Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Aqui não tem base as épocas para o tempo ser passado.

Leonor,

Eu devia começar a escrever perguntado se você está bem, se suas lembranças ainda pertencem a mim e se o oceano acolhe suas lágrimas em noites escuras, mas, acho que isso é tão clichê entre nós que prefiro apenas dizer que refiz nossos passos dias desses.

Foi como se um vácuo me puxasse para o tempo do passado e parecia tão real que juro que pensei que fosse hoje. Aquela estradinha que fazia o desvio para a avenida principal do bairro continua igual e lá na cerca da casa do homem barbudo estava o coração que a dalechampia representa. A fotografamos juntas, lembra-se? E do besouro na cerca? Se eu fechar os olhos ainda vejo seu espanto diante da beleza do inseto.

Sabe, Leonor, vi minhas ruas do bairro diferente sob seus olhos e vi a diferença dos dias com você aqui. Agora, eu só me acostumo com sua ausência – só que sinto cada vez menos – e imagino que chegará um dia em que você só será um verbo no pretérito imperfeito – eu te amava, eu pensava em você – e daí, tudo será apenas uma lembrança, com as suas coisas guardadas no baú.

Eu até acreditava em nossa história bonita. Desenhei instantes na memória e várias vezes refiz nossos passos, nossas madrugadas e nosso encontro. Alguém chamaria de destino essa coisa de uma se descobrir em outra mesmo com um oceano entre nós.

Mas como você mesma disse em alguma carta escrita em apenas três linhas, enviada em um envelope azul desbotado: isso tudo é passado e eu repeti mil vezes a frase para que ela se firmasse em minha cabeça e meu coração reconhecesse como fala sua. Aqui, Leonor, não tem base as épocas para o tempo ser passado… mas terá. Um dia, tudo isso será apenas lembrança guardada em um baú trancado.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Aos cuidados de novembro.

Sombra, não sabia explicar.
Era como uma pessoa, mas que não existia sempre.
Assim como quando dançava: passava a existir.

Luci,

Eu já te contei que converso com você aleatoriamente nos meus dias? Em uma visita ao meu pajé, ele aconselhou que eu falasse sobre o que sinto com alguém. Foi uma viagem longa e eu desabei no caminho. Daí, você surgiu e a gente se aliou junto com a esperança.

Me lembro exatamente de sua roupa no nosso primeiro encontro, do primeiro abraço e do calor do seu abraço… Eu já te escrevi em vários dias e meses. Agora, te escrevo aos cuidados de novembro. Esse mês que é peculiar em meu calendário.

Eu descobri você anos atrás… essas coisas que a gente nem pode explicar. Fiquei até com medo de te tocar e você sumir. A gente estava na Biblioteca Mário de Andrade, era lançamento do meu livro e você havia seguido um roteiro tão louco para me encontrar que eu quase ajoelhei ali para te louvar.

Luci, até aquele primeiro abraço você era uma ilusão de Amelie e Jackie Onassis… A Anna era uma das fadas que eu esperava encontrar quando entrasse na floresta. Eu a vi poesia, laranja, música, vento, canção, sombra e dança.

Estou te dizendo tudo isso para falar do que você queria saber.
Sabe quando a gente vê uma imagem e é como aquelas cenas de filmes que o vento sopra o cabelo, as cortinas balançam e o instante para? Eu vi magia, Luci! E mesmo que eu pegue uma definição de um quadro de Gaudi, uma tela de Hopper, uma solidão minha nas madrugadas, eu ficaria em silêncio…

Sabe quando você vê suas memórias como Déja Vú? É como se eu dissesse que já estive ali, como se a garrafa tivesse minhas digitais e como se eu dançasse com as sombras – tuas – e só pensasse em poesia.

Você viu emoção, eu sei… eu vi acontecimento, Luci. Porque aconteceu e a gente já sabe que o próximo ano será de esperança, Luci. Estou te escrevendo isso antes dessa data. O ontem, para nós, já se tornou futuro e eu escrevi em dias de outubro – porque prometi que o faria – e a gente sabe que não será fácil.

