Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Atemporal,

a sílaba espera caber entre o rio e o mar. Faço notas mentais de cartas que escrevi-descrevi e não enviei. As flores carregavam seu nome junto das fragrâncias e floria no jardim. Um coração marcado de espera. Uma vontade viva na alma. O vermelho da boca e a lua minguante constatando o sal do beijo desejado.
A lua e sua cor dourada de sol é quase o mesmo olhar em sua direção.

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

cabem dois pais em um só coração?

Pai,

era uma estrada, aquela que a gente pensava que era trieiro – de tanto que passávamos – e que mostrava o descampado para além da floresta. Hoje, busco o mesmo caminho dando voltas no quintal.

Sabe, a sua filha anda cheia de perguntas e não vejo mais ninguém que possa responder… fico buscando as respostas em conversas antigas e que só me levam para as lembranças.

Eu escrevo essa carta dividida para você e o pai do Lauro, que você só viu pequeninho. Embora, a carta seja direcionada para você, pai, o pai do meu filho vai ler também como se fosse para ele. Não posso separar o homem que me criou e me fez tão ciente do mundo do homem que me faz ser alguém no mundo.

Acho, pai, que não poderia ter escolhido pai melhor para o menino, para o adolescente e para o homem que se formou dentro de suas vontades. Eu quis que o pai do meu filho fosse exatamente – até com os mesmos defeitos – igual a você.

Ele ri das minhas bobagens, se zanga de coisas menores, mas é imenso em segurar minhas mãos. Das minhas memórias, pai, você era o vigia das vontades nossas. Sete filhos da mesma mulher e só depois veio mais um… já com o pai do meu filho foi diferente… a vida levou um e ele, que era tão pleno de ser pai desejou ser mais que pai. Desejou ser amigo e assim é…

A data se torna obsoleta nesse domingo estranho… agosto é esse tempo de fogo, de secura, de fumaça no céu… lembro-me, pai, do senhor cuidando dos aceiros para proteger a lavoura e da florada dos ipês. Foi vendo a florada dos ipês com o senhor que me apaixonei pelas árvores.

E foi pensando em meu encantamento pelas árvores, pai, que o pai do meu filho plantou o ipê que hoje abriu suas flores mais uma vez no meu quintal. O amarelo doura o chão e eu penso no senhor e abraço o pai do meu filho aqui em extensão ao meu abraço para o senhor.

Te amo e amo ele, de maneira especial e única!
Mariana Gouveia

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Scenarium Livros Artesanais

 É necessário coragem para voar.

Calculava a rota dos meteoros. O céu é imenso dentro da noite escura enquanto o vento inventava floreios na cortina.

Os barulhos da noite trazem o canto dos grilos na varanda. A vida é esse reprisar de ciclos. O tempo todo, o eco lá fora e no céu, a chuva de estrelas cadentes – tão rápido e fugaz – desenhando dourado no céu.

As fotografias rasgadas e espalhadas no vento. O pedido feito de última hora. A previsão do tempo promete chuva amanhã.
Aprendi a contar o tique taque do relógio e acordo antes que o despertador toque e a descobri sabores de mar no rio.

Não há por onde escapar quando os ventos chegam em todos os portais. É necessário coragem para voar.

Mariana Gouveia
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Literatura / Crônicas · Scenarium Livros Artesanais

Contei a história para menina de agora.

 O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas, a não ser de meteoros. Um avião quase atravessou a lua.

O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens – uma ave, o voo – a nuvem formando desenhos que me lembram a infância…

A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre a palavra Posso e Consigo. Usou a palavra força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente.

Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Tem noite que o dia não é para qualquer um… só para quem é guerreira.

Mariana Gouveia
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Scenarium Livros Artesanais

16 º aniversário da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

É tempo de celebrar e honrar o direito dos indígenas e sua grande contribuição cultural para o planeta.

O homem é um guerreiro… sábio e um homem… Mas índio.
Resistente. Reconhecido igual como seus iguais, mas diferente – como todos deveriam ser – com sua identidade própria.

O guerreiro é livre. E luta a cada dia pelo respeito é o que os move.
Eu conheci um guerreiro. Um líder e sábio. Conheci a verdade no olho e sua história e era alguém que definiu minha fé.

