Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Solidão tão minha

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Ph: Adam Klaus

Os corredores nunca foram tão longos e nem a solidão tão minha…Havia dores de ossos em todo canto – a moça de azul que hoje não vestiu azul via as dores como normal – preocupava-se mais com as dores da sua alma. Era olho distante do agora. Fosse ela reparar em dor – ali, era dor todo dia -não faria nada.
Os cartazes pedindo silêncio para a solidão dos outros. Alguém já não existia no vácuo entre o que era e será. Havia apenas o alívio de quem saía, nunca calmaria da dor. Eu escrevi a saudade enquanto era tempo. Era ali, no canto da mensagem que o coração batia.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Septum – Outono

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” A esperança é uma lanterna dependurada nas costas
que apenas ilumina o caminho já percorrido “

                                                                                    Confúcio

É madrugada e eu me sinto só…completamente nua. E me vejo obrigada a vagar pelos espaços vazios deste lugar que sou. Esgotei as xícaras de chá. Li todos os livros que encontrei na prateleira. Assisti todos os filmes antigos que compõem minha lista de favoritos… e percebi nesta quarta hora… que não me resta outra coisa – apenas esta narrativa vazia… ou seria de inundação?
… alguma coisa transbordou aqui dentro e não deu tempo de fechar as comportas. Sinto-me a inundada por essa necessidade conhecida, tão antiga quanto eu.
Eu sei o que quero e preciso… mas ainda me recuso a este testamento em vida, porque escrever – para mim – é um ato de morte.
Você escolhe as melhores palavras, forma as frases com todo cuidado, tentando a sonhada perfeição.
Escolhe o que fica e o que parte. E no fim… não consegue um texto que agrade aos olhos – primeiro – e ao cuore depois…
E o que sobra disso tudo é a decepção que te encara de frente. E você não encara de volta. Recua. Amassa a folha entre os dedos e sai para andar entre os cômodos da casa – suportando em teus flancos o sabor amargo do fracasso.
A escrita exige doação, entrega, rendição… não basta o imaginário. Ela quer também a realidade e todos os desconfortos. Recusa o futuro, como se fosse um insulto-desaforo-afronta. Ela quer apenas o teu passado-presente. O teu melhor… e você sabe que é impossível se deitar sobre o papel sem render-se de corpo e alma esta simbiose indecente entre vida e morte, morte e vida.
As palavras são pontes…que nos ligam ao abismo que somos. Escrever é percorrer esse caminho frágil e perigoso… apenas de ida, nunca de volta.

 

Mas sem um mapa em mãos,
como saber o destino?

 Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum – outono
Pág: 64
*imagem: Tumblr

A bússola me mostra a direção ao norte/sul/leste/oeste e daí, volto ao mesmo ponto de encantamento marcado no mapa. Mas que mapa? Septum nos faz perder a direção entre a vontade e o desejo de ler e embarcar dentro de cada estação.
Septum é a âncora que dá segurança e ao mesmo tempo, o vento que sopra e arrasta.
Não é magia…é bruxaria.
Septum te direciona e te faz perder…
e assim, te convido a se deixar levar…

Scenarium Livros Artesanais

Tivesse um lápis de cor te pintaria.

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De repente eu quis ser cor. A sua cor –
a que veste sua vida…

Romper a barreira do silêncio
e ser a ave que voa até você.
A emoção a dançar na alma…

Eu de olhar ameno buscando palavra na cor.
E quis ser pele… E quis ser tato.
Para rabiscar em braile na tua pele.
De olho fechado…
O contorno da tua boca.
Eu quis… ser o verso na tua pele.
E de repente o vento já não era meu. Nem a cor.


Os dias, alguns terminam em laranja

e o ocaso mancha o céu.
As mãos buscam pela palavra, verso, poesia

A alma acusa a tua presença.

Tivesse um lápis de cor… eu a pintaria.
Tivesse eu história para contar… eu a inventaria.

Tudo que tenho dentro dessa tarde que cai
é a lembrança – da tua cor…

Mariana Gouveia
Estradas para os dias seguintes
Scenarium Livros Artesanais
*imagem: Anka Zhuravleva

Corredores, Codinome Locura

Deu-me mar em imagem…

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Azul…ondas a balançar aqui e ali.
Corri para ouvir no búzio colorido.
O mar cantou para mim.
Deu-me o saber da distância. De uma falta que nem sabia que havia.
Do gesto de buscá-la. Do afago, nas coisas que li.
Revi toda a palavra e fiquei sem.
Isso acontece quando o encanto é maior do que se pode dizer.
Corri em todo canto e só seu nome entoava a brisa em mim.
Era a delícia antecipando a vida.
Como pode sentir falta do que não se tem?
Era a onda a chamar.
Tivesse vento e barco, eu iria.
E pintaria de azul céu todas as noites com ela. E para o amanhecer, eu alaranjava o dia.

