Das palavras das cartas · infinitamente

E se voássemos para onde o sol se dobra?

Se alguém já não tem a terra,
mas tem a memória da terra,
então sempre pode desenhar um mapa.
Anne Michaels

Luci,

Eu já vi uma árvore desencantar e foi essa da foto, Luci… Ela ficava no quintal da vizinha da direita e eu só via seus galhos e folhas. Era uma goiabeira – igual a sua – e servia de morada para grande parte dos passarinhos que visitam meu quintal hoje.

Naquele tempo, Luci, eu não tinha tanta árvore grande. As minhas cresciam devagar, de acordo com o calendário das árvores – você sabia que elas têm um calendário próprio, Luci? – então, por isso, eu agradecia a goiabeira da vizinha por abrigar os pássaros que voavam por aqui.

Um dia, fui reparando que ela estava ficando murcha, quase seca e de repente, tudo secou. Nesse dia, eu chorei. Fiquei lembrando do sentimento que meu pai sentiu quando o pé de cedro que ele plantou – quase igual a música que ele gostava de cantar quando eu era ainda menina – morreu…

Acho que nunca contei, Luci que meu pai era lenhador antes de ser pai, tinha até uma fotografia em preto e branco, num quadro da nossa sala, onde letras garrafais escritas por alguém importante da cidade dizia ele ser O Rei dos Machadeiros… mas ele mesmo disse que havia plantado o pé de cedro para justificar as árvores que ele arrancava, seja para desbravar lugares, cidades ou mesmo na formação de roças.

Mas, um dia, ele ouviu uma árvore gemer, logo no primeiro golpe de machado. Foi ali que ele aposentou seu machado de vez, quebrou o quadro e depois disso, passou a criar florestas por onde a gente passasse.

Eu agora, Luci tenho no meu quintal um pé de jabuticaba, de algodão, de orai pro nóbis, um de ipê amarelo – que tinge meu quintal de dourado de vez em quando – e um pé de guariroba – uma espécie de palmeira – além outras plantas menores. Lembro-me de que meu filho quando veio de férias estranhou quando abriu o portão e disse: temos uma floresta aqui?

Para além da rua de cima, tenho árvores de estimação em alguns lugares preferidos. Um flamboyant na estrada da faculdade, um ipê rosa no ponto final da linha 609, um ipê branco no estacionamento do shopping, um araçá na rua de baixo e tantas outras em lugares que gosto de ir.

De vez em quando vou visitar esses lugares para falar com essas árvores, Luci… um dos meus amigos pajés me ensinou para abraçar elas quando minha alma estivesse triste. Isso tem funcionado, de alguma forma, em dias difíceis. E fiquei pensando se não seria elas algumas pessoas encantadas me consolando…. será, Luci? Eu não sei explicar sobre isso. Quem sabe um dia teremos uma resposta. Por enquanto, seguimos o calendário do sol, que já vai alto por aqui. E se voássemos para onde o sol dobra, Luci? Seria também uma espécie de encantamento?

Um beijo carinhoso,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi.

Mari,

Quando me mudei para essa casa, meu guarda-chuva tocava as árvores da rua. Nesses quase vinte anos, chegaram na altura adulta e mal vejo as copas.

Tenho muitas histórias com as árvores da minha rua, uma vez, cuidamos de uma goiabeira quebrada. Colamos com seiva e fizemos ataduras, mas ela se recusava a sarar. Pensamos num plano de roubá-la numa noite escura, mas um amigo advogado nos advertiu do perigo que há em salvar, poderiam chamar a polícia ao ver as gravações da rua e assistimos ao seu fim silencioso.

E ninguém percebeu que a menina esguia que já estava na inflorescência, havia morrido.

No verão de 15, um raio partiu minha figueira. Parecia uma nau com seu rangido quando atraca.

Sofri com o vazio que ficou.

Dessas que vê na fotografia, são sobreviventes: muitas caíram ao longo desses anos, parecem não gostar das estações das chuvas.

Outro dia percebi que fizeram um coração com iniciais em uma paineira. Isso me doeu tanto quanto fosse tatuada em mim um amor que nem dura a infância de uma árvore.

Mari, já te contei que vou virar árvore quando me encantar?

Carta e fotografia de: Luciane Ricieri

Corredores, Codinome Locura

Feliz dia do professor!

De todas as sortes que tive, havia sempre um professor(a) que estava comigo. Até quando eu pensava que chorava dores de amor, tive uma voz, um amparo, uma seta que me indicava o caminho.

Tive e tenho mestres que são mais do que mestres. São amigos que por fim, me orientam e ensinam a fé, perseverança, esperança, equilíbrio e coragem.

