Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Anne

Querida Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega – tão eu/você aqui – em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro – me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.

Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser apenas uma dona de casa, mas libertária.

Vi seu olho escorregadio nas fotografias antigas e respiro essa ansiedade vinda de você e atravesso sua poesia com a alma nas mãos.

Como não confundir esse medo real que bate a porta com a sensibilidade quase habitual na palavra morte? Como falar sobre sexo, amor, medo e solidão? Já viajei contigo nesses caminhos tortos e quando percebi, estava só e seus poemas ecoando em mim:


Tudo em mim é um pássaro.

Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.

Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.

Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Um sino que toca me faz lembrar que hoje tem missa e que mais uma vez perdi a hora e não pude atender a senhorinha da esquina que pedia um poema quase reza em homenagem a santa do mês. A fé se perdeu nas pessoas que se foram. Sou eu, essa falta de tato dentro da solidão.

Sou esse pulso vazio sem veias na impressão do que acontece no dia seguinte no diário oficial. O rito é esse compasso de espera, de vagar nas lembranças de um tempo que passou enquanto olho-e-te-vejo-olho-e-me-vejo. Sou eu ali, nas entranhas das frases escritas por você e onde me perco na vaga promessa de uma oração de fé no que não acredito.
Hoje, o livro dorme em silêncio enquanto abro os braços e chamo seu nome… vem?

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Sylvia aos cuidados do poema

Ph: Mariana Gouveia

Sylvia,

Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar…  mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei…  mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.

Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.

Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.

Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.

Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo.  Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.

Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher. 

Grata tanto!
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna GuedesSuzana Martins Roseli Pedroso Obdúlio Nunes Ortega

infinitamente

Desenhei a sorte…

no topo da lista dos desejos – isso, anos atrás como querência de amor tranquilo – e fiz e refiz em oração a palavra amor.

Nas simpatias, nos dias dos santos, o nome surgia em forma de código e na casca da laranja, retirada inteira, sem quebrar, a letra do seu nome gerava riso entre os irmãos.

O tempo junto com o universo tratou de ouvir meus pedidos e a sorte, hoje, mora comigo e cuida de mim.

Na canção que canta para mim, fala do amor infinito. Na oração diária, a esperança de cura. No cuidado do jardim, a simbologia da primavera que me oferece em gestos.

O amor é isso e mora comigo nas noites de insônia, na mão estendida, no ombro de amparo e até no silêncio, quando as poesias me habitam.

Ter você por todos esses anos é acreditar que muito mais que o amor de homem e mulher, a amizade e cumplicidade nos faz mais fortes, mais unidos.

Te amo sempre!
Grata por tanto!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E se floríssemos em preto

e branco como as divas mudas?

Carmen Picos

Ph: Gaëna da Sylva 

Carmencita,

só hoje soube de sua partida há tantos meses atrás e como prometido te escrevo. Gil canta no repeat. Reli as nossas mensagens até chegar em seu silêncio. Como alguém vai embora assim sem tempo de despedida? Depois, suspirei e agradeci por ter tido a honra de ter você em minha vida, mesmo que por trás dessa tela.

Ficou para trás a promessa do encontro, do abraço, dos poemas que eu leria e dos que faríamos juntas – quem sabe, um dia, para além dos mistérios que a gente desconhece isso não aconteça – ficou em mim o carinho que sempre me dedicou e da diva maravilhosa que se transformou aos meus olhos.

Eu te dava relatos diários do Chiquinho e você falava de música e agente falava de filhos. De gatos, de animais, de flor, de luta de Brasil e do mundo. Você me levava Espanha afora… madrecita, arriba e cariño…

Eu te achava revolucionária e você era fã do Che e de tantos outros que eu reverenciava também – e dos risos… – e a gente ria através de letras… era tantos kkkkkk e tantos hihihihi, hahahaha e tantos uias… e um dia de repente a gente se declarou… um eu te amo se confrontou com o eu também e o tu me faz bem e o Carmencita virou sinônimo do meu carinho.

Te contei sobre meu milagre de cura e você falou do milagre do universo que liga pessoas de lugares distantes como se fizessem parte da família. E assim, a gente foi tantas em mensagens únicas que nunca apagarei. Serão como mantras em dias difíceis.

Você é minha diva onde quer que esteja, em qualquer lugar do universo ou apenas em meu coração. Você será meu sorriso quando uma lembrança me trouxer você e quando um pássaro atravessar o céu seu sopro chegará até mim como se fosse abraço.

Voa, pequeninha!

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Equinócio de Outono

Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar.

As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas.

Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estiochuvaestio…

Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…

O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.

Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo

Mariana Gouveia

infinitamente

Alquimista

Minha mãe era uma alquimista – embora ela talvez nem soubesse o que significava a palavra – e fazia mágica em tudo que tocava. Não fazia chover, como ela mesma dizia… mas fazia a delicadeza brotar em encantos bordados pelas mãos dela… dedos finos a tocar a linha como se fizesse carícia com o tecido.

Os bordados feitos com a delicadeza que ela sabia tão bem começava antes com o plantar do algodão e esperar seis longos meses para a colheita e só depois disso começava o preparo da linha. A fiadeira a dar o ponto e a espessura do fio.

Quando ela sentava no banquinho ao lado da roca, isso, depois de colhermos um a um os capuchos, colocados para secar até a hora de fiar, enquanto colhíamos as folhas-madeiras-galhos-cascas de diversas árvores que ela sabia tão bem qual cor seria a linha a ser tingida e ela ganhava – aos meus olhos – ares de bruxa ou fada. O cabelo de coque feito, o suor a escorrer no rosto como se tocasse a face de uma rainha – e ela era a nossa rainha – e o olho a medir a quantia certa de água e folhas ou raízes. Era um ritual que ela seguia – e a gente também – passo a passo… a folha da amoreira produzia um verde mais claro e a casca da cebola fazia com que a linha ficasse sépia e com isso o tecido ficava quase creme – ou beirando a isso – durante o processo químico. O caldeirão no fogo a ferver e o tempo certo do tingimento… a troca das folhas e o mergulhar do pano na água quente dava à ela o poder da cor e eu ficava encantada vendo o processo.

Depois da linha tingida, secada e tecida era a hora de bordar e criar delicadezas com as mãos. Os riscos desenhados por ela e o trabalho pronto me dava a sensação de mágica e assim, eu aprendia a arte do artesanato. O enxoval das minhas irmãs eram criados por ela e os das meninas de toda a região. Era a poesia desenhada em monogramas – que ela adorava fazer – onde o tecido era o papel enquanto a chuva caía.

Mariana Gouveia

infinitamente

Era uma vez, Marte

O dia ganha visão de outro planeta. O horóscopo avisa que Marte continua em meu signo – ainda – e eu respondo que Marte vive dentro de mim.
A saudade invade quando visito o lugar dela. Cada canto tem a presença forte ali. Viva. Intensa e vibrante.
Olhos me espreitam na sonoridade do dia. Os cheiros das frutas, o canto das aves e a garoa fina que cai.
Isso é de outro planeta – ouço o inquilino da casa dizer – esse quintal tem vida própria. Os mais diferentes bichos vem aqui.
Me distraio nas palavras perdidas como se um eco a trouxesse nos olhos do Louva-Deus que assanhadamente me segue.
A flor que adormece ao gesto simples do toque. É estranho, mas ela permanece ali, em cada canto, em cada folha, em cada planta que nasce e renasce.
A canção do rádio da vizinha do lado ecoa a melodia que ela gostava e Maria Gadu diz:

” Será que te conheço desde a infância
Será que na infância eu parti
Prum mundo imaginado por você
Ou por você um mundo veio
E a infância assim se foi”

Aqui, no mundo dela sou apenas saudade. E me recordo da voz que repetia:
Marte é logo ali. Ponha uma vírgula no teto, dá três pulinhos e Marte acontece.
Hoje, Marte acontece onde meu olhar alcança vida.

Mariana Gouveia

infinitamente

Quase que metade, coração

Vasculhei meu guarda-roupas atrás dos cheiros dela que ficou nas minhas roupas. As gavetas, desarrumei…Na estante o vidro de perfume com a essência me fez lembrar uma canção.

Procurei por ela nos lençóis, na fronha do travesseiro. No sabor da comida na geladeira. O vazio dela preenchia minha tarde e ela existia nas poesias que eu lia.

A cama parecia imensa, gigante sem o corpo dela ocupando espaço, ganhando abraços de mim. Nos silêncios da tarde ela se fazia presente e eu podia ter vivido mais. Podia ter pedido mais, exigido presença. E hoje, talvez, essa saudade seria amena. Ou não…

Tal qual louca eu vasculhava tudo atrás de lembranças. Revirava as dos pensamentos, das palavras ditas, dos beijos molhados, das mãos que buscavam em mim os prazeres mais intensos, mas profundos que senti.

Eu a encontrei na vastidão das horas, da voz que insistia entre o sotaque me dizer de amor. Queria buscar com a boca as palavras que falava pra dentro de si, e as que não ousou dizer. Queria matar essa fome dela, essa sede da umidade que rodeia. Na chuva que chovia em mim.

Eu a encontrei no espaço vago entre uma folha que caía quase que metade coração e compreendi a dimensão do sentia.

Metade de mim vive nela.
Metade dela vive em mim.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Solar

A primeira vez que vi o sol nascer nesse lugar perguntei para minha mãe se aqui era mais perto do céu.

Leonor,

lembrei-me de te escrever para falar do quanto meu lugar esteve solar nesse verão. Você conhece os dias quentes daqui e também sabe bem das manhãs ensolaradas. Já te contei que a primeira vez que vi o sol nascer nesse lugar perguntei para minha mãe se aqui era mais perto do céu. Sabe o que ela respondeu, Leonor? Ela disse que o sol mais perto do céu é o que brilha no coração da agente.

Acho que já vivi aqui muito mais dias ensolarados do que nublados. Já te contei que aqui tem apenas a estação do sol, não contei? Tudo aqui é solar desde o amanhecer, Leonor e sabe de uma coisa? Mesmo que reclamando de alguns dias mais quentes, eu estranho o dia que ele não aparece. Mas, isso é tão raro e você pode perceber isso quando esteve aqui.

O mais encantador disso tudo é que ele muda as cores do céu, conforme a hora, o dia e do jeito que as nuvens estão. As ruas também, Leonor, se vestem de dourado e é como se estivessem preparadas para a festa.

Os dias tem sido mais quentes por aqui, Leonor e fico pensando em como você reclamaria se ainda vivesse por aqui. E como vivemos totalmente o oposto do tempo, eu fico boba com as nuances sobre o tempo que as moças da previsão – tanto daqui quanto a daí – erram na discordância do que é bom. Para a que fala na minha TV o tempo fica bom em grande parte do país, podendo chover a qualquer hora. Para a que fala para você aí, os 23º que para mim já é quase frio, faz a terra escaldar de calor.

Nem vou falar sobre a causa desse mudança de tempo no mundo todo, nem do descaso que os países têm com o meio ambiente… o que eu queria mesmo era te falar que quando vejo o sol nascer em todas manhãs, as lembranças me trazem você e nosso silêncio reverenciando o astro rei.

Também me lembro de todos os ocasos que assistimos juntas… e quando o sol se põe trazendo a noite, as minhas memórias te coloca num lugar bonito dentro do coração e acho que compreendo cada vez mais os finais. Sejam os de todo dia quando o sol se vai quanto os de amor que cumpriram seu papel. Mas ainda assim, eu sinto saudades tuas.

Mariana Gouveia
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesnais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Roseli Pedroso e Suzana Martins Obdúlio Nunes Ortega

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Da estação da águas

Tinha dias que chovia e fazia sol. Era a magia do tempo acontecendo e refletia dentro das gotas que caiam… O jardim aproveita os bocados da chuva, era nessa hora que a mãe falava da delicadeza da cura pelas plantas e de como eram abençoados esses dias de água. Ela conhecia a aridez dos dias secos e do quanto fazia falta se a chuva não acontecer. A vontade do jardim de florescer fica mais latente nesse tempo… as ervas daninhas faziam oferendas no quintal e a vida acontecia liquida.
Os gestos nos ramos viviam de entrega à água.
Era amor em pequenos atos da natureza e a gente. Quando o tempo dava um espaço para o sol, a flor se abria e seguia seu caminho rumo ao calor.

As janelas se abriam para que entrasse a energia renovadora do sol dentro de casa… o extravio morno na pele.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais