Das rotinas · infinitamente

Das infinitudes

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.

Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Preto e branco

A última música ainda toca aqui e o mosaico das
fotografias em preto e branco no fundo da caixa…
alguém um dia leu as linhas de minha mão e traçou uma rota de saudade… Era você a personagem
do livro que sublinhei, por quem me apaixonei e
repetia o teu nome dentro da frase “eu te amo”
que se tornou um mantra na minha boca.
Era uma fuga ao passado — sem bússola, apenas
para dizer que no espelho o sonho dorme, o desejo chega e as cores somam… E ao revirar essas coisas todas — tão nossas — percebo que sou o filme
não revelado ainda na câmera e restando fotografias para clicar.
Dizem que ao abrir a câmera, o filme vela… seria
então o nosso fim?

Mariana Gouveia
Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Tumblr

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

quando restou apenas uma flor no ipê…

a ave de todo dia voou, já era tempo de espera para a cura.
A rua de cima invadiu o quintal com os gritos das crianças
empinando suas pipas e a vida, ali, parecia normal.
O tapete amarelo no chão já tinha se tornado húmus
e o vento arrastava as folhas secas, fora da estação.
O rádio antecipava as notícias de amanhã e a certeza
de que tudo é breve veio com a flor no chão.
Dessa vez, o pássaro apenas se conformou e ficou à espera de outro botão abrir…

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

infinitamente

As flores miúdas acontecem no quintal.

Havia rumores de lendas dentro da história que alguém me contou.
Li sobre esperança em algum lugar enquanto as sementes germinaram no doce desafio de viver.

O vento tentou morar na mão e saiu desatinado dançando com as coisas que encontrava pelo caminho.

A estação marca presença nos dias e outubro se esvai em conta gotas na imensidão das horas.

A sorte passou por aqui e pediu para avisar que ainda, apesar de tudo, é tempo de sonhar.

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

Antes do temporal,

na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia – os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser – e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.

Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…

Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

Mariana Gouveia
das infinitudes

Divã · infinitamente

Tem jeito de anjo, a moça

mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém

Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas
e pensa em salvar o final feliz da história.

Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)

exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz

e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

Divã

Ela é sóbria

Não tem moedas para pagar o preço de ser livre.
Cruza pontes estreitíssimas e ri.
Adoro a estrela que se insinua em seu riso.
Corteja os azuis em um tempo manso.

Tem vontade de voltar para casa,
se bem que a casa dela é em qualquer lugar.
Brinca com as correntes que não fez. Eu rio.

Ora para que o plano A dê certo,
e no C cruza os dedos.

A vida sorri para ela.
Às vezes, ironicamente.
Mas ri quando no pote de feijão encontra sorvete… e amor.

Plena e indizivelmente batiza seus silêncios.
Tem álibi, atreve-se. Ama.
Sempre se deixa enternecer pelo que a alcança.
Talvez, por isso, as pedras não sejam pedras, mas flores.

E tudo que desejo é que o amor há de encontrá-la
desatenta e assim, entre as palavras e o sorriso ela seja feliz.

Mariana Gouveia.
*imagem: Tumblr 

Das palavras das cartas · infinitamente

E se voássemos para onde o sol se dobra?

Se alguém já não tem a terra,
mas tem a memória da terra,
então sempre pode desenhar um mapa.
Anne Michaels

Luci,

Eu já vi uma árvore desencantar e foi essa da foto, Luci… Ela ficava no quintal da vizinha da direita e eu só via seus galhos e folhas. Era uma goiabeira – igual a sua – e servia de morada para grande parte dos passarinhos que visitam meu quintal hoje.

Naquele tempo, Luci, eu não tinha tanta árvore grande. As minhas cresciam devagar, de acordo com o calendário das árvores – você sabia que elas têm um calendário próprio, Luci? – então, por isso, eu agradecia a goiabeira da vizinha por abrigar os pássaros que voavam por aqui.

Um dia, fui reparando que ela estava ficando murcha, quase seca e de repente, tudo secou. Nesse dia, eu chorei. Fiquei lembrando do sentimento que meu pai sentiu quando o pé de cedro que ele plantou – quase igual a música que ele gostava de cantar quando eu era ainda menina – morreu…

Acho que nunca contei, Luci que meu pai era lenhador antes de ser pai, tinha até uma fotografia em preto e branco, num quadro da nossa sala, onde letras garrafais escritas por alguém importante da cidade dizia ele ser O Rei dos Machadeiros… mas ele mesmo disse que havia plantado o pé de cedro para justificar as árvores que ele arrancava, seja para desbravar lugares, cidades ou mesmo na formação de roças.

Mas, um dia, ele ouviu uma árvore gemer, logo no primeiro golpe de machado. Foi ali que ele aposentou seu machado de vez, quebrou o quadro e depois disso, passou a criar florestas por onde a gente passasse.

Eu agora, Luci tenho no meu quintal um pé de jabuticaba, de algodão, de orai pro nóbis, um de ipê amarelo – que tinge meu quintal de dourado de vez em quando – e um pé de guariroba – uma espécie de palmeira – além outras plantas menores. Lembro-me de que meu filho quando veio de férias estranhou quando abriu o portão e disse: temos uma floresta aqui?

Para além da rua de cima, tenho árvores de estimação em alguns lugares preferidos. Um flamboyant na estrada da faculdade, um ipê rosa no ponto final da linha 609, um ipê branco no estacionamento do shopping, um araçá na rua de baixo e tantas outras em lugares que gosto de ir.

De vez em quando vou visitar esses lugares para falar com essas árvores, Luci… um dos meus amigos pajés me ensinou para abraçar elas quando minha alma estivesse triste. Isso tem funcionado, de alguma forma, em dias difíceis. E fiquei pensando se não seria elas algumas pessoas encantadas me consolando…. será, Luci? Eu não sei explicar sobre isso. Quem sabe um dia teremos uma resposta. Por enquanto, seguimos o calendário do sol, que já vai alto por aqui. E se voássemos para onde o sol dobra, Luci? Seria também uma espécie de encantamento?

Um beijo carinhoso,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi.

Mari,

Quando me mudei para essa casa, meu guarda-chuva tocava as árvores da rua. Nesses quase vinte anos, chegaram na altura adulta e mal vejo as copas.

Tenho muitas histórias com as árvores da minha rua, uma vez, cuidamos de uma goiabeira quebrada. Colamos com seiva e fizemos ataduras, mas ela se recusava a sarar. Pensamos num plano de roubá-la numa noite escura, mas um amigo advogado nos advertiu do perigo que há em salvar, poderiam chamar a polícia ao ver as gravações da rua e assistimos ao seu fim silencioso.

E ninguém percebeu que a menina esguia que já estava na inflorescência, havia morrido.

No verão de 15, um raio partiu minha figueira. Parecia uma nau com seu rangido quando atraca.

Sofri com o vazio que ficou.

Dessas que vê na fotografia, são sobreviventes: muitas caíram ao longo desses anos, parecem não gostar das estações das chuvas.

Outro dia percebi que fizeram um coração com iniciais em uma paineira. Isso me doeu tanto quanto fosse tatuada em mim um amor que nem dura a infância de uma árvore.

Mari, já te contei que vou virar árvore quando me encantar?

Carta e fotografia de: Luciane Ricieri