Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para onde a gente vai depois do sonho…

Querido Marcelo,

Escrever-te é como se eu repetisse um caderno que te dei anos atrás – você se lembra? – e foi ali que ganhei de presente a amizade de sua mãe. Ela mesmo me confessou tempos depois que a curiosidade dela era saber quem era a mulher que gostava imensamente do filho dela tanto quanto ela, e que o ciúme fez com que ela encomendasse os meus bordados como “isca” para saber de mim.

Tenho muitas histórias dela. Muita riqueza na amizade e muita braveza nos gestos. “Ela é uma figura” – você me disse um dia e eu te digo que ela é uma história incrível. Dividia comigo os livros, os artesanatos, e o perfume Curve. Em cada viagem dela eu ganhava um frasco.

Quantas vezes viajei com ela conhecendo o mundo! Bélgica, França, Espanha, Portugal e no Brasil, infinitos lugares. Falávamos horas seguidas, fui em todos os lugares com as descrições que ela fazia e quantas vezes ficamos quietas, em silêncio, no quarto dela por horas, aos sábados… e nos dias em que eu cuidava dela pós operações, ela dormia ouvindo Simple Three, Rain… É a melodia que ecoa aqui.

Sonhei com ela essa noite. Era isso que eu queria te dizer e ela estava feliz. Falou dos meus abraços quentes – que ela sempre reclamava que eu gostava de abraçar – que ela não transpira mais e que a vista é maravilhosa. Falou das orações que fiz e das que bordei em espanhol para ela. Disse que estava livre… e que a paisagem era quase uma canção que ela não lembrava o nome. Brigou comigo, como sempre. Depois riu e repetiu uma brincadeira só nossa sobre capítulos, que retrato a seguir:

Ela me ligou e perguntou se eu tinha tempo e eu respondi: Pra você? Tenho todo tempo do mundo. – ela riu e me mandou sentar. E discorria com todos os pormenores, que só ela sabia como contar uma história, que podia ser da vizinha, de um de vocês, do trabalho, do moço da portaria ou coisas da avó bandida que ela adorava ser. Falou para eu continuar te amando e fez aquela puxada na sobrancelha que só ela sabia fazer.

No sonho, ela mandou eu encerrar o capítulo. Era a frase que ela terminava sempre quando nos falávamos. Me descreveu a última frase e eu perguntei para ela se era um sonho e ela dizia que eu tinha domínio sobre isso… Mandou eu escrever final feliz e assim eu escrevo. A felicidade que a gente tinha com ela ganha ares de saudades… eu a vi leve, como nunca a vi. Eu a vi sumindo enquanto ela cantava que os sonhos vão para o coração e é onde a guardo de agora em diante.

Eu te abraço na leveza de quem a viu… resolvi te escrever essa carta para com isso te abraçar. Um dia, você, com uma simples mensagem me tirou de uma depressão… hoje, queria que sentisse minha gratidão por ter me dado oportunidade de ter vivido com sua mãe. A foto que registra esse post é de um quadro entre os tantos que bordei para ela, em espanhol, que ela amava e me fez estudar junto com ela.

Beijo carinhoso, estarei aqui sempre, se precisar.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão…

para esse nome das coisas.
Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.
Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.
A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Divã

das impressões do dia seguinte

Guardou-me dentro das fotografias. Pendurou-me no lado esquerdo da porta. A chave, de cores variadas lembrava a conversa sobre os séculos habitados de ausências. Eu só queria dizer que choveu e que as cartas que foram esquecidas no baú, ganharam atenção em cada palavra. Os desenhos feito à mão e o eco do mar a desafiar minha lembranças das coisas. As poesias escritas por suas mãos cabem na minha saudade. Enquanto revirava o baú, fiquei ali confinada nas tuas fotografias de vento. Cabelo preso em alguma folha que lembrava um coração. A frase que você descobriu em um muro, era apenas motivo de quebrar regras. Quase ganhei asas nas tuas cores e sua voz ecoa feito onda do mar. Quando a janela se fechou, virei quadro caído na parede, inseto parado na mão e história para ser contada depois, como se o pretérito imperfeito fosse o ponto principal de um século inteiro que passou. A ave ecoa o silêncio na árvore seca. Tudo era solidão dentro da tarde onde as cartas viraram asas de papel ao vento.

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Portas

Falar sobre portas me leva para as igrejas do meu lugar, com suas portas nem sempre abertas. Com suas histórias de fé. Com momentos do seu povo e ritos. Isso me leva para grande parte de minha infância e de minha vida.

As tradições e religiosidades do povo e as características e arquiteturas vão além de templos para os fiéis, muitas delas também são consideradas pontos turísticos. As festas dos santos e tudo que se traduz na vida da cidade.

O povo constrói as tradições através dos tempos e da fé que os move, naquilo em que acredita… Como se a porta sagrada onde se faz o sinal da cruz, os livrasse de todo mal.

Algumas histórias recontadas, transformadas em lendas ou simplesmente passam a fazer parte do cotidiano do lugar.

É impressionante ver que em cada porta que se abre ou se fecha a história fica como testemunha dos relatos, dos mistérios e das confissões de fé.

A historicidade, a tradição e a singeleza do lugar fazem com que toda simplicidade seja mais um motivo da coragem de quem se constrói com fé.

Cada vez que falo de portas, lembro-me de meu pai que sempre dizia: quando Deus fecha uma porta ele abre uma janela… Isso ficou na memória da criança que se tornou mulher. Não é um conselho que eu siga ou fique apegada a isso. Talvez, falando sobre religiosidade, igrejas e fé, o que me vem à memória é um texto que está no meu livro recém lançado, Desvios para atravessar os quintais e retrata bem sobre o que sinto sobre fé, coragem e portas. Muitas vezes, a melhor porta que se abre é a do abraço de um amigo:

“Passei pelo centro quando o sino gemia dentro de um horário errado e me levou para a cidadezinha do interior aonde tudo era feito ao som dos sinos – quando uma criança nascia / alguém morria / alguém chegava / alguém partia e o padre tivesse de passar alguma notícia qualquer – e  o povo todo surgia como um passe de mágica. Ouvir o sino da matriz em seu rugido rouco e enferrujado me fez parar e perceber a mudança na fachada da igreja. Tudo modificado desde a primeira vez que a vi. Pareceu-me que só eu havia ouvido o sino. Pessoas apressadas, em seus vai e vem fazendo contraste com os carros em fila aguardando o sinal abrir. As duas torres, seus relógios e seus vitrais coloridos em sua imensidão passava desapercebida pela multidão. Tudo parecia feito de preto e branco. Os instantes, o dia de hoje, a hora… Lembro-me da última vez que estive ali, a procura de apoio e dei de cara com as portas fechadas. Estava com um diagnóstico dentro da bolsa, com coração alarmado e buscava a esperança na fé. Um dos padres me disse que a igreja estava fechada e mandou-me buscar apoio na igreja do meu bairro. Pareceu-me que ele ainda estava ali, atrás da porta, a sensação da porta fechada… de novo dei meia volta e a igrejinha do meu interior, com as portas sempre abertas… Padre Quirino a cumprimentar as pessoas, a acolher as crianças e a oferecer sempre um abraço. A igreja do meu bairro, naquele dia, também estava fechada, mas encontrei a fé num riso de um médico, que nem abriu o envelope do diagnóstico. Abriu os braços para mim e me acolheu no coração como amiga.”

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Lunna Guedes, Obdúlio Ortega e Darlene Regina

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dos corações

A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença.
Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?

As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço. Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
Scenarium Plural Editora

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das palavras das cartas

A carta fora escrita no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.
Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar. Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma. Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia.  Um universo de distância nos separava e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudessem tocar. Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixou e eu dos cheiros das flores de lá. Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava. Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo. Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o Paraíso com nome de filtro de cor. A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

de quantos atalhos são feitas uma vida inteira?

Bambina mia,


Essa é a primeira carta do ano… e escolhi te escrever para responder sua pergunta – de quantos atalhos são feitas uma vida inteira? – e nem sei se tenho a resposta.

Hoje, eu fugi… fui para o mato para respirar, para me munir de energias para esse ano que se inicia – pelo menos, é o que o calendário daqui de casa anuncia – e embora não tenha tido contato com nenhuma pessoa que não o moço daqui de casa, pude presenciar cada bizarrice vista da janela do carro enquanto dirigia cerrado adentro que você se assustaria, mesmo já conhecendo algumas por aí.

Sabe, bambina, mesmo com dias de chuva e já passado algum tempo depois das queimadas, o verde predomina, os animais se procriam mas o cerrado ainda busca respiração. Das flores, de milhares – de outros tempos – hoje encontrei poucas. As libélulas diminuíram e as cachoeiras pareciam filetes de água. Qual atalho sigo rumo aos ninhos dos pássaros? Quais vidas buscam um atalho dentro do rio que quase secou.

Mas, antes que minha energia contamine a tua digo que a vida ali vibra e os atalhos viram caminhos de esperanças, de toque, de afago, de afeto. O cheiro do verde, o capim brotando, a chuva caindo me fazendo correr dali, de onde a cachoeira ganha forma de véu ainda me faz encher de esperança nos dias que virão. Ainda continuo sendo pouso na mão.

Quando voltei pra casa, a mesma menina que havia me dito que conseguia criar atalhos veio me receber… Perdeu mais vidas nesses três dias, mas disse que os atalhos são feitos de coragem… e que isso, eu havia ensinado a ela mesmo sem saber… E que vida inteira pode durar uma estação, uma tarde, uma noite, uma manhã, um sábado… Depende do atalho que você escolher.

Meu pote de energia está cheio e divido com você, porque para quem perdeu a referência de pai, de dois tios em menos de duas semanas ainda consegue me ensinar coragem, bambina e me lembrar que mesmo com atalhos complicados eu ainda desenhei em palavras Desvios para atravessar quintais, só posso agradecer.

Bacio.

Grazie,
Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura

dos barulhos da rua de cima

Ouvi os ritmos da rua de cima desde cedo. As crianças começaram a correr logo que o sol surgiu e o moço da reciclagem vasculhava os cestos de lixo em busca de algo que servisse para a venda. Um galo cantou – e não foi a primeira vez que ouvi… há dias que ouço o cocoricó esganiçado de um galo garnizé – o pássaro de todo dia veio buscar colo na minha mão.

Parece segunda-feira – tenho essa sensação – e o ipê ganha cachos de sementes que ao menor sinal de vento voam como se tivessem asas. Aqui, em casa, o silêncio só é quebrado pelo amuo dos cães, que já pressentem a aproximação do banho. Já sinto a proximidade das flores e o verão chega como quem vem para morar.

É só o segundo dia do ano. A primeira folhinha foi arrancada do calendário e eu conto uma história para a menina que perdeu o pai. Como dar esperança para quem viu seu herói partir? Ela segurou minha mão com a força de quem ficou sem rumo, mas que já sabe como criar um atalho para viver.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura

dos dias que se seguem

1 –
Rasgo as folhinhas antigas e enquanto limpo o quintal com suas folhas secas o novo surge no encanto do florescer.
É como se o buquê fosse a oferta do ano novo que surge. A vida sendo retratada nas cartas de tarô. A vida indo embora de forma repentina. A lua se opõe a Saturno enquanto escrevo cartas e as estrelas se escondem atrás das nuvens. O primeiro bebê do ano não é um… São vários, inclusive, o ano nasceu junto com as flores.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

– Havia o encontro marcado

Sabia a hora exata em que o universo mudava a rotina da lógica. Tudo agia para que a sensação fosse de surpresa. Cada passo fazia com que a memória ativasse os encontros passados e ainda assim era como se fosse a primeira vez.

Mariana Gouveia
Desvios para  atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
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