Mariana Gouveia
*imagem: Anka Zhuravleva

Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Septum – Primavera

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…“ para aquele imaginário
em ebulição que desarruma o
‘concreto’…

Mais um dia se encerra em meus olhos…conta-se em algum lugar – como se fossem moedas – um punhado de minutos e um bando de euforias. A noite acontece ao mesmo tempo que a palma de uma mão estendida no ar cresce aos meus olhos. Admiro entre as linhas meia dúzia de moedas: douradas e prateadas.
Não se pode comprar o tempo, mas muitos tentam suborná-lo.
Era apenas um menino que me fez passar a limpo toda a minha vida anterior…revisei minhas notas, que são muitas, porque sempre deixo acumular as coisas, mas em algum momento – dentro da noite – eu me dedico a passar a limpo esses rascunhos.
É quando eu reescrevo páginas inteiras…reorganizo os espaços mentais e consequentemente tropeço em lembranças…
Sempre que me sento para escrever eu reviro minha pele, meu passado… sinto aquela velha monotonia que descobri no fundo de mim nos dias de infância.
O olhar enrosca-se facilmente em certos cenários: o balanço vazio, as mesmas mesas na biblioteca, a casa vazia, a rua silenciosa no começo da noite, o tabuleiro de xadrez pintado nas mesas da praça…
Eu sempre tropecei em ausências, solitudines…
Sempre encontrei a palavra nos meus cantos secretos e favoritos. Às vezes, sinto como se meus passos – pelas ruas da cidade – me levassem de volta sempre ao mesmo cenário…me aproximo da mesa, das peças e atravesso a ilusão que a vida molda, para que o diálogo não seja um poço onde se atira moedas para si mesmo. Avanço o peão…concedo o próximo movimento…e me coloco em estado de espera!

Notas de rodapé – gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum – primavera
Pág: 77

Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.

Septum é esse gesto pronto de entrega.

Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.

Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.

A jogada está dada. O próximo lance é seu.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

uma porta que me leva a outro lugar

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E eu digo: “abraça-me”. E os teus braços fazem-se.
E eu digo: “abrasa-me”. E tu fazes-te em braços.
Joana Serrado

Ana de Marte, da vida, do céu, do mundo…

Mais uma vez volto ao seu lugar e refaço instantes que vivemos. Os dias perderam a noção de tempo desde que você se foi.
“O infinito é logo ali, Maryann…” – repito a frase dita tantas vezes por você diante do céu, olhando as estrelas, diante do vento a rodopiar redemoinhos dentro do seu cabelo.
Às vezes, perco a noção do ano de sua partida e ao mesmo tempo parece que foi ontem e muitas vezes parece que ouço sua voz a gritar do outro lado da rua e seu riso ecoa nos seus quintais.
“ Meu quintal é o mundo, Maryann… passeio pelo mundo afora dentro das coisas…” e falando isso, desenhava no ar os corações que te marcou em vida.
Era coração em tudo quanto é lado. Na rua, nas folhas, nas coisas. Hoje, seu quintal ganhou mais mudas. O novo inquilino resolveu decorar de vida sua casa. Pintou de azul turquesa as paredes e a janela que dá para a rua está branquinha e tem gerânios em vasinhos coloridos e quando venta a cortina lilás balança. Ele diz que cuida da casa como se ainda fosse sua e ele tem certeza de que é e por isso, de vez em quando me deixa entrar. Deixa também a chave no mesmo lugar. Debaixo do tapete onde a vida dá as boas vindas ao dia.
A goiabeira deu frutos e os pássaros fizeram um ninho no pé de jabuticaba. Tão frágeis os fios enrolhados no galho mais fino e ao mesmo tempo tão visceral. Ver vidas nascendo ali, onde você esparramava amor em cada fruto. Tem você aqui em cada canto. Parece que a música que toca na casa da vizinha é a mesma que você cantarolava nas noites de estrelas.
Sabe aquele vão entre o galho da amoreira e o pé de goiaba, que abria espaço justamente para quando a lua nascia além dos muros? Pois é, continua nesse vácuo esse espaço.
E parece uma porta que me leva a outro lugar.
A vida apronta algumas coisas com a gente. É como se eu repetisse a sua história…mas lembra-se da parte que eu sempre disse sobre mudar os finais? Eu acredito muito.
Tenho que te contar que voltei ao cerrado. Vi o Universo do ponto onde os ventos uivam e de lá, enviei-te o abraço que envolve todos esses dias e é dentro dele que cabe minha saudade. Marte mora logo ali, em um ponto focal do céu e é nesse ponto que mora minha esperança.

Beijo

Maryann

Projeto ‘missivas
Scenarium Livros Artesanais

 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Caindo de si mesmo em si mesmo

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“Quando olhei no espelho,
você era um abraço dentro de mim.
Ver a gente foi como flagrar monges budistas brincando…
um quase impossível fugir das repetições
de palavras calmas.
Palavras são beijos alegres, amor.
Um carinho fugiu um pouquinho e foi brincar no quintal
cheio de meninos esperando para algazarra. As donas de casa
olharam o barulho pela janela…
só conferindo se tinha filho seu.
Sim… e com asas”.

                                                                                                                                                 Aden Leonardo

Menina Paraíso,

Passei o dia inteiro a desenhar rotas de fuga… pela janela, pelos muros, escadas ou pelo quintal enviesado onde o espaço é pequeno. Descobri que não adiantaria… não conseguiria fugir de mim mesma. Acabo caindo dentro de mim mesma…
Busquei presença em olhos perdidos no céu… alguém traduzia idiomas que não entendi e juro que preferi mil vezes meu diálogo estranho com você – of course – aliás, prefiro sempre os diálogos com você. Ao mesmo tempo que te dou bronca, a bronca vem para mim. Você tem esse jeito de meninaquequerabraçoecomissodáabraçodevolta… tão bom!
O dia, às vezes, começa estranho… Havia frases soltas de autores estranhos que eu nunca havia lido…e a moça do tempo mais uma vez errou a previsão.
Amanheceu amarelas as manhãs de Outubro. Choveu poucas vezes durante a manhã, como se o tempo soubesse que minha sombrinha comprada nos chineses não protege ninguém da chuva. Pelo contrário, faz com que molhamos mais.
O sol inspira a cor sobre os telhados das casas … Sentei no canto escuro do muro.
Ali, escrevi mil vezes poemas pensados em noite de estrelas – quando o pássaro em seu voo noturno era estátua da sombra –  e a moça do tempo vai errar outra vez a previsão de amanhã. É outra estação dentro de mim.
Escrevi em casulos o dialeto das asas. Era voo para tudo quanto é canto.
Existiam várias estações dentro de uma. Deve ser o efeito borboleta a desenhar erupções ao toque. Era eu caindo no abismo de mim. Como pode as coisas mudar de um dia para o outro? Como pode o que ontem ter tanta importância e hoje já nem fazer sentido? Apesar dos pontos de interrogações, não são perguntas. É quase uma afirmação essa mudança dos dias, das coisas.
Hoje não vi o pássaro colorido. Nem aquele que bem me vê todo dia. Hoje, vi a árvore do vizinho, que já está secando cheia de aves. Todas em seu canto agudo a desenhar minha rotina.
Há esse contrair da pele dentro do azul. Azul também é o céu e sua gentileza de cores dentro da hora… A luz a azular os galhos entre as falas das aves. É um marulhar de vento azul no quintal onde os peixes voam feito pássaros de qualquer cor – é que vejo peixe em tudo quanto é canto –  a solidão tem esse retrato pintado de azul desbotado na parede com estuque descascado. Fiz isso ainda menina – me lembro – chovia e eu não podia correr lá fora com as borboletas. Minha mãe não permitia dançar na chuva – nem nada era possível para uma menina que teve dificuldades no parto e conversava com os bichos – aliás, não permitia quase nada que não estivesse sob o olhar atento do meu irmão. Como raramente ele abria a boca – a não ser para contestar minhas loucuras << de tocar os bichos >> eu falava com os grilos, os animais e dizia que eu era só. Que sofria de solidão. Ao que minha mãe respondia que a solidão era uma parede sem quadros, retratos, cortinas ou qualquer coisa que a enfeitasse e que eu era uma parede cheinha de fotos de irmãos e enumerava um a um, lado a lado antes da janela com cortina feita de retalhos coloridos que ela fazia. A janela era eu – ela dizia – trazia sol na parede toda. E lá ia eu em dia de chuva a descascar o estuque e depois pintar de companhia a minha parede vazia.
Você é essa cor misturada de vida junto com a minha e que eu queria moldar e te direcionar para o caminho livre da liberdade. Você é esse estuque que sustenta minha cor azul. Eu digo azul, mas pode ser qualquer cor. Pode ser o verde que você avista quando o trem apita aí da sua janela. Pode ser o vermelho da sua blusa quentinha de ginástica e pode ser a cor da sua meia listrada e suas cores em movimentos. Não. Péra. A meia tinha Barney e seu destino infantil de desenho animado. Pode ser qualquer cor desse cerrado denso que corta as montanhas do seu lugar.
Montanha acima, serra abaixo…estradinha de Minas em direção ao Paraíso: Tu.

