Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam. Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas. O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal. Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo. Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela. A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.
Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
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