Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Ninguém conhece a fundo a luz do seu abismo

“Nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo”.
Mariana Gouveia

Querida T.

Enquanto você compõe pássaros dentro de seus silêncios, eu voo… Descobri asas no seu lugar e ali, envolvo dentro de suas palavras…

Tomo a liberdade de te escrever cumprindo um ritual que faço desde sempre – que me lembro –  de rabiscar palavras em forma de cartas. Já me disseram que sou assim, meio mãe de todo mundo e quando vi o azul dos seus olhos te imaginei celeste – tal qual o céu do meu lugar – mergulhei em seus abismos, me preparei para voos dentro das emoções que você tão lindamente entrega de presente para quem te lê.

Quando abrimos os jornais, sites de notícias ou falamos com alguém, as notícias ruins imperam as conversas e isso aqui é um alívio nesse ritmo de coisas tristes que andam por aí.

Não é que eu seja alienada e não esteja nem aí para as coisas que andam acontecendo, mas é que já há tanto de desânimo que prefiro usar as palavras para falar de amor, de vida, de natureza e de mostrar nas fotografias que o mundo pode sim ser diferente, vivido em seu extremo prazer de viver.

A vida não tem sido generosa comigo e ao mesmo tempo me enche de delicadeza como retribuição. Eu vejo a vida miúda no meu quintal, vejo o gigante acontecer no céu e abraço pessoas até mesmo sem tocar, que tudo que vivi e vivo deixa de ecoar em dores no corpo.

A gente que escreve tem esse conceito de tentar derramar nas histórias o nosso sentimento e isso, você faz magistralmente… embora, isso não nos impede de percorrer a linha tênue entre o espaço e o abismo.

Esse abismo instigante que nos chamam quando estamos a poucos passos do pulo ou o espaço ali, oferecendo um voo saboroso dentro da poesia e do amor.

E como você mesma encara a palavra tua, dona dela e maravilhosamente inspiradora, finalizo essa carta com a simbologia dos seus versos:

“Que eu saiba ser
buquê de pássaros
para perfumar os sonhos
em pleno voo”

Tríccia Araújo

Que os voos sejam teus sempre, menina coração.

Beijo,
Mari

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Uma das minhas gavetas está cheia de pretéritos

 

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Bambina mia,

… enquanto te escrevo mio menino arranca as ervas daninhas no quintal – tenho de ficar de olho para que ele não leve entre elas algumas ervas que são remédios e que curam… Outras são folhas para o chá e que ele não sabe quais são – é uma espécie de vigia entre a palavra ” essa não… é poejo”… e o grito “Nãããooo! É alfavaca!”

Abril hoje é presente aqui – mesmo – com sua ventania quase frio. Trovejou aqui e você veio pelo meu chamado. Choveu e agora está aquele vento meio pingo meio frio que adoro. As cortinas dançam com isso e acho esse balé a coisa mais linda. As folhas do pé de algodão caem com esse sopro e arrastam no quintal como se chamassem atenção para a cena.

O vento é quase uma carícia na pele e recebo ele de olho fechado e alma aberta – de vez em quando danço com ele… vou para o meio do quintal e abro os braços enquanto ele levanta meu vestido – o pássaro de todo dia ronda meu lugar… chama atenção no varal de roupa com sua miudeza e chilreio… ainda não descobri como se chama o canto do beija-flor. Será que é floreio?

Hoje é aquele dia comprido que demora a passar. Trago nele tantas lembranças da infância. As histórias de meu pai e o mistério de uma data que todos vivem sem viver de fato o verdadeiro sentido dela. Confesso que por força de algo maior que não consigo definir sigo alguns rituais que meu pai seguia. Digo no tempo passado porque é algo que marcou minha vida – acho que sou a única dos irmãos que ainda faz isso – e pela primeira vez em muitos anos não vou seguir a procissão que começa lá em cima, na avenida. Já ouço o canto pelo microfone . Alguns rituais precisam ser rompidos. Alguma coisa vai mudando com o tempo ou são as pessoas que vão se tornando estranhas aos meus olhos e já não me sinto necessária em alguns lugares.