Muitos me ensinaram as letras, adjetivos, e tantas coisas que vão além do plano educacional. Mas, também aprendi que a educação transforma e que os professores vão muito mais do que uma profissão… Ser professor é uma missão e nos tempos atuais, é uma guerra. E vão à luta todos os dias, mesmo com todas as adversidades que uma guerra apresenta…
Hoje, vocês, professores, são mais importantes do que nunca.

Muito obrigada por tudo!

Mariana Gouveia
Ph: Pinterest

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Escrevi mil cartas no meio da tarde…

Repeti nelas o episódio do dia. 
O pássaro de todo dia a vasculhar momentos no quintal.
O vento traz a brisa mansa.

Desenho rotinas dentro da memória.
Fotógrafo a ave que te falei para que fique registrado. 
Algumas das cartas rasguei, sem colocar no envelope.

O sol colore o céu com suas nuances de laranja.
Chamei seu nome mil vezes ao anoitecer.
Cabia saudade dentro da palavra falta.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Eu…

Eu, aos quatro anos na floresta encantada, andando com meu pai vendo um bezerro nascer, a comer uma fruta do conde e a olhar para a minha mãe, tão suave parecendo moldura de quadro, na janela da casa a sorrir.

Eu aos seis anos, com uma boneca de pano rasgada, a perguntar à minha mãe se ela morreu e se vai para o céu como os tios que já morreram.

Eu aos nove anos, com um cogumelo na mão entrava pela primeira vez na floresta adentro, cortei o dedo com o canivete e meu sangue se misturou à terra vermelha e fui batizada pela natureza, é o meu aniversário, estou feliz e as velas do bolo eram as estrelas no céu, e meu pedido era de que a poesia em que eu vivia preenchesse minha vida até o fim dos dias.

Eu aos treze anos sentindo a brisa no rosto, o sol do outono queimava a pele quase numa caricia, havia lido cartas de amor e sentia um fio de sangue quente e a voz da minha mãe a dizer-me que é assim mesmo, filha, agora já és uma mulher.

Eu aos quinze ano era coroada rainha da festa da cidade onde nasci, vestia o vestido bordado por uma fada e todos os olhares me fazia querer fugir e eu sem saber o que fazer. Via meu mundo mudar e a mãe ir para onde os tios já haviam ido e perguntava onde está minha boneca de pano e o cheiro da floresta e meu esconderijo de criança?

Eu aos vinte e um anos, recém-casada, a perceber que a vida real não era o conto de fadas, os pés inchados e a chuva súbita… um filho a crescer dentro de mim e a morte a tomar e eu a me perguntar se minha mãe o recolhia e cuidava dele pra mim.

Eu aos vinte e três anos mãe, a respirar comigo um menino que tinha olhos brilhantes e me fazia acreditar que havia um céu na terra.
Eu aos trinta anos num automóvel, morria de medo de dirigir e enquanto corria por medo de perder o ônibus a minha vida corria comigo, tal e qual como dizem que acontece a quem morre de repente ou ver um rio na tua frente e não sei nadar. Sinto o vento na cara, escrevo algo na janela, respiro e escrevo poesias…

(eu ainda escrevo poesias).

Eu, aos 43 anos descubro uma dimensão onde ela vive e passo a viver do mesmo ar e da mesma sintonia, me derramo em poesias e percebo que pra ser feliz é preciso pouco.

Eu, aos 46 anos volto ao mesmo lugar de antes, o lugar das poesias que revisitam meus sonhos e vejo que é o mesmo amor e há certa fascinação pelo abismo que é onde estou de pés no chão, prontos pra voar.

(e eu ainda escrevo poesias) …

Eu, aos 48 anos reparo que as rugas redesenham meu rosto e que alguma coisa sempre dói quando me levanto. Ainda não tenho netos. Visito a floresta de vez em quando. Vasculho as flores em busca de vidas mínimas, descubro que gosto mais de mim agora.

(eu ainda escrevo poesias, mas que para isso preciso de encantos).

Eu, aos 57 anos, ainda tenho muitas perguntas sem respostas – também tenho muitas respostas para algumas perguntas. Ganhei uma neta e um neto de coração. Ainda me encanto com as vidas miúdas, ainda sou dominada pelos animais.

(e ainda escrevo poesia – mesmo que o encanto não seja o ponto principal.)

Mais do que escrever poesias, já tenho 6 livros publicados. Ainda enfeito as tranças com fitas de veludo laranja – embora de cabelos bem curtos – a menina que habita dentro de mim.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

Revirou a terra e inventou sementes.

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.

O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.

Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.

Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
Das infinitudes

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Existe política além do voto.

Querida Maria,

Como vai? A leveza de sua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que percorre? Espero que sim… eu quero saber de você e também preciso entender como ignora a tarja exposta sobre meu país…

Se bem que hoje… eu prefiro não perguntar sobre o tempo… que é esse menino fujão a nos roubar a razão. O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias, onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que atravessou o dia em que meu país errou feio, perante o mundo — e eu, que simpatizava com astrologia —, me desencantei.

