Corredores, Codinome Locura

O jardim não está para peixes

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Ph: Louis Treserras

O jornal não acredita na história dos signos. Pediu para trocar a personagem do meio. Como pseudônimo usou o nome verdadeiro. O editor corrigiu para um nome engraçado. e assim a lua transitou suave pela constelação do agora.
No porta-retratos familiares antigos. Pessoas que não recordam da infância.

Há muita distração na grama do jardim. A história é a mesma. Só muda o nome. Não há conexão com o astral. A demora atrasa o dia. Afinal, o jardim não está para peixe. Eles voam para fora da gaiola.
Ninguém consegue entender a isca.
O inverso acontece dentro de mim.
Hoje a solidão exagera na palavra.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Porque a morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao bater dos segundos?


“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,

Medi minha vida em colherinhas de café”

Lunna Guedes

 

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Querida M,

Essa carta era para ter sido escrita ainda em Dezembro, mas os dias ganharam o simbolismo dos relógios e a vida tão ligeira quanto eles se embrenhou dentro das horas e quando dei por mim, já era ano novo, apesar de trazer o gosto do ontem em mim.
Acho que já disse que sou meio avessa a essa coisa de datas – que a maioria usa para mascarar de fato o que se devia fazer todo dia – e assim dou ênfase aos dias que são meus.
Dessas datas detesto os fogos  – apesar dos meus filhos caninos adorarem eles – e não sei porque comemorar qualquer coisa com barulhos a pipocar no céu. Ainda aqui escuto alguns nos arredores. É verdade que Lolla e Yoshi saem correndo para o quintal ao menor sinal chiado de que vai haver o pipoco. Pulam em direção ao alto e latem, como se fosse brincadeira.
A vida aqui no meu quintal renasce nesse primeiro dia do ano… os casulos enfeitam os lugares mais estranhos como se fosse normal gerar vida em um padrão de energia elétrica… mas como aqui nada é normal, acho luxo que a vida se estabeleça onde e quando quer. Mas, assim como viver é lindo, morrer também deveria ser. Ou talvez seja. A morte esteve ligada à mim de diversas maneiras nesse ano que passou. Perdi pessoas incríveis e sei que você também. Porém, como se fosse um peso compensador da saudade ganhei pessoinhas lindas na minha vida e você também…
Vejo risos se desenhando enquanto a família aumenta e se for fazer um balanço esse é o grande segredo da vida. Alegrarmos com o que vem e entristecermos com o que vai.
Aqui, além dos casulos e asas se abrindo no meu lugar, as flores dão sua imensa alegria de existirem…Abrem-se os cravos vindos como sementes do outro lado do oceano… As minhas rosinhas pequenas se projetaram em cachos que mais parece um buquê… também a dama da noite já antecede um botão dentro da expectativa de flor.
Eu presencio milagres todos os dias e é dentro deles que busco a palavra esperança e com essa esperança vivifico a vida.
Agradeço ao Universo por ele me proporcionar o encantamento diante dos fatos e até mesmo a revolta diante de outros… mas a vida é esse constante modificar e dentro disso devemos nos orientar pela presença divina que nos habita.
Sou grata por você em minha vida e mais uma vez meu carinho vai até você em forma de palavras.
Que os dias sejam de renascimentos em sua vida e que em cada  um deles traga a magia do encanto.

Beijos

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

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Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Bambina mia,

A solidão abraça as paredes da casa…muitos braços para alcançar os vãos todos
a luz da vidraça enfraquecida pelo gesto da cortina…
O dia tem sua rotina quebrada entre o chuvisco, chuva forte, um sol ardente de meia hora e não fosse pelas histórias que a TV mostra eu nem me tocaria que é Natal. A casa responde em eco minhas perguntas… repete minhas frases lidas em voz alta.
Na casa vizinha o assado começa a ser preparado – posso sentir o aroma dos temperos todos – e a canção de uma dupla sertaneja de mulheres e que está em primeiro lugar nas paradas é repetida ao extremo e vira um mantra insuportável aos meus ouvidos.

As luzes da casa do vizinho lateral brilham em um pisca-pisca incessante. O cheiro do outono mesmo sendo verão vindo do bosque ao lado invade a manhã. O céu é uma aquarela de cores e seus matizes diversos. Lembro-me de um poema e os lilases outonais.
Fico a admirar como os tons mudam rapidamente. O que era agora a pouco já não é mais. Elevo uma prece ao universo e sua magnitude de beleza. Nos fios, os pássaros em seu estado de asas. Parece uma brincadeira o equilíbrio todo.

Anteontem conheci um cão… me seguiu até o ponto de ônibus. Não parecia perdido, nem faminto… apenas queria companhia, eu acho. E hoje ele apareceu no meu portão e parece que me reconhece. Acompanha o menino que entrega pão e que nem é mais menino. Mas não é dele – apenas o segue em alguns dias como se quisesse companhia – e assim vai vivendo livre dentro das ruas do bairro. Acho que vai voltar, já que agora sabe onde moro.