A vida tão cheia de verbos e frases feitas. Datas singulares que abrem a gaveta de minha memória tão cheia de pretéritos que sobram para fora algumas peças extras que tento decifrar ainda.  Coloco o envelope laranja junto com os outros. Aspiro o cheiro de palavras que se juntam e aceito seu convite. Dou-te a mão e vou contigo pelas suas calçadas e ruas.
Abraço-te e rio na sintonia da resposta  que sai ao mesmo tempo que a pergunta chega…

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Missiva de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Portas e Janelas

I

Algumas portas já nascem fechadas.
As histórias descritas – escritas – por detrás delas trazem o grito preso da liberdade escolhida.

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II

Todos os dias eu passava por aquela rua… as janelas escondiam vultos de poemas.
Era como se eu tivesse lendo Adélia e como se o sol morasse lá dentro.

Impressionista


III

O antiquário vende ilusão do tempo.
Naquela rua, depois da esquina o antigo é o novo.

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IV
O eco a relembrar o artista
a solidão da alma exposta na escuridão.

V

Atrás daquela porta uma história era escondida.
Que sonhos habitam as paredes tingidas de nada?

Que perguntas ficariam sem respostas?

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VI

Logo que mudou para o bairro da avó, percebeu que seis casas acima havia aquela casa diferente. A cerca sendo abraçada por uma trepadeira que soltava suas flores lilases e suas sementes surgiam dentro de uma vagem tipo feijão deixava transparecer que não morava ninguém ali.
Um gato sempre a miar corria em cima da cerca logo que a via, como que pedindo comida.
Passou a olhar para a casa em vários horários do dia – vai que alguém trabalhava de dia e só voltava de noite? ou ao contrário – mas em suas inspeções diárias chegou a conclusão que a casa era abandonada. E planejou a invasão daquele que canto que podia ser só dela, já que em sua casa de dois quartos e mais um terceiro improvisado era pequena para o tanto de irmãos e o pai.
Um dia, criou coragem e abriu o portão que fez um barulho enorme quando a tramela foi acionada. As folhas do pé de sete copas cobria o chão e seus passos temerosos pareciam gritar quando pisava no chão.
A janela dava para um lugar perdido do nada e ali, podia sonhar…

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Fotografia e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – portas e janelas
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Se alguma coisa nasceu para voar foi o teu coração

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“Voa coração, ou então…Arde!”
Eugênio de Andrade

 Querida A.

Abril começa aos meus olhos como uma pintura de Monet… É tanto ouro e azul nessa manhã desavisada de pássaros… parece até que todos vieram de uma vez só… Os pruuus e gruus e euquetevi emendam em uma melodia barulhenta que me arranca risos. Parece discussão de criança… um querendo cantar mais alto que o outro

Algum dos meninos da vizinhança perdeu uma pipa no fio da rede elétrica… está ali, o pobre esqueleto a voar de um lado para o outro seguindo a brisa mansa.

Abril chega ameno aqui… As folhas do pé de algodão forram o lado esquerdo do quintal. Adoro o cheiro do mato se decompondo… enquanto aspiro o aroma que me carrega para a infância, o sabiá laranjeira e o bem-te-vi – corajosos, por sinal – se arriscam a roubar a ração do prato dos cães… Cada voo que dão por aqui é quase um perder de penas.

Por falar em pena, conheci um indiozinho anteontem… Ele tinha os olhos e cabelos pretinhos… Um pequeno sábio que me trouxe uma pena de presente. Colorida daria cor aos voos – para que eu voasse bonito, ele disse – ao mesmo tempo, leve… Para que as coisas não pesassem tanto e então, pensei em você e de coisas que nascem para voar…

Se alguma coisa nasceu para voar foi o seu coração.

Ele voa dentro da palavra bonita que você descreve e no mundo encantado que você me apresentou quando te abracei.

Meus pensamentos voltam para você e avanço em direção ao teu lugar… Quase visualizo as estradinhas de Minas entre as serras que minha memória busca da infância… Recordo de suas viagens e de como eu voava contigo e de como você chegou até a mim.

