
Hoje aviso-te
que ficarei para sempre
arquejando no teu corpo…
Só o teu coração saberá
se é promessa ou ameaça,
mas ficarei para sempre
e basta.
Lourdes Espínola
Eu me rendia sempre à tentação de abrir a porta, atravessar a calçada revestida de cores nos ladrilhos lilases que formavam desenhos sobre os tons, abrir o portão da casa dela e entrar.
Às vezes, pé por pé para pegá-la em silêncio ou apenas vê-la entre o riso da surpresa e o abraço que me envolvia sempre que chegava.
Cada vez que eu fazia a cena da chegada era como se fosse a primeira vez. A cortina que o vento gostava de convidar para dançar. Os quadros nas paredes formando desenhos de jardim, as flores sobre a mesa, o vinho sempre à minha espera. Como eu queria e ansiava por aquilo durante uma tarde inteira. A gana de querer o abraço me fazia viver cada momento do dia só para que àquela hora chegasse.
Eu a tinha e a queria mais. Era como se tudo que eu desfrutava ainda fosse pouco e eu podia transformar o mundo apenas por estar com ela. A coragem passou a me habitar.
Querê-la era o essencial para que eu respirasse e tudo que vivíamos fazia meu peito bater de felicidades.
As sensações de vivê-la era o que me movia. A ganância de possuí-la me fazia dela, mais que tudo.
Sorvia da boca dela o ar que respirava e cobria-me da pele, das palavras.
O corpo dela, meu diálogo com o mundo e o riso, minha esperança de felicidade.
De dia, escondia-se nas letras escrevia sobre política, religião. Costurava as vontades como casulos ao redor do riso, do olhar da boca, dos sonhos. Era artesã do desejo.
À noite, ela descobria-se com asas plenas de sonhar. Se mostrava. Amava ela, em metamorfoses em que as asas davam lugar as imaginações. E sempre queria mais.
Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Dorina Costras
Confesso que sentia falta de uma boa leitura assim, muito bom mesmo. Parabéns.
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Fico feliz! Grata!
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