Bambina mia,
Aconteceu um silêncio insano nessa manhã de setembro aqui, e o tique-taque do relógio da sala me fez pensar no carrilhão do tuo nonno e naquele setembro que desfez a casa. Imediatamente me pego espiando as heranças intangíveis que os meus próprios mais velhos deixaram plantadas na minha derme. Existe uma contagem de tempo que não obedece ao zunido dos relógios dos homens ou ao calendário oficial das estações. Nosso compasso mais verdadeiro é aquele que ressoa no lado de dentro, ativado pelo perfume de um cômodo antigo, pelo calor de um prato de caldo no inverno da alma ou pela silhueta de quem um dia nos ensinou a esticar os braços em direção ao invisível.
Quando você compartilha comigo a canção que está ouvindo, traz a trilha sonora para o meu quintal. Quase sempre ela me atinge na mesma emoção que a tua. E quando falamos de chás, do nonno, da nonna, da lua, é como se eu estivesse lá… Olhos vidrados nas suas histórias e momentos. As tuas memórias reavivam as minhas. Lembro-me dos rituais da fazenda, das vozes que cantavam versos prediletos na soleira e das trocas silenciosas de folhas secas que hoje repousam esquecidas no fundo dos meus volumes prediletos de poesia. Nossos livros favoritos guardam esses encontros interrompidos, essas conversas sobre autores que não houve tempo de concluir, mas que permanecem vibrando em cada página que folheamos.
Não me perco das datas de vida e morte porque sei que a literatura é o território sagrado onde os ontens colecionáveis se recusam a apagar. Uma porção de nós se despede a cada porta que se fecha e a cada plataforma de estação que se esvazia, mas a palavra escrita opera a sua própria alquimia de ressurreição. Toda vez que a saudade acena na caligrafia sutil dos dias, o cenário se reinventa com cores conhecidas, provando que nunca estamos sós enquanto houver herança de afeto para segurar o horizonte.
Nesta manhã de silêncio que só é rompido pelo tique-taque do relógio da sala e pelo chamado do bem-te-vi que pede a comida de todo dia, enquanto preparo o chá e observo a paisagem se acomodar, acolho o eco de tudo o que foi bom e permaneceu. Me junto às suas lembranças e ao seu renascimento cada vez que a palavra nonno te abraça.
Bacio
Mariana Gouveia