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Assim, começo meu dia na singeleza dos instantes.
Ouço os trovões todos e em seguida a tempestade anunciada chega invadindo esse domingo – lembro-me da promessa de ontem e realmente você esteve presente o dia todo… nas trovoadas, nos pingos da chuva, na leitura dos livros que editou e no cheiro que invade meu lugar e penso em tua rosca e teus aromas de infância – abençoo a chuva e seu estado de graça… Às vezes preciso de vento e ele chega rompendo as cortinas todas…

Algumas palavras traduzem os sons desse dia onde as canções se repetem nas casas vizinhas… as mesmas entre gritos estridentes de alguém que tenta cantar igual a dupla de nome estranho… Desse dia fica o cheiro de minha mãe como se fossem acentos dentro de minha memória. O cabelo preso no alto da cabeça, em tranças, o vestido godê num azul suave – quase céu – era assim que ela se vestia para o dia. Nos outros dias, ela era a índia solta, liberta, descalça e faminta de natureza. Comia de cócoras com as mãos em montinhos que distribuía entre os sete filhos, ali, alinhados em sua volta… Lia os livros – os poucos que tínhamos – a maioria puídos, alguns sem algumas folhas, mas ali em cada página ela criava outra história dentro da história, as fotonovelas que em sua maioria eram de artistas italianos – como tu – cuja história de uma agricultora que perdeu a família e vendia melancia na beira de uma estrada e no dia de Natal conhece o amor de sua vida nunca me saiu da cabeça. Posso descrever cada frase, cada foto… inclusive, o pedaço de melancia cortado quadrado e não em fatias, como costumamos fazer.
A chuva não cessa… faz o dia ficar lento em seu estado de ser. A vida germina no meu quintal.
Penso em proteger os casulos, mas deixo a natureza seguir seu curso e logo teremos asas a bailar por aqui.
Serei mãe de mais seres que voam e é dentro desse aroma de terra molhada que vibro a vida que se refaz em cada canto desse meu lugar, afinal o dia é mesmo para comemorar um nascimento.

Que assim seja!

Bacio…
Mariana

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Então é Natal!

“Jogue fora as luzes, as definições e fale do que você vê no escuro”

Wallace Stevens – “The man the blue guitar”


Querida bambina!

É Natal e daqui da varanda vejo apenas as luzes do pisca-pisca das luzinhas na casa do vizinho… chove aqui e teve trovão mais cedo – lembrei de você – e foi justo na hora que seu vídeo arrancou gargalhadas aqui.
O cheiro de algum assado nas redondezas me faz pensar que é Natal. Essa data me remete à infância e como você mesmo diz sobre o branco de teus dezembros… o que me recordo é o cheiro de mata, de fogueira acesa e das histórias que meu pai contava.
Hoje sei que ele enfeitava de lindeza nossas vidas com sua imaginação fértil. Essa data é apenas simbólica… já não tem mais o mesmo encanto ou fui eu quem mudei.
Acho que a data perdeu o propósito mas como toda magia deve ser cultivada que seja feita a vontade de todos.
Para mim, o mais importante é o dia-a-dia. É nele que me prendo e me guardo.
E através de você eu desejo que todos os dias para todo mundo seja vivido como se fosse Natal!

Bacio

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era para ser apenas esse, o nosso tempo.

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Foi escolhido para ser no tempo de agora. Não era para ser pesado nem leve.
Era para ser apenas esse, o nosso tempo.
Ela me mostraria os caminhos que fez. Os 1.700 e tantos kms percorridos. As colinas, os montes, as aldeias que desvendou. Eu, falaria das lendas que criei no intuito de trazê-la até a mim.
Ela me ensinaria coisas que nunca viveu. Eu aprenderia prazeres nunca vivido por ninguém, porque só ela sabia o segredo para tanto.
A mão dela tinha a magia das flores. Tudo era pretexto para o toque.
Quando me tocava, deixava ali, seu cheiro de flor.
É esse o nosso tempo e não havia previsões dizendo quando seria. Nem que horas o portal se abriria para o encanto.
Só sei que, quando aconteceu…
Eu já estava pronta.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Sabiam as hortências do desejo vivido.

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Sabiam as hortênsias da vida líquida
dos seus beijos.
Marejava os olhos com jeito de mar
tão ela, menina de rio.
Cavalgava cavalos marinhos rumo ao oceano.
Os muros dividiam os desejos no quintal.
Não era a hora de amar na concordância verbal do dia.
Chovia – fazia sol em outro destino.
a imagem do paraíso – ela.
Cheirava a amor as palavras escritas.
E a cor da flor resumia o destino da mão
Sabiam as hortências do desejo vivido.

