Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para Luci aos cuidados de Chiquinho

Gosto de você porque sei que pararia tudo
pra ficar olhando um passarinho perdido
na sacada numa manhã que exigisse sua pressa.
Luciane Recieri

Luci,

vi que você viu sua sombra, assim, de relance e eu corri na parede para encontrar a minha. Aqui já escurece, Luci e teve um temporal daqueles… mas como já se tornou rotina nas minhas tardes, logo que passa a chuva o sol vem em seus variados tons encantar meu quintal.

Durante a tempestade Chiquinho vem se aquecer em minhas mãos, mas logo voa rumo ao varal para se esbaldar na chuva. Acho lindo isso, Luci e fico com as mãos abertas esperando ele retornar.

Quis te contar isso no seu dia – não que os outros não sejam – e vim te abraçar dentro da nossa história. Já são alguns anos que começo março nesse ritual para te abraçar. Mas devo confessar, Luci, que parece que é desde sempre. Você não sente isso?

Dizem, Luci, que a probabilidade de duas pessoas se encontrarem e terem algo em comum é uma em duzentas mil… Conhecer alguém, Luci, é uma em dois  milhões… Isso é muita coisa… Ficar próximo dessa pessoa, é de uma em vinte milhões. Já imaginou isso nesse mundo de Deus, Luci? Chamá-la de amiga, então, é de uma em duzentos milhões. Fiquei pensando que estamos nesse tanto de milhões.

Eu já conheço seus bichos, sua fada – Anna – seus silêncios e você já sabe dos rumores de minhas borboletas, do meu Chiquinho e de minhas poesias. Você atravessou uma rodovia inteira e entrou inquietante na Mário de Andrade para me ver. Até ali, a gente era amiga de longe e você trouxe a chave e abriu meu coração. Tomou posse da parte sua que vive aqui, dentro de mim.

Mesmo que eu fure todas as paredes e encontre o estuque azul, nunca vou esquecer do sentimento de fome do seu pai e do seu, Luci e nem do que o pajé mandou eu te dizer. Isso já fazem mais de quatro anos, lembra?

Vim de novo reforçar o meu desejo para que você seja essa leveza de alma, que continue gostando de ratos, corujas e de sinos. Que seja sempre colo para os bichos e mãos estendidas para os amigos, Luci. que suas mãos sejam afagos sempre para os pássaros seus assim como as minhas são para os meus.

Te amo, te abraço,

Feliz aniversário1
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Cabe fevereiro em um dia inteiro

Meu ser fóssil
pulsante
sedimentar
tectônico
entalhado na rocha
arrancado da litosfera
marcado no tempo
prestes a eclodir
na imensidão geográfica
da crosta terrestre


Suzana Martins

Su, minha menina nuvem

te escrevo na intimidade das horas logo depois da chuva que se formou para os lados do sul. Para meu espanto, o jardim gotejou, as flores do ipê se rebelaram e caíram todas de uma vez, formando um tapete amarelo molhado.

Enquanto eu ainda secava a água da varanda o céu me chamou como se quisesse que eu visse algo ali, para além dos muros. Um arco-íris lindo se desenhou e fevereiro coube intenso dentro de um dia. Corri para rua e ali comecei a escrever mentalmente essa carta para você.

Você acredita em coincidências, Su? Confesso que quase não acredito. Acho que sempre há um porquê das coisas acontecerem. Mas a minha alma de escritora se espanta com a singeleza que o destino me traz na palma da mão. Te perguntei sobre as coincidências porque justamente quando eu comecei a te escrever vi sua mensagem e seu arco-íris na janela do WhatsApp…

Ph: Suzana Martins

Sabe, Su, uma fotografia apenas não te mostra esse céu que me encanta por aqui. fevereiro aqui passou como um relâmpago e houve tantos dias dentro de um mesmo dia por aqui, além das trovoadas. .. mas também teve dias em que as nuvens pareciam feitas de algodão. E hoje foi um dia em que aconteceu de tudo no meu lugar.