Eu acredito na natureza. Ela é forte, voa, voraz e firme.
Os direitos humanos nunca foram seus direitos. A igualdade nunca foi igual e nem razão para desistir da luta. A liberdade é essa, única, de briga, de falar alto e exigir o respeito.

A determinação é sua. Continue… lute, vença.
É toda arte de ser. É toda vontade de lua.
É toda raça no nome. É índio!

Mariana Gouveia
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Afetos

Era apenas a palavra poesia que findou.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
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infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

De noite, o mar é dourado

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.

Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.

Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.

O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.

Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.

Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.

De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz. O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
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Scenarium Livros Artesanais

A solidão é a mais crua das verdades

A estação, dentro da palavra
A lua, em infinita vezes, encanto.
A realidade é essa coisa descrita de como foi quando o homem pisou na lua.
O rastro a ecoar poesia: a terra, é azul – o homem do espaço disse – e depois, em um poema, o poeta disse: a folha é verde e a água, transparente – e ninguém me explicou o que era a mistura de tudo.
Amanhã, ela será poesia, na palavras de quem enxergou razão, dentro da beleza da rua, iluminada pela lua.
Quando a confusão de sentidos e a vontade de ser dentro do outro, eclipsei na palavra tato.
Quase toque, quase obscuro o sentimento do que não se pode explicar.
A solidão é a mais crua das verdades e enquanto isso, a natureza se veste e o mundo, se torna um lugar comum porque o céu se torna algo espetacular.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA – dos dias aleatórios ao encantamento

estranha que fui 
quando vizinha de longínquas luzes 
acumulava palavras tão puras 
para criar novos silêncios 
 Alejandra Pizarnik

Bambina mia,

de repente, hoje, percebi o silêncio no quintal através das teias de aranhas… geralmente, o quintal é barulhento por si só. Não bastasse o Chiquinho e seu chilreio atrás dos invasores da sua água no bebedouro, ainda há um bando de Encontros – o pássaro preto com o filete laranja na asa – o bem-te-vi e o pé de ipê com seu farfalhar de folhas nessa estação estranha por aqui.

Engraçado que falo de todos os bichos e de todas as coisas e me deparo com as teias enquanto dou água às plantas. Confesso que fiquei presa por um bom tempo dentro desse silêncio de domingo assistindo elas a cruzarem fios como se fossem tecelãs.

Algumas, parecem que foram abandonadas depois de tecidas. Geralmente, ficam entre o pé de clitória e capins que nasceram ali e que deixei ficar por causa dos cães. Parecem toalhinhas de crochê, e com os respingos da água parecem pérolas penduradas.

Sabe, bambina, fiquei pensando em como algumas coisas me causam encantamento no quintal e quis dividir com você o silêncio delas… Até o vento silencia perto das teias… a memória me leva para os campos do lugar onde meu pai mora e de como a vida vai me apresentando esses encantamento em dias aleatórios, como hoje.

A luz atravessa os fios e olha, bambina, os desenhos modificam de uma para outra… fiquei impressionada com isso e de como o silêncio se dá bem com isso. E em algumas, a doçura do erro não estraga a forma da teia… apenas a torna mais encantadora.

Confesso, bambina, que não sou muito fã do bicho que tece, talvez por isso, meu olho nunca tenha esbarrado nelas… mas, hoje, é domingo e descobri que não há dia para se encher de encantos nem de silêncios. O domingo parece acordar, para além dos muros e a vida já corre ligeiro por aqui. Vamos ali, viver!

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Algumas esperas são angustiantes.

Olho o tempo e o relógio do nada.
Pedem sangue e a fila vazia de cor.
Não há cura para o diagnóstico da dor. E as rotinas refletem os mesmos rostos que me olham.
As palavras não ganham esperança nas histórias.
A moça de azul nem me olha.
Fito as frases de ajuda nos folhetos pregados na parede. Não ajuda.
Falam de esperanças renovadas e as minhas envelheceram faz tempo.
Lembro-me de nossas conversas e do riso e da promessa que não cumpriu de ficar.
Eu só queria mais uma chance para mudar o fim da história, mas a moça de azul aplica a dose diária e eu me esqueço de esquecer.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
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