o calor abrasador transforma minha cidade em um lugar infernal. Como você já sabe, estou impossibilitada de escrever devido alguns procedimentos em meus olhos e já faz algum tempo que não leio nenhum livro. Portanto, as fotos aqui já foram feitas há algum tempo. E claro que eu vou usar mais as páginas dos meus livros.
Eu ainda fico boba quando vejo meus livros publicados e quando tiro uma ou mais fotos deles – e ou de alguma pagina específica – repito a pergunta de sempre: fui eu mesma que escreveu isso?
Claro que amo fotografar as páginas de outros autores… e misturo-me nos poemas como se fossem meus.
Mas devo dizer que além dos poemas, poesias, prosas o que a Scenarium nos proporciona além do livro costurado em fitas de cetim, as gravuras transformam as páginas dos livros em arte pura. Gosto muito disso!
Eu já te contei que a primeira página que li de um livro veio avulsa nos livros que a gente recebia de doações na fazenda. Ainda me lembro da história… nunca consegui encontrar o nome do livro. Um dia, conto sobre isso.
Bambina, de todas as fotos de páginas que vi por aqui e escolhi ao acaso, as que recebi de leitores, com marcações especiais me comovem. Não poderia deixar de colocá-las pelo menos duas aqui.
Você pode imaginar como mio cuore se fez feliz por causa dos cuores desenhados na fotografia da página… é ou não é uma doçura? Para uma escritora, isso vale muito mais do que qualquer prêmio. E devo isso à Scenarium e a você. Grazie por tanto!
Nunca mais regressaste a casa desde agosto. Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, porque era a tua voz que me trazia o outono, era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica da extinção das espécies. …
Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi a soletrar silenciosamente o teu regresso.
José Rui Teixeira
Mãe,
mais uma vez eu conto os anos e venho dizer do tempo que voa… sabe, já faz uma vida inteira que você se foi e confesso que em dias como os atuais não me acostumei com sua ausência – nem sei se um dia vou me acostumar.
Hoje fiz os biscoitos de polvilho e ficou tão iguais aos seus que liguei para cada um dos irmãos – erámos sete, mas hoje, só temos seis vivos e um está em um lugar que não tem como ligar – que consegui para contar. Uma das minhas irmãs me disse que havia feito de chá de canela e louro e a gente riu junto chorando… você sabe como somos bobas quando falamos de você.
A outra, falou do barulho da máquina de costura e de como aquele som soava para a gente como uma canção. E um dos irmãos disse que olhou a fotografia na carteira. Pareceu, mãe, que estávamos em sintonia em seu nome, em lembranças e em amor.
E de repente, enquanto falávamos sobre tudo isso… choveu. Depois de mais de 160 dias sem chuva, choveu e ficamos ali, um junto do outro em enlace ao seu nome. A chuva do caju sobressaiu em cada conversa e contei também das sementes do meu ipê que se espalharam pelo quintal inteiro.
Acho que era só isso que queria te contar, mãe… da saudade que ainda reina por aqui, do vazio de sua presença em nossas casas e do seu regresso que nunca aconteceu.
ais além dos sonhos repousa uma palavra que nos acalma depois das grandes chuvas. é como se no chão se abrisse uma enorme janela; um tapete como passagem para outros mundos. o afecto. as aprendizagens. a lentidão da comida. tudo, tantas vezes, cabe na palavra quintal. Ondjaki
Bambina mia,
Depois que “ouvi” sua missiva confesso que quebrei o resguardo dos olhos e fui ali procurar o tema delicioso para caber mais no lugar redondo de suas palavras. Te contei que quis muito pendurar em um quadro seu áudio. Pena que AINDA não posso fazer isso. Mas, voltando ao assunto do tema, durante minha busca eu achei outro texto do mesmo poeta que eu já admirava, e um título me chamou atenção para o afeto dentro da palavra quintal, e de quintal você sabe que entendo. E claro, que minhas manias literárias cabem na palavra quintal e afeto. Meu quintal sempre serviu de amparo-cuidado-afago-ombro em dias difíceis e também companheiro em minhas leituras e arte.