Mariana Gouveia

*imagem: Anna O.

Corredores, Codinome Locura

Era todo o verbo no gesto de amar.

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O pássaro não veio na lógica do dia.
Havia nuvens sem cores no céu. As folhas dançavam com o vento.
Algum vizinho preparou o café. O cheiro invadiu a madrugada e mudou a rotina do dia. Não havia a voz dela a desenhar as linhas da manhã.
O dia tinha tonalidades de arte. Pintura abstrata na solidão das cores.
Vi uma mulher que ria pra dentro.
Marquei mais um século no acontecimento do dia. Relembrei a manhã do pedido e a rotina do tempo. Chovia quando a palavra pronunciada trazia prazeres.
Faltava o ar na maioria das vezes.
Era todo o verbo no gesto de amar.

Mariana Gouveia
*imagem: Craig Gum

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Carta à minha bambina com aroma de chuva

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Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Margarida Ferra

Bambina mia,


Antes de te escrever eu saio para brincar com o céu. Pés descalços e braços abertos ao vento. Aqui o céu amanheceu lunnático e chamava seu nome a cada estrondo. As manhãs no meu quintal tem amanhecido com gosto de chuva a fazer aromas na minha cozinha… brindei sua vida com latte com café e o sabor inundou a manhã.
Refiz um roteiro com o mapa de tudo que vivemos e no contar das horas percebi que não me lembro sem você.
Parece que sempre esteve aqui. Na parte encantadora da minha vida  desde sempre com sabores, amores e presença.
Você está nas minhas histórias – e nos momentos de realizar os sonhos tem suas mãos nas costuras das linhas coloridas em realidade pura – e faz com que eu seja uma personagem da sua.
E quando vem a chuva ou seu anúncio de tempestade eu sinto a sensação do teu toque e seu nome entranhado nos trovões que acorda a natureza do meu lugar.
O dia, hoje, aconteceu fora das rotinas… Mas ainda assim, dentro do emaranhado da vida teci para você preces em forma de poemas… Que cada momento seu seja mágico e que essa magia faça você sentir minha presença mesmo longe.

Ti voglio benne!

Mariana Gouveia

Lunna Guedes · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Septum

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“Que eu saiba pisar no instante seguinte
com pés de encantamento”.
Van Luchiari

  Isso aqui é um pouco de tudo!
Fios de um tecido. Retalhos de uma colcha. Pequenos cenários compondo uma paisagem.
Um punhado de fotografias espalhadas sobre a mesa, à espera de um álbum. Uma narrativa (viva) inacabada porque não acredito em coisas definitivas.
Tudo na vida é esse movimento… portanto não podem acreditar na imobilidade das linhas a seguir… que são tudo e nada… muitas coisas… menos um diário!
– em que momento da vida, de fato…se deve contar como sendo o ponto de partida da Vida? A data de nascimento que o documento aponta… serve como marco inicial apenas para o mundo dos homens.
Mas e para nós… “humanos mutantes” que somos? Qual seria o nosso “marco zero”?
Tudo que eu sei sobre a ocasião do meu nascimento é coisa alheia. História escrita e reescrita pelas figuras que se fizeram presentes à ocasião… mas em minha anatomia não existe uma única gota de consciência acerca de todos estes fatos… narrados com empolgação e emoção intensas… nos mais diversos momentos de minha existência.
– sempre me questionei ao longos dos anos quando é que EU realmente aconteci para o mundo?
A resposta, contudo, permanece em suspenso!

Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum

Havia um burburinho entre as folhas do livro e as mãos dela. Mas o burburinho era meu, enquanto ela deslizava tão dentro das histórias e falava com o aparelho que tocava uma canção…
De repente, a mão desenhava letras e diante do mistério que se seguia aos meus olhos curiosos – ela criava parte do livro perante aos meus olhos curiosos.
E assim, como por encanto, eu vi a mágica ser criada.
Uma aura vinha da janela e emoldurava o cabelo dela e por alguns minutos dourou o quase prateado… ela nem percebeu, mas para mim, ali, ela acontecia para meu mundo. Uma figura que a vida colocou em meu caminho e desde então ela se recria em mim.
Para mim, ela renasce quando chove, quando trovoa, quando a tempestade acontece nos meus quintais…
Septum me mostra ela desnuda em palavras e encantos. Septum me devolve a bambina que de alguma forma se entranha em mim em carinhos que não sei explicar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Quando o mar invadiu…

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minha janela
eu já era plena de riso
Já era nua e o vento, meu
Peguei a onda pelo cabelo
e os peixes, em delírio de estar
era toque de mão no corpo todo.

Quando o mar entrou em minha vida adentro
trazendo a maresia para a moldura da sala
eu já era poesia na palavra dela

Quando o mar me amou
eu já era marítima e mais nada
eu já era puro amor de mar.
E já não podia ser de mais ninguém.
Só dela.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr