De repente, percebi que os dias passaram a correr mais rapidamente e, ao olhar no espelho, vi tantas de mim por trás dos cabelos brancos. Sempre quis envelhecer e caber na sabedoria que fui aprendendo com pessoas que me ensinavam o caminho. Na minha infância e em grande parte da adolescência, eu me encantava com os fios brancos dos mais velhos. A minha Bá tinha os cabelos que pareciam flocos de algodão ou a paina com que enchíamos os travesseiros. Conjugar o verbo envelhecer com a altivez de quem coleciona primaveras e não lamentos é uma arte que os tempos de agora parecem ter esquecido. Há uma corrida ruidosa para frear a idade do corpo, um esmero vão para riscar as linhas da pele, como se a maturidade fosse um espaço de desconforto e não o território sagrado onde a nossa história finalmente ganha nitidez. Sorrio ao perceber que o compasso lento da natureza sempre foi o meu melhor mestre sobre a passagem das estações.
A vida me ensina que o tempo não destrói; ele assenta. O ipê que perde as suas flores amarelas e adormece até o próximo ciclo não está morrendo; está ganhando idade com a dignidade de quem sabe que cada ruga na madeira é o registro de um vento que foi suportado. Não nascemos para manter o viço estático das plantas artificiais; nascemos para ver a semente virar fruto, aceitando que a gravidade que puxa as folhas para o chão é a mesma que nos finca as raízes com firmeza na terra. Acho bonita a altivez das mulheres que, feito a faceira senhora dos cabelos brancos, decidem viver com as horas inteiras, sem pedir licença aos julgamentos alheios. Acho que me pareço com ela nessa questão.
Logo que deixei de pintar os cabelos, recebi muitas críticas, e o que me chocou é que grande parte delas veio de mulheres que ligavam meus cabelos brancos a um desleixo. Segui em frente e hoje meus cabelos estão quase totalmente brancos. Penso neles como um texto sendo maturado para caber num papel. A nossa literatura também exige essa maturação mansa. O desabrochar de um novo texto não acontece na pressa das frases prontas; ele depende dos nossos ontens acumulados, do silêncio que digere as leituras antigas e da coragem de colocar a nossa própria carne nas consoantes e vogais. O tempo que cabe nas minhas palavras sabe que envelhecer no papel é purificar a caligrafia, cortando os excessos para que permaneça apenas a essência daquilo que rasga e permanece.
Celebro os anos que se acumulam na minha própria árvore. Não tenho medo do tempo dos homens e de suas medidas exatas. Prefiro a certeza mansa de quem sabe que ganhar idade, afinal, é o nosso jeito mais bonito de espalhar pólen pelo mundo, garantindo que a nossa voz continue viva na memória do chão que nos acolhe.
Mariana Gouveia