Ainda ontem ou anteontem foi seu dia… A memória anda em conflitos com datas e já desisti de me deixar levar por elas. Hoje, lembro mais do antigamente, ou de dias atrás. Já viu como o calendário é desavisado de presença? As redes notificam, as pessoas se lembram e vira tudo ” dia do amigo, dia da saudade, dia disso, dia daquilo”…

Eu gosto de dizer feliz todo dia! E que as coisas boas voem sempre até você. E é esse meu presente de amor… Um voo onde te dedico a leveza do carinho.

Beijo,
Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Ave, flor!

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Desenha em todo lugar
lembranças que ela deixou.
Um farelo de pão sobre a mesa serve para criar corações nas rotinas.
Uma linha que o pano de chão deixou, traz a inicial dela.
escreve ela em todo lugar.
Desenha corações nos muros.
Escreve o nome dela nas janelas dos ônibus
por onde vai a leva, dentro, fora, além.
Vê a vida com os olhos dela.
Vê ela dentro dos olhos
e ri quando imagina fantasias que ela
diria,
teria.
Vontades surgem e o respirar é ela.
Dentro, funda. Imensa. Aqui.
Coleciono pétala no olhar. Invoco o nome dela como prece.
Bem a quero. Eu bem quis.
Ave,flor!

Mariana Gouveia
*imagem: Marta Orlowska

Corredores, Codinome Locura

Adágio

adagio

Amanheço
pela minúcia das lembranças…

Em tudo busco a palavra que disse :sou tua!
Em toda letra busco o verso que não me dedicou e ainda assim sei que pensa.
Na moldura sem rosto é o teu que sempre vejo

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

Corredores, Codinome Locura

das minhas memórias todas

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seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati

Corredores, Codinome Locura

Era tudo escuro no corredor cinza.

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Cheirava a ossos a nitidez da tarde.
Ela me deu um riso torto enquanto eu esperava.
A solidão entre as pessoas é desigual.
Vivo o silêncio dos gritos.
Era pouco o dia para tanta gente.
A moça de azul desafiou as dores que eu tinha.
A lucidez se perdeu no cesto de frutas e não havia copo para sede.
E de repente tudo perdeu o sentido.
Era estação das flores quando eu acordei e você vivia o inverno.

Mariana Gouveia
*imagem: Lauren Treece

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Scenarium…

Falar sobre os livros da Scenarium Plural para mim é como falar de filho. Você vai ver aqui aquela mãe boba que só admira cada coisa que o filho faz.
A Scenarium entrou em minha vida pelas mãos de Lunna Guedes e foi amor à primeira vista, ao primeiro comentário e depois disso tivemos tanto de primeiro/primeira que até hoje tenho primeiros lances com ela.
Dessa descoberta veio as realizações de sonhos e tudo que aconteceu está aqui registrado em posts, poemas, cartas e fotos.
Mas, hoje, venho te mostrar a minha Six Top List dos livros que a Editora publicou e que te convido a conhecer:

Lua de Papel I, II e III
Lunna Guedes

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Lua de Papel não é só um livro. São três! Não é só uma trilogia! São histórias que se encontram e encantam.
Eu, amei cada um deles e enveredei pela história de uma maneira que ficava torcendo para que no próximo capítulo fosse além do que a autora descrevia. Lua de papel me fez viajar, sonhar e ficar como se estivesse dentro do livro, quase à beira da janela e bastava fechar os olhos e respirar e eu já era parte do livro…
Me apaixonei por cada personagem e muitas vezes tecia meu diálogo com elas. O livro me surpreendeu em seu final cativante e encantador.

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Dentro de um Bukowski
Aden Leonardo

“para o que existiu e foi deixado sob o lago
– aquela imensidão do esquecimento, do dia a dia. Um “B” lado oposto da realidade,
debaixo das estrelas”.

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Dentro de um Bukowski me levou/leva para dentro dos delírios. Aden me leva em uma viagem onde me deixo levar pelo lirismo latente.
Ouso, camuflo, domino, choro e rio junto.
Com ela eu não conjugo os verbos, eu os engulo e devoro. Talvez eu solte o grito que ela guarda. E literalmente viajo com ela pelas estradinhas – entre ida e volta – de Minas.
Confesso que enquanto “viajo” pego alguns atalhos dentro da paisagem e isso se transforma na melhor parte da viagem.

