntas. Hoje, me lembrei do physalis, mas nem falei com ele sobre isso – a frutinha da minha infância – e que você cometeu a loucura de trazer para mim dos Estados Unidos. Um pote cheio, escondido entre as roupas, na mala. É que você achou o physalis de lá diferente do meu e quis me encantar.

Eu fiquei boba com sua coragem e ficamos imaginando o que aconteceria se fosse descoberto o tal pote, no aeroporto. com as frutas ainda maduras e que secaram aqui. Foi a prova de amizade mais linda que ganhei e o pé que nasceu aqui ainda floresce e dá frutos. Cuido dele como se fosse um filho.

E assim, vou te mantendo nas lembranças e no coração. E estando perto de seus filhos te alcanço mais perto dentro do amor.

Feliz Aniversário!
Te amo sempre e infinito ♡

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – resquícios

Guardo numa gaveta de velhos objectos as tuas palavras, 
até que o bolor do futuro as apague
 – para que só eu saiba o que nunca me disseste.
Nuno Júdice

Leonor,

o ano já rompeu seus dias por aqui e só hoje lembrei de que não te escrevo há algum tempo. A moça que me escuta uma vez por mês diria que isso é bom e mandou que eu retirasse seus resquícios por aqui. Mas como se faz isso, Leonor? Pode me dizer como? Ainda tenho a moldura com sua foto antiga. Confesso que já coloquei ela na lata do lixo duas vezes e corri para recuperar antes que os garis levassem.

As louças que você trouxe e deixou aqui, com a promessa de que buscaria. Até a faca, Leonor? Lembra da faca que você comprou para cortar peixe? E as borboletas que enfeitavam a mesa e os pratos… não posso simplesmente jogar fora, como se não tivessem qualquer valor. E se um dia você aparecer e querer de volta?

De seu também ficou o vidro de perfume vazio – que ainda tem seu cheiro mesmo depois de tanto tempo – e o saquinho com ervas que eu mesma bordei. Era para você ter levado. Não sei se você deixou de propósito, com o intuito de deixar lembranças suas pelo meu lugar.

E as conchas, Leonor? Era para trazer o mar até o meu quintal… ficaram em cima da estante, com suas cores vibrantes e a estrela vermelha – tão nossa – se sobressai. Vai me dizer que não são resquícios seus? E nem falei das cartas emboladas no baú e dos envelopes abertos, com sua caligrafia.

Sabe, Leonor, de todas as lembranças as das manhãs são as mais recorrentes. O bule decorado com las farfallas ficou intacto na mesa. nunca mais coloquei o chá nele… e o quer café, flor? – eu ainda pergunto toda manhã, nas conversas com os cães.

Mas aqui, só ficou a xícara vazia dentro da memória. O pires exposto, sendo pouso para a colherzinha assim como suas mãos foram pouso para as minhas. São tantas coisas, Leonor, que não consigo enumerar assim, de súbito, numa carta – a primeira do ano. Será que ainda te escreverei mais vezes? Vou deixar que o tempo cuide disso e que suas lembranças comecem a ser aqui, para mim, apenas resquícios.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Suzana MartinsRoseli PedrosoObdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · infinitamente

Das receitas de fuxicos que não inventei

Haverá para os dias sem memória outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas, a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim. 
Haverá outro nome para o lugar onde não há lembrança de ti?

Eugénio Andrade

Eudes,

tenho tantas coisas para te contar, tantas perguntas para fazer, afinal de contas são dois anos que não atravesso mais a ponte em direção a sua casa. Todos os sábados eu já tinha uma rotina pronta, um mapa traçado das minhas horas com você. Devo te dizer que você bagunçou minha agenda e aquela coisa que a gente dizia que depois de um ano que uma morresse, a outra já estaria vivendo sem lembrar uma da outra… é mentira! Eu ainda me pego organizando meus dias deixando os sábados livres para você.

Também me pego discando seu número para te ligar para saber sobre artesanatos, livros para ler e até sobre os seus “meninos”. Você teria o maior orgulho deles! Embora tenha sido difícil para todos, eles estão fortes – a vida continua, bebê! – tu me diria. Eles morrem de saudades todos os dias, mas continuam seguindo em frente.

Às vezes, fico me perguntando se você escuta quando converso com você. A gente dividiu tanta coisa juntas. Os fuxicos, as caixas, as bonecas, as receitas de quiabo… Você me surpreendia sempre com meu prato favorito.

Nesses dois anos, Eudes, eu não atravessei mais a ponte e nem fui aos lugares que íamos juntas. Tem gente que diz que preciso ultrapassar isso, mas não é que eu não queira me lembrar de você… é que em todos os lugares que fomos juntas, sem você, não tem mais graça. A moça da loja de tecidos me ligou para dizer que havia chegado novidades e pediu para eu te avisar. Quando dei por mim, estava dizendo que avisaria.

Prometi ao Edi que escreveria nossa história e de como me fez apaixonar por você… Fiquei lembrando nossos momentos e as músicas que ouvimos nas madrugadas sem sono, ou com dores. Lembrei-me da chuva, das brigas, dos seus resmungos, dos seus abraços e de como sua risada ainda ecoa aqui.

Será se – você vai entender a frase errada – eu gritar bem alto e olhar o céu você conseguirá me ouvir? Você era tão minha ao primeiro toque do celular. Você era tão constante nas minhas ideias inventadas, nos artesanatos, nas doações. Mas as frases do fuxico foi você que inventou.

Teve um dia desses que olhei para o céu e vi todos os fuxicos que você disse que faria. No céu, você usaria cambraia fina e estenderia uma colcha em algumas manhãs para me aquecer de amor e foi isso que senti. Senti um amor tão lindo me aquecer feito de nuvens que você, de alguma maneira, transformou em fuxicos, só para deixar meu coração mais quentinho.

Te amo infinito!
Mariana Gouveia