Sempre que folheio um livro estou acompanhada de xícaras… seja com café, água, sucos e café. Logo para além da varanda, entre uma busca e outra de livros ganho companhias de asas… sejam de farfallas – como você diz – ou de aves. Geralmente, é no meu quintal que nossas conversas acontecem. É nele que te mostro a mágica de asas, de flores, de folhas, de poder escrever e até minhas lágrimas em momentos de dores.
Você sabe que é ali – ou aqui – debaixo do meu pé de ipê que nossos diálogos viram horas e horas de trocas… e é também onde recolho as folhas que servem de marcações de páginas dentro das histórias que leio. Tem aquelas que guardei para te entregar pessoalmente, a que se quebrou dentro do poema que amo tanto… As que vieram pelo vento e nem nasceram aqui, mas de algumas forma se misturam com as folhas dos livros que leio.
Sabe, bambina mia que também me peguei pensando se nosso encontro já estava programado em alguma esquina ou se fui eu que te encontrei entre os tantos atalhos que pego na vida… acho até que já te falei sobre isso e já te conto sobre uma outra mania minha que vai para além do meu quintal… esparramo os livros na cama e vou levando-os para o quintal. É onde leio algumas passagens de poesia para os pássaros.
Outra mania literária – ou sei lá que nome dou – é colher as flores que se desprendem dos galhos, seja pelo vento, ou força da natureza mesmo para secarem entre as paginas. Algumas se transformam em matéria prima para meus artesanatos. Outras, ficam ali, pousando na poesia escolhida como se fizessem parte da mesma.
Até nos dias frios eu me atrevo ficar um pouco ali, repetindo a velha mania de dividir com meu pé de ipê um afeto com uma xícara de chocolate quente – que você bebe mais do que – e um livro. Ainda não encontrei no meu lugar uma livraria que coubesse minha alma ou algum sebo. O único que me cabia desapareceu pós pandemia. Foi depois dela que minhas manias passaram a ser vivenciadas aqui.
E como você mesma disse que estamos muito para além dos planetas e tempo eu misturo a literatura que me abraça com toda arte que possuo nesse quadrilátero dos meus muros. Uma xícara de café, um livro seu, uma aula programada para as meninas que cuido, uma omelete ganha ares de biblioteca aqui. As livrarias daqui, bambina, tem as mesmices de sempre, com os livros convencionais, feitas apenas para que o leitor entre, compre seu livro e vai embora. Ainda assim, minhas manias sempre atravessam esses muros e vão para além das ruas – ♡ – e pousam nas palavras do poeta lá de longe, mesmo que não tenha mania nenhuma:
(…)
é como se no céu se abrisse um enorme chão, sem tapete de passagem para outro mundo. às vezes penso que ouvi uma voz sussurrar: foi o afecto quem inventou a palavra quintal. tudo, tantas vezes, dentro da palavra quintal.
Grazie mille! bacio, Mariana Gouveia Projeto Fotográfico 6 on 6 Scenarium Livros Artesanais Participam comigo: Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso
Quando o amor atravessou o quintal, ele era quase alado. Dava pulos no peito e voava para além das árvores. Depois, com o tempo – e só o tempo compreende essas nuances – ele foi esparramando suas raízes, com suas gavinhas, como se fosse abraço e hoje, já mora aqui… De vez. Acho que para sempre. Em alguns dias, como o de hoje… muda o nome para paixão, só para alterar a rotina dos batimentos dentro do peito.
O sol do meio-dia reascende o calor do meu lugar. Inverno é coisa que não existe no calendário daqui. É contraditório, eu sei, mas para quem conhece o lugar – ou já leu sobre – sabe que a estação aqui, é aleatório às denominações. A ave do encantamento apareceu de novo. Cantou para além das flores do ipê. Viveu coisas de primavera nas flores e depois, foi ser voo em um céu de nuvens.
Rezei contando as gotas das teias da aranha amarela que tece rosários no quintal. A vida tem a delicadeza das coisas extraordinárias em algumas manhãs. O pássaro laranja que voltou e fez lugar no galho do pé de ipê. A imagem cabe na intensidade do dia.
Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes. Tinha sonhos e carregava eles nos braços como se fosse colher o que plantou. Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço bate forte e ele chega vestido de esperança – e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa. Leu para mim cartas que chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso… Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente. Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.
Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele. O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.