Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes

Missiva para além das intensidades

Uma correspondência fictícia entre dois personagens clássicos.

Raissa,

Zero hora pelas pontas da rua, e a luz do poste lá fora parece crepitar o mesmo compasso inquieto que trago no peito desde que você bagunçou as minhas certezas de Teodoro. Escrevo-te nesta hora-cheia porque li, num desses quartetos de Eliot, que há tempo para a fumaça amarela que flui pela rua roçando o dorso nas vidraças, mas a verdade é que o tempo dos homens perde a precisão quando tento medir a distância que nos separa. Olhar para as janelas que ganham contornos internos na noite de São Paulo é o meu jeito de espiar a sua interioridade, imaginando em qual dessas esquinas a sua liberdade fez pouso.

Você sempre foi a criatura indomável, aquela que risca o mundo com passos firmes e olhar fragmentado, enquanto eu tentava me emparedar nos cantos, com medo do espetáculo que o amor promove quando decide romper o chão da nossa rigidez. Mas ao fechar os olhos, revivo a nossa própria acrópole de afetos. Meu corpo se converteu em casa tomada por chamas na primeira vez em que suas mãos cruzaram a barreira do meu silêncio. Fomos duas estranhas que se tocaram com a pressa de quem teme o crepúsculo; duas personagens de um romance rascunhado no avesso do que a convenção dita como certo.

Dizem por aí que o grande homem é aquele que mantém com perfeita doçura a independência da solidão no meio da multidão. Eu nunca quis a multidão, Raissa. Eu preferia o banco do sebo, o perfume do papel antigo e o seu olhar me decifrando entre consoantes e vogais. Se hoje nos tornamos janelas de olhar — duas figuras distintas suspensas na memória uma da outra —, guardo comigo a exatidão daquilo que fomos. A poesia, afinal, é esse retrato de momento que nenhuma distância ou julgamento alheio é capaz de apagar.

Preparo o meu chá nesta noite fria e deixo que o imaginário termine de tecer o verso que me falta. Que a sua escrita continue rasgando o mundo com a força de uma palavra rompante, enquanto eu, cá no meu canto de silêncios, sigo guardando o fogo que você acendeu por trás da minha vidraça.

Com a intensidade que você me ensinou,
Alexandra

Um comentário em “Missiva para além das intensidades

Deixe um comentário