Mas, daí, Luci… eu fiquei abrindo cada imagem que você desenha em seus dias e Celestine me acalentou. Esperança nem sempre precisa ser verde. Às vezes, tem patinhas escondidas, enroladas sobre o pescoço… e o branco dos pelos a pedir vontades. Foi aí que acreditei… Porque a gente antecipa cores em vermelho e acredita em todas as diversidades e o arco-íris que se projeta num céu, marcando presença.

Eu acho que você queria me dizer que o futuro é logo ali, depois de mais alguns dias… embora novembro começa com esse bater no peito de esperança, a gente sabe que limpar a sujeira é muito mais difícil do que a gente pensa, mas os dias de novembro nos permitirão sonhar.

Nós existimos, Luci e resistimos a tempos doloridos e duros, mas podemos romper as sombras e dançar, mesmo que seja em estados e lugares diferentes.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Fotografias: Luciane Ricieri
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas · infinitamente

Das infinitudes

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.

Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Preto e branco

A última música ainda toca aqui e o mosaico das
fotografias em preto e branco no fundo da caixa…
alguém um dia leu as linhas de minha mão e traçou uma rota de saudade… Era você a personagem
do livro que sublinhei, por quem me apaixonei e
repetia o teu nome dentro da frase “eu te amo”
que se tornou um mantra na minha boca.
Era uma fuga ao passado — sem bússola, apenas
para dizer que no espelho o sonho dorme, o desejo chega e as cores somam… E ao revirar essas coisas todas — tão nossas — percebo que sou o filme
não revelado ainda na câmera e restando fotografias para clicar.
Dizem que ao abrir a câmera, o filme vela… seria
então o nosso fim?

Mariana Gouveia
Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Tumblr

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

quando restou apenas uma flor no ipê…

a ave de todo dia voou, já era tempo de espera para a cura.
A rua de cima invadiu o quintal com os gritos das crianças
empinando suas pipas e a vida, ali, parecia normal.
O tapete amarelo no chão já tinha se tornado húmus
e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza
de que tudo é breve veio com a flor no chão.
Dessa vez, o pássaro apenas se conformou e ficou à espera de outro botão abrir…

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

infinitamente

As flores miúdas acontecem no quintal.

Havia rumores de lendas dentro da história que alguém me contou.
Li sobre esperança em algum lugar enquanto as sementes germinaram no doce desafio de viver.

O vento tentou morar na mão e saiu desatinado dançando com as coisas que encontrava pelo caminho.

A estação marca presença nos dias e outubro se esvai em conta gotas na imensidão das horas.

A sorte passou por aqui e pediu para avisar que ainda, apesar de tudo, é tempo de sonhar.

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

Antes do temporal,

na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia – os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser – e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.

Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…

Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

Mariana Gouveia
das infinitudes

Divã · infinitamente

Tem jeito de anjo, a moça

mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém

Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas
e pensa em salvar o final feliz da história.

Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)

exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz

e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

Divã

Ela é sóbria

Não tem moedas para pagar o preço de ser livre.
Cruza pontes estreitíssimas e ri.
Adoro a estrela que se insinua em seu riso.
Corteja os azuis em um tempo manso.

Tem vontade de voltar para casa,
se bem que a casa dela é em qualquer lugar.
Brinca com as correntes que não fez. Eu rio.

Ora para que o plano A dê certo,
e no C cruza os dedos.

A vida sorri para ela.
Às vezes, ironicamente.
Mas ri quando no pote de feijão encontra sorvete… e amor.

Plena e indizivelmente batiza seus silêncios.
Tem álibi, atreve-se. Ama.
Sempre se deixa enternecer pelo que a alcança.
Talvez, por isso, as pedras não sejam pedras, mas flores.

E tudo que desejo é que o amor há de encontrá-la
desatenta e assim, entre as palavras e o sorriso ela seja feliz.

Mariana Gouveia.
*imagem: Tumblr