Beijo meu
Mariana Gouveia

Projeto ‘missivas
Scenarium Livros Artesanais

 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

navega-se sem mar, vela ou navio

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“Navegar é preciso; viver não é preciso”

Fernando Pessoa.

Querida Li,

Daqui, de tão longe e diante da janela que dá para o pé de manga carregado eu aspiro seus instantes, que tão gentilmente me cede.
Dou lugar ao carinho pelo simples fato de lembrar seu nome. Devo-te essa carta e esse abraço em forma de palavras. Devo-te diante de tantos momentos lindos que me desenhou dentro dos anos em que nos acolhemos uma na outra, mesmo tão distantes.
Li, navego pelo seu lugar olhando as imagens que me oferece e me encanto pelo riso de esperança do teu menino. Cada vez que o vejo o abençoo em nome da vida. A musicalidade do nome me chega à sintonia e aspiro suas montanhas em unidade com o Universo. Pedalo contigo rumo ao interior do seu lugar e sou levada pela sua mão serra acima e me divirto quando seu menino pássaro dá o amparo à vida.
Caibo inteira dentro desse seu céu e sou levada pela delicadeza do vento. Nesse momento sou tragada como se navegasse sem vela, mar ou navio. Crio asas e te chamo na intensidade da amizade.
Falamos tão pouco, mas mesmo em tão poucas vezes, nem precisamos dizer tanto. Uma sabe da outra e isso basta.
Não conheço o mar de perto, Li… Mas ele me encanta de tal maneira que todas as noites eu durmo além-mar. Navego sem cruzá-lo e ao mesmo tempo direciono meu leme onde o encanto me pega e nesse momento, Li eu navego sem mar, sem vela e navio… Eu navego de asas.

Beijos,

Mariana

Projeto ‘missivas
Scenarium Livros Artesanais

 

Corredores, Codinome Locura

Todo mar é essa estadia

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Ph: Alessio Albi Photography

Todo canto é essa árvore gesticulando folhas. É esse farfalhar de vento derramando gestos no quintal. Toda árvore é esse canto esparramando mar. Trazendo a maresia e os peixes para dentro de casa. Todo mar é essa estadia dentro do peito onde as ondas chamam seu nome.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

não só de café vivem os loucos.

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– “Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?” Depois, percebi que estava certo – é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. 

David Grossman

Querida Luci.

Depois que te abracei de tão perto que senti seu coração, que fluiu ao som do meu, nunca mais nos falamos – mas te acompanhei – e hoje resolvi escrever as vontades dentro de palavras que a gente come como se fosse morrer de inanição.
Acompanhei seus passos pelas asas de seu pássaro, pelo caminho que você cruza com seus cães e até os que não são seus.
Vi tua “rebeldia” através do grito e te vi sorrindo dentro do olho de tua menina.
Luci, as coisas aqui estão de ponta cabeça…e a gente fica tentando se manter em pé e sorve a loucura toda manhã. Nem só de café vivem os loucos…eles vivem de rompantes na imaginação…
O sol, escaldante me faz desejar que o café venha gelado e a menina que serve o líquido que amo diz: tome sorvete!
Sorvete são para momentos doces e confesso que ultimamente de doce a vida não apresenta grande coisa.
Estou sempre onde não queria estar e voando através do oceano enquanto sempre canto o parabéns quando respiro, pah, outras aragens.
Os loucos não vivem só de café, Luci…Vivem de poesia e bebem todos os dias a palavra dentro da loucura e se você soubesse o que anda a acontecer por aqui, beberia o seu tão famoso “ fora temer” – me recuso a escrever essa frase dentro dos padrões normais das regras ortográficas, Luci – mas eu brigo por causas menores. De quem já sofre tanto preconceito e perdeu tanto dentro dessa mudança absurda que me atrevo apenas a acreditar que tudo isso vai passar.
Descobri nesses dias que a saúde é o bem mais precioso e se perdemos isso somos pobres, mas tão pobres que nem ajudar alguém, podemos. Por isso, Luci, coma…não se deixe abater pelo processo que está por aí…precisamos de guerreiras como você, que embora suba degrau por degrau, faz uma diferença que não tem noção.
O café me acorda, às vezes, e em muitos momentos eu fico a noite toda dentro das horas e além do café, sorvo a delicadeza que o céu me oferece.
Ainda estou a marcar os momentos, Luci e assim que for possível, te trago para te ver rir entre as vielas do lado antigo da minha cidade e ver meu Chiquinho chiar nas madrugadas.
Ainda vejo você entrando dentro do meu abraço, sorrindo e a vida me dando o prazer de saber que já te abracei em outros tempos.
Abracei sim!

Beijos

Mariana

Projeto ‘missivas
Scenarium Livros Artesanais