das coisas breves

Biografia

biografiaNão foi pelos olhos doces dela que me apaixonei,
embora neles ela trouxesse prenúncio de primavera.
Nem pelos cabelos em desalinho brincando com o vento. Nem foi também pelo toque macio da pele que brincava da delicadeza da flor, onde eu poderia aspirar essências do outono.
Nem pelo calor das mãos que ao me tocar proporcionava a quentura dos verões ensolarados;
não foi foi pelo simples desenhar do sorriso que abrigava universos e a ausência dele desencadeava invernos em mim.
me apaixonei pela biografia carinhosa que o perfume dela oferecia à minha alma.

Mariana Gouveia.

Caderno de Notas

Quero outra manhã depois dessa madrugada

Quero outra manhã depois dessa madrugada

 

A porta entreaberta deixava a brisa entrar e tocar levemente meus cabelos, os dedos anelar e médio contornarem os cachos que se enrolavam na mão. Brindou a madrugada suave…
Era um costume antigo. Desnudar-se diante de si mesma, na madrugada. Rever momentos, buscar sentimentos internos dentro dela.
Conhecia todos os barulhos que havia por ali. Os grilos no quintal, um pássaro noturno pousado na árvore seca, encantado pela lua, o cachorro que latia ao longe. Até o motoqueiro do jornal, marcava a hora  sublime em que a madrugada terminava e uma nova manhã começava. Espreitava o céu e suas nuances matinais e as nuvens ganhavam tons de laranja. O sol, majestoso no seu deslumbre diário surgia lentamente, enquanto absorvia uma cumplicidade divina emanada pelo silêncio.

O vento começava quase tímido e aos poucos reverenciava o corpo dela dourando o quintal. As flores abriam as pétalas no alcançar belo da energia que vinha do astro rei.

Os pássaros, agora, em bando anunciavam um bailado comum e rotineiro. O beija-flor quase a tocava de tão perto que chegava dela. A manhã parecia bordada com detalhes em miçangas e a extremidade do dia nascia nela como poesia. As folhas, formava desenhos nas paredes do muro como se fossem pintadas com requintes de artista.

Uma mistura de lilás e laranja colore um céu que se azuleja e ela  pensava em uma canção.

Uma parte do dia começava linda por si só. Manhã única  e mesmo que houvesse tantas manhãs e presenciasse isso sempre, seria totalmente diferente todo dia. Ocupava-se dos pensamentos que os afazeres diários exigiam, ainda absorvendo a mágica da madrugada. Um misto de encanto e beleza. Sedução e ternura. Era como se a madrugada, ela e a manhã formassem  uma só coisa. Objetos dos mesmos lugar.
Se havia algum instante de liberdade, era esse. Pleno de sentidos e de sentimentos. Entrava casa adentro renovada e o sol beijava as coisas no sofá.
Uma luz sublime e que fazia o dia receber a graça de ser. Ela era aurora. Brisa, madrugada, