Afetos · Das palavras das cartas

A Urgência das Flores e a Saudade nos Dias.

Rose,

Eu vi sua mensagem e fiquei dias pensando sobre essas coisas do tempo e a correria do dia a dia. É verdade: há uma pressa mansa nas coisas da terra que nenhuma engrenagem dos homens consegue imitar. As plantas não olham o relógio para saber a hora de romper o botão; elas simplesmente respondem a um chamado antigo, uma urgência oculta que transforma o galho seco em manifesto de cor em um piscar de olhos. Ouço os ensaios sobre a efemeridade do tempo e a necessidade de desabrochar antes que o vento da primavera mude o rumo das coisas, e imediatamente compreendo que a nossa vida é esse eterno ensaio de urgências guardadas.

O domingo passa por aqui desenhando sombras compridas nas paredes e lembrando que as horas são feitas de fumaça. Se o mundo corre para acumular certezas, a maturidade me ensina a saborear os minutos como quem bebe um café morno, sem a obrigação de dar respostas aos ruídos lá fora. A efemeridade não me assusta; ela me encanta. Saber que a beleza de uma pétala de ipê reside justamente no fato de que ela vai cair e virar tapete na terra é o que dá dignidade ao ciclo. O tempo passa rápido, sim, mas deixa os nossos ontens assentados com firmeza na memória.

A nossa caligrafia também carrega essa urgência bonita de florescer. Escrever é o jeito que encontramos de prender o instante fugaz na página impressa, transformando o sopro do vento em narrativa viva. O sabiá aqui amanheceu cantando. Costumo dizer que ele pede chuva com seu canto dolente. É quase poesia, Rose, e ela acontece no recolhimento manso, na curva de uma consoante que soube reter o impacto de um afeto ou no chilreio do pássaro que anuncia que o dia cumpriu o seu compromisso com a harmonia.

Fui contar os dias que a gente não se vê e desisti no meio do calendário. A gente não precisa deles. Foi como eu disse para você: mesmo que a gente demore para se ver, quando isso acontecer de novo, será sempre como se tivéssemos nos visto há pouco. O que eu sei é que, mesmo de longe, te acalento no meu coração e sei que há momentos em que é hora de acolher o silêncio que se instala na casa. Mas, quando penso em você, é a sua risada que vem na minha memória primeiro. Venha logo, já estou pronta para o abraço.

Mariana Gouveia

Deixe um comentário