Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

O Sopro do Equinócio e as Duas Faces do Chão

Há um instante secreto no coração de setembro em que o universo decide suspender os pratos da balança. O dia e a noite se olham de frente, com o mesmo peso e a mesma exatidão de minutos, lembrando-nos de que a vida é feita dessa eterna vizinhança entre a luz e o recolhimento. Ouço o ensaio sobre os ventos ancestrais que separam o céu e a terra para que o mundo possa respirar, e imediatamente percebo que a nossa escrita também é filha desse movimento — um rodopio manso entre a memória do que já foi semente e a urgência do que precisa virar fruto. Nesse momento, só consigo me lembrar da canção que se chama Sol de Primavera.

Aqui no meu lugar, o equinócio se anuncia na própria textura do ar. O calorão do dia, que estica o tempo dos homens além do suportável, cede espaço para a brisa que chega sem pedir licença quando o sol mergulha atrás do telhado vizinho. As duas faces da existência se ajeitam na madeira da mesa. Se para alguns setembro traz a melancolia das chuvas antigas, a escritora que sou prefere a mística do recomeço que os cadernos novos da infância prometiam. Abrir uma página branca nesta nova estação é resgatar aquele ritual sagrado das papelarias, onde a caixa de lápis de cor continha todas as respostas para os nossos inventos. Devo pintar um jardim nessa estação?

Acho bonita a fidelidade da terra, que nunca se esquece do compromisso de acertar os seus próprios ponteiros, à revelia das nossas eufóricas correrias urbanas. Estico os braços no quintal e percebo como o corpo acompanha a mudança das horas-cheias. A literatura, afinal, é o nosso próprio sopro de vento: aquilo que nos ergue para que possamos enxergar o horizonte e, ao mesmo tempo, nos finca as raízes no chão que nos acolhe.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros saboreiam o néctar das flores e o silêncio ganha o mesmo tamanho da claridade, preparo o meu chá e deixo que os versos ganhem vida. Uma nova estação pede passagem na caligrafia sutil dos dias. Que a dança do pólen cumpra o seu destino enquanto, no meu canto, sigo costurando as metades da vida com o fio do afeto.

Mariana Gouveia

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