Eu vi no cartum do jornal do dia, bem no meio da página, a sua pergunta — “você votou em quem?” — e colhi o seu espanto diante de minha resposta, que foi cercada de outras perguntas.

Logo você, que possuía todas as probabilidades de ser afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente. Falei sobre o que acredito. Da liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos, que sofrem todos os dias na rua. Maldita indiferença, intolerância, desrespeito que marca muros e calçadas das cidades desse país, tão cheio de fronteiras e divisas.

Se eu te contar que minha posição é ideológica, será uma mentira. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava no meu jeans rasgado e no Karaokê: “ideologia, eu quero uma pra viver”. E você queria me ver ideológica aos 40?… depois aos 50? Impossível… tudo se quebrou diante dos mitos falsos… eu sei o nome de todos que surgirão ao longo dos anos desde o nascimento.

Não, Maria! A ideologia é apenas mais um cartaz exposto nas estações e nos muros pichados. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes — como eu fui nesse antigamente, que ninguém se lembra.

Não pude fazer grande coisa, o medo tornou-se real e a afronta diária.

Hoje, no entanto, o meu medo tornou-se aliado do existir e com isso (r)eeinvento uma cidadã, que achei e não pensei existir ainda. Sou a própria resistência e indecência… a própria (r)existência dentro de um Sistema… e é como estar a bordo de um trem, que me renova a cada parada ou obstáculo. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. É pelos que amo que saio de casa. É por estranhos que insisto.

A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias, me vejo boicotando-as. Pior, duvido de tudo que leio e me espanto no que ouço-vejo nas pessoas, essa fé cega, essa esperança de futuro.

Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, ao meu lado… logo mais adiante, em um bairro distante… noutra rua-casa. No meu país e talvez eu não seja afetada pelas manobras do governo atual. Talvez muitos não sejam. Mas sei que alguma pessoa, em algum lugar, será… e por isso cumpro meu estado de (r) Existir. Preciso ser forte e seguir adiante, com a minha luta diária, que é a mesma luta de muitos.
#ninguémsoltaamãodeninguém #elenão #Lulalá!

Beijo,
Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

Dessa vez, para sempre.

Esses vãos escondidos no branco dos olhos
criou de tanto olhar, saudade.
E a chuva não aguou os instantes
que seriam para a eternidade.

Ah, esses vãos subtraídos
dos instantes todos
recolhem vestígios de gozo
nos dedos
sabor agridoce na alma
e cheira a lua que todo mundo espia
e que reflete a vontade
e o silêncio que dura uma eternidade.

Ah, esses desavisos de agonia no peito.
É noite, onde pisei descalça
em homenagem ao sonho que fica e dura.
Essa ansiedade toda de que a lua faça
você abrir a janela, pensar em mim e voltar.
Dessa vez, para sempre.

Mariana Gouveia
Ph Philippe Deutsche

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

a invenção do vivível

I

Do lado de fora, a vida
em estado de holograma:
Mergulho impossível

II

Ainda assim,
crer no nado
fabular a margem

III

Do lado de fora, a foto
em tamanho irreal
dentro: a invenção do vivível

Anna Clara de Vitto
Estradas para os domingos
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – MISS you

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Leonor,

Muitas vezes eu quis mudar o calendário, ultrapassar as rotinas e te esquecer. Mas, todos os dias, nos rumores que a casa vazia faz – logo pela manhã – vem seu nome ecoando lembranças e saudades. Mentalmente, refaço os rituais e passos dos dias em que esteve aqui e dos dias em que se foi, deixando apenas a casa cheia de saudades.

Já te contei que mudei minha rota para não passar perto de onde seu olho se encantou pelas flores do ipê? E que mesmo não atravessando a alameda onde antes era um lixão, eu canto a canção que fala dessa saudade.

Devo confessar que já rasguei algumas cartas sem enviar e que rabisco seu nome em tudo que é lugar. E quando vejo as nuvens se enfeitando como se fossem bolas de algodão, eu recordo as manhãs que o céu do meu lugar te presenteou.

Para a gente, o olho buscava sempre a imagem que marcaria o momento – tão nosso – e se eu soubesse que você se afastaria de vez, não iria permitir tantas lembranças para memorizar agora. A gente sempre via coração em todo lugar e hoje, só vejo metade dele nas folhas, nas flores, no céu.

Como se até a natureza soubesse que sou essa metade insana dentro da saudade que sinto.

Acho que já me acostumei com sua ausência, Leonor… o que não me acostumei foi com essa saudade quando ouço as canções que falam de nós, dos poemas escritos como declarações de amor e com o vazio que ficou em mim.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins Roseli Pedroso