em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã. A permissão para sentir vem da natureza que me concedeu a fé enquanto a memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e o conselho do pai para tomar cuidado com o veneno contido dentro das coisas bonitas — base para mais um ensinamento.
Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura… eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo, cada átomo do Universo fizesse parte de mim.
Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, naquela parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim. E a poesia recém-escrita, olho no olho… onde o orvalho cresce na minha própria alma.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
Hoje aviso-te que ficarei para sempre arquejando no teu corpo… Só o teu coração saberá se épromessa ou ameaça, mas ficarei para sempre e basta.
Lourdes Espínola
Eu me rendia sempre à tentação de abrir a porta, atravessar a calçada revestida de cores nos ladrilhos lilases que formavam desenhos sobre os tons, abrir o portão da casa dela e entrar. Às vezes, pé por pé para pegá-la em silêncio ou apenas vê-la entre o riso da surpresa e o abraço que me envolvia sempre que chegava.
Cada vez que eu fazia a cena da chegada era como se fosse a primeira vez. A cortina que o vento gostava de convidar para dançar. Os quadros nas paredes formando desenhos de jardim, as flores sobre a mesa, o vinho sempre à minha espera. Como eu queria e ansiava por aquilo durante uma tarde inteira. A gana de querer o abraço me fazia viver cada momento do dia só para que àquela hora chegasse.
Eu a tinha e a queria mais. Era como se tudo que eu desfrutava ainda fosse pouco e eu podia transformar o mundo apenas por estar com ela. A coragem passou a me habitar.
Querê-la era o essencial para que eu respirasse e tudo que vivíamos fazia meu peito bater de felicidades. As sensações de vivê-la era o que me movia. A ganância de possuí-la me fazia dela, mais que tudo. Sorvia da boca dela o ar que respirava e cobria-me da pele, das palavras. O corpo dela, meu diálogo com o mundo e o riso, minha esperança de felicidade. De dia, escondia-se nas letras escrevia sobre política, religião. Costurava as vontades como casulos ao redor do riso, do olhar da boca, dos sonhos. Era artesã do desejo. À noite, ela descobria-se com asas plenas de sonhar. Se mostrava. Amava ela, em metamorfoses em que as asas davam lugar as imaginações. E sempre queria mais.
Mariana Gouveia Poema da Série Sete Pecados Scenarium Plural Editora – 2015 *fotografia: Dorina Costras
Há pecados tão agradáveis que, se os confessasse, cometia o pecado do orgulho. Sophie Arnould
Olho para ela pelo espelho e minha alma fica em êxtase. Em meu céu brilham as estrelas dos olhos dela. Contorno toda sua silhueta como se a desenhasse e quero gritar bem alto. Dizer que a tenho e que cada dia aquele amor é maior do que meu peito suporta. – Isso me deixa orgulhosa! – ela diz – Orgulho é pecado capital. Eu digo. e o riso dela ecoa pela casa afora, chamando atenção de quem passa na rua. – Logo nós tão pobres pecadoras, preocupando-nos com apenas um dos pecados mortais? Estamos cheias deles. – Mas me orgulho de você e da sua praticidade terna em punir sentimentos. Me orgulho de sua pinta nas costas. Dos dedos longos desabotoando a blusa. Da maneira como bebe o vinho… – Esse orgulho não serve…Esse é dos pecados, o menor. – E qual seria o maior? – No conjunto universal, acredito que englobamos todos. – Então te perdoo por todos os teus pecados e até mesmo pela culpa que teus olhos guardam. E não se fala mais de pecados nessa casa. E não falamos. Eu ficava reduzida ao seu olhar e bebia orgulho dentro deles. Ela era minha. De posse mesmo. De contar vantagem que eu possuía o que de mais belo ela tinha. A beleza dela não me escapava. Media cada centímetro de sua pele com as mãos e saboreava a paixão que me sacudia a alma. Tinha a alegria que o vento do cabelo dela sentia ao tocá-la. Tão minha e tão livre. E o riso. Ah, esse riso que ainda ecoa em mim cada vez que lembro dele. Chego a rabiscar a parede com poemas sobre o riso dela. Com os olhos dela eu rezava e com minha alma eu pecava, talvez motivada pelo orgulho maior de amar.
Mariana Gouveia Poema da Série Sete Pecados Scenarium Plural Editora – 2015 *fotografia: Dorina Costras
O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar. Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
Resumir um ano inteiro e tão atípico em 6 fotos é um desafio. Eu poderia descrever cada mês com a mesma intensidade com que aconteceram os dias. Mas, até nossas vidas serem modificadas pela pandemia aconteceram encontros, abraços e risos.
A pandemia transformou meu dias em artesanatos, comida, livros, comidas, receitas, comida, fotografias, comida, caminhadas pelo meu quintal, comida, lives, comida, estudos, comida. Nuca estive tanto na cozinha como nesses meses.
Passei a acompanhar o por do sol do ângulo que o muro me permitia e os tons atravessaram os muros e fui brindada pela beleza. Tantas, em nuances e cores…
tantas em formas diversas e de alma.
Chorei perdas, sofri com números, usei máscaras, plantei flores e colhi tudo que plantei. Aguentei desaforos, solidão, e escrevi…
Escrevi e lancei um livro: Desvios para atravessar quintais. Talvez não tenha conseguido passar nem aqui, nem no livro o ano diferente e assustador que o mundo inteiro viveu/vive… Mas, preferi encarar ele com poesias e é assim que esse projeto chega até você que me lê.
A possibilidade de uma vacina renova a esperança em um ano novo que chega. Não somos mais os mesmos. Não seremos. Há um novo tempo no ar. Isso causa medo e ao mesmo tempo me encoraja a acreditar. Enquanto tudo isso não chega, deixo vocês com a poesia:
“O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância. Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades. Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo. O porta-retratos guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo. O verbo era quase um propósito de espera. As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto. O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.”
Mariana Gouveia Projeto 6 on 6 Scenarium Plural Editora. Se tiver interesse em meu livro novo, é só chamar (11)99241-5985
Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
A cartografia da pele exposta… nervos e poros. A tintura feita a mão para contar as horas.
As portas noturnas acusando a solidão. Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade. Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo. A voz na garganta é esse grito onde a solidão encontra-se com a minha na esquina da rua de cima.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.
Desvios para atravessar quintais. Lançamento 28/11 em uma live via Facebook pela página da Scenarium. as 17 horas (horário de Brasília). Encomende o seu exemplar É só chamar (11) 99241-5985