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A construção da primavera
Adriana Aneli Costa Lagrasta

“Ele está certo, do verão amo a tempestade, que estranhamente se antecipa no outono, este ano.

“Percorria o vidro com a ponta dos dedos, respirava fundo – como quem morre – e misturava o lado de fora ao lado de dentro…”

Compartilhei desta chuva de hoje… a de sempre… a memória: somos 60% água, matéria líquida aconchegada à passagem do tempo”.

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Adriana Aneli primeiro me embriagou com seu Amor Expresso. Sorvido, bebido e adorado. Além da simpatia – e simpatia é quase amor – e da materialidade do livro apreciado em um trabalho lindo do Atelier Flávia Taiano – que te convido a conhecer – os 50 mini contos me levaram à tardes mornas, aspirando o cheiro do café enquanto degustava o livro.
Já A Construção da Primavera me trouxe o ritmo das estações. Dentro de um projeto lindíssimo: O Diário das Quatro Estações – do qual me orgulho imensamente em fazer parte – Adriana te pega pega mão e te leva o ar supremo do outono adocicado pela sua poesia, à doçura da primavera em plena construção, ao inverno mesmo acinzentado e florido e um verão de luxo puro dentro das palavras dela. Com isso, ela constrói não somente a primavera, mas todas as estações derramadas de poesia.

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Scenarium
Plural North and South

Estamos sempre à beira. podemos quebrar a espinha ou virar o mundo. não é questão de escolha, às vezes. mas pode-se reconhecer, pelo menos, que à beira sempre está presente.
estamos sempre à beira. há os que percebem. há os que sentem somente frio na barriga. não há volta, o frio na barriga não perdoa.

estamos sempre à beira. entre nortes e suls, estaremos perdidos (como se quisessemos direção…); entre lestes e oestes, a mesma falta, o mesmo desapego.

estamos sempre à beira, mesmo quando caímos.

à margem, à beira, norte e sul.
Claudinei Vieira

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Com Plural North and Soul e o poema de Claudinei Vieira falo do Projeto Plural e toda diversidade e gama de poetas magníficos que nos presenteiam com participações especiais nas quatro edições durante o ano. A Plural é uma revista de luxo onde a troca e a pluralidade te faz singular dentro da literatura. A arte inserida desde o projeto ao formato nos torna parte da ideia, do contexto e por fim, da poesia dividida entre uma gama de autores que embarca na ideia da Editora.

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Septum
Lunna Guedes

gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes

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Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.
Septum é esse gesto pronto de entrega.
Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.
Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.
A jogada está dada. O próximo lance é seu.

**

O lado de dentro

Mariana Gouveia

A poesia de Mariana em ‘o lado de dentro’… é um dia de sol, passos pelo asfalto cinza que se acaba de repente e nos deixa a estrada de terra cercada por mato e seu cheiro de vida selvagem. Mas não se engane. A poesia de Mariana transita entre realidades-tempos-espaços e pousa direto na pele de quem a consome em pequenos goles.


Havia qualquer coisa de Santa,

mas havia, também,

qualquer coisa de louca

não sei se o jeito de olhar.

O atrever-se com as mãos

ou o recato do decote, tão íntimo.

Havia qualquer coisa de tímida,

mas, havia — também

qualquer coisa de exibicionista.

Não sei se o riso solto

ou a voz quase rindo, quase suspiro.

Havia qualquer coisa de pecado,

de sagrado também…

e profanava em mim

nas mãos que

me descobria a alma

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium

Divã

Você era pássaro na minha mão.

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Eu te voava.
Te prendia em uma gaiola onde de louca – eu – a vida atirava pedras.
Onde de louca – eu – gritava nas janelas vizinhas que te amava.
Onde de louca – eu- e a camisa de força prendendo as asas e eu não podia voar.
E te prendia no laço. E você se libertava e voava e louca – eu –
morria.
De saudades.

Mariana Gouveia
*imagem: Anita Anti