Agora mesmo, Su, enquanto finalizo minha carta, o céu parece de outro mundo. E já há uma lua em seu quarto crescente. E o arco-íris se derreteu como se com isso formasse um elo entre eu e você.

Sou grata por você em minha vida!
abraço carinhoso ❤

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Palavra do dia: esperar.

Acontecia dias tortos feitos de silêncio. O vento era mudo. As folhas não faziam ruídos. Apenas o pássaro que não tinha gaiola cantou no quintal. As paredes tinham ecos perdidos. Eu queria modificar a história. Fazer a lenda ser real no toque. Tive alucinações na alma. O peito gritou as previsões todas. Tudo misturava nas cores do dia. Mostrei o céu no instante de antes.
Algumas coisas fogem das explicações.

Palavra do dia: esperar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

e ainda nem era outono.

Havia chovido em uma dessas tardes mornas de fevereiro… O lírio do vento ainda trazia as gotas como se fosse souvenires e ela ali, espiando a tarde que amarelava o muro do quintal.

A solidão fazendo companhia para as flores que se transformaram em relicários das gotas da chuva – de ontem e ainda nem era outono.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Tipo assim…

Da janela do ônibus as coisas passam por mim e eu escrevo enquanto o engarrafamento aumenta. Reparo nas coisas e nas pessoas para te contar. As personagens se multiplicam entre conversas que tento absorver. Me chama a atenção um casa de adolescentes que pelo visto ainda estão em fase de paquera – sei lá – próximos de mim.
Durante o percurso de 30 minutos entre uma estação e outra repetem em um diálogo 150 vezes a palavra “tipo”…

– A professora tipo assim, enrola mil vezes, tipo, a prova foi fácil, mas tipo, o tempo foi curto…
Enquanto ela comenta que:
– Tipo assim, o meu pai não pode me buscar e eu, tipo a sapatilha do balé, tipo pressiona o dedo…

Ele olha para o pé e ela meio sem jeito, diz, tipo sem graça:
– Prazer, pé de bailarina!
O olho dele brilha e ela sem graça, mexe no cabelo. Fala do prazer de dançar, depois que ele quis saber se ela gosta mesmo de balé, entre dois “tipo” no meio da frase. E ela descreve a poesia que o céu oferece lá fora, através da janela… Dançar para ela é como a magia do sol de todo dia, tipo que se a gente fica sem, morre… Ele fala do amor pelo skate, mas tipo assim, ele não tem. Usa emprestado do amigo, que é tipo meio irmão e que com o skate pode voar, igual a ela – imagina ele – tipo quando dança.

Comentam sobre o quanto de vezes repetiram o tipo e eu aviso das 150 vezes que marquei. Riem comigo, pela cumplicidade da conversa e eu digo que tipo assim, ia escrever uma carta falando sobre isso. Ele desce antes de mim e despede-se pegando o endereço do blog. Tipo assim, de curiosidade, ele verá. Ela ri e fala do prazer de dançar que deve ser tipo assim, o mesmo que eu sinto ao escrever.
Despeço-me na leveza do riso da menina que tipo assim, durante a dança, voa. E sigo rumo à noite para te escrever.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

70 páginas

Perco-me dentro de você através dos séculos.
Falta- me essa presença oscilante entre a solidão e o tato.
Devia te contar que hoje chorei
e que chamei seu nome infinitas vezes.

Conheci um menino
que trazia uma flor no cabelo
– riu do meu, tão curto, em piada para os amigos –
e a menina que ria com ele
percebeu que ele tinha primavera no olhar.

Coube pétalas brancas na lição do dia.
Descobri que não havia jeito de desabraçar um abraço dado.
E que um estrangeiro pode ter sinal de partida logo na chegada.
Escrevi muitas histórias para te contar…

Depois, desfiz cada uma e dividi em cartas
que talvez você nunca vá ler.
70 páginas onde a lua apenas me avisa
que a vida é feita de fases
e que a solidão é vivida em noites de lua.
 Minguante.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

em cada fresta da noite eu só queria a pulsação do sol.

A noite ainda não tinha rompido a renda salmão das cortinas e você já era saudade.
Quando te falei das estações do tempo e da tranquilidade que sentia, não sabia que uma noite demoraria uma vida – em pouco tempo – e que os dias em que você surgia, a manhã possuía o sagrado do amor. Na época levei-te pela mão rumo ao prazer. Minha voz deu vez à mesma pergunta, e cadê? – chamam-lhe saudade… alguém disse. E houve dias em que endoideci no quintal. Busquei a palavra “volta” nas cartas, no horóscopo, no relicário – até rezei – e cantei as músicas que nem eram nossas, mas que falavam de amor. Havia a mensagem que eu não apagara e li e reli a noite inteira na sobreposição do dissolvido desejo e nas palavras doces que inventamos.  Eu só pensava no teu encanto pela flor. Girava a vida em torno do sol. Foi quando converti os silêncios e ouvi, gritantemente, a pulsação do sol… em cada fresta da noite eu só queria a pulsação do sol.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Costura a sorte na flor no bordado da vida.

Costura a sorte do dia de acordo com o horóscopo.
A sutileza das coisas acontece nas manhãs serenas.
O ponto costurado é a reconstrução da alma. Um menino laranja é fonte de amor e de energia.
A moça de cachos dourados traz o sorriso na alma – preciso fazê-la entender isso todos os dias – e a coragem no olhar.

A tarde, o céu carregou de nuvens.
Choveu em tudo que é canto. A natureza, as vezes, cabe na solidão da alma.
Costura a sorte na flor no bordado da vida. O mito já não traz a emoção da história. O arremate é apenas o ponto final no avesso perfeito.

Mariana Gouveia

Divã

Tenho um dragão que come na minha mão.

O dia rompe as rotinas do nada. Era hora de espionar segredos. Na rota dos olhos, o espelho. Denuncia o cansaço de não dormir.
Ela anota. Eu anoto. Rasgo palavras que havia escrito. Uma espécie de silêncio no ar. Tão gritante e ao mesmo tempo, ensurdecedor.
Ando até a janela. O horizonte mostra a ilusão que vivi.
As frases ecoam na cabeça. Divagações do que poderia ter sido diferente e de como ainda brinca quando fecha etapas.
Escrevo o nome dela na janela do agora. Quase grito, quase chamo. Calo.
Ela anota. Eu apago. Rasuro. Sublinho. Acho bonito um nome sublinhado.
Desenho um coração junto. A neblina de fora oferece a opção da escrita.
Um homem pinta um portão de verde. Uma joaninha cai na lata de tinta. Eu a salvei antes que a tinta marcasse as asas.
Ela me olha. Espia os sentimentos que me atinge.
Falo de coisas surreais. Tatuei o nome dela no meu peito. Tenho um amigo imaginário que conversa comigo. Me diz que se chama Tempo e que a melhor escolha da vida, é viver. É um dragão que vive na minha mão. Sublinho a palavra tatuei. Ela ri.
Lembro do riso dela. Lembro de tanta coisa que fizemos juntas.
– Segura ele. Nunca vi um dragão.
– Ele é inofensivo. Só vive no meu imaginário.
Ela anota.
Fala da boneca de milho que era amiga dela quando era menina.
Penso na rapidez das horas. Ela olha o relógio na parede.
Confirma o diagnóstico: Falta de lucidez.
Coloca um comprimido vermelho na minha mão. Meu dragão come.

Mariana Gouveia – Divã
Das fragilidades secretas

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das lembranças das cartas

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação. Relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou. Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no tronco de madeira da porteira, no telhado… Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar. Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais. A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava – por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali. Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida. Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fizeram ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.  Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.

Mariana Gouveia