Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

É preciso respirar fundo para ser flor dentro do dia seguinte.

A caligrafia do encerramento: quando a última linha encontra repouso entre as sementes do chão.

Quando fecho o livro depois da última página, a palavra fim ecoa em mim por um tempo. Em alguns, eu quero continuar a história e a pergunta insiste: e agora, serão felizes para sempre? O que será que acontece depois que a página é fechada? Enfrentar a última linha de uma narrativa exige uma coragem que nem sempre os dicionários sabem explicar. Há quem feche o volume e o leva imediatamente à prateleira, buscando o próximo enredo como quem muda de calçada sem olhar para trás. Mas a escrita, quando nos habita de verdade, recusa a pressa contemporânea; ela exige esse tempo de pouso, esse exercício de saborear e digerir as alegrias e decepções das personagens que acabaram de partilhar a nossa mesa. O fim nunca é um vazio completo; é o território exato onde o rascunho-promessa desabrocha e começa a existir por conta própria.

Aqui no meu lugar, acontece também quando as flores se fecham depois de cumprirem o rito de desabrocharem. Assim como compreendo o peso dos silêncios que ficam guardados no lado de dentro das portas que escolhemos fechar, no jardim, recolher as flores murchas também incomoda. É um adeus para além do que se vê. Cada ciclo que se encerra nos dias funciona como uma semente que se rompe na terra, tão logo uma morre. É nesse espaço suspenso, logo após o ponto final, que uma nova voz desperta dentro de nós — mais inteira, lavada de céu e ciente de que a literatura é esse salto sem paraquedas onde aceitamos os nossos próprios abismos. E a terra espera o novo broto, a nova flor.

É profundo o eco de um livro que permanece vibrando na derme muito depois de sua leitura concluída. Nossos volumes prediletos são espelhos das tramas que escolhemos desbravar e, quando eles se colam às paredes da nossa memória, a nossa caligrafia também ganha novas dobras. Não precisamos fugir do caminho ou recomeçar o texto para evitar o desfecho; o compasso lento do mato nos ensina que a queda das pétalas é o que permite ao fruto nascer no tempo certo de cada ciclo.

Quando a claridade mansa doura os cantos do quintal e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, acolho o silêncio que se instala após a última palavra escrita. O homem passa e falha, as plantas nascem e morrem, mas a escrita territorial permanece, rompendo o chão do tempo. Vamos até o fim, aceitando os abalos do peito, os arrepios na pele, porque sabemos que depois da última linha há sempre um quintal inteiro esperando para florescer.

Mariana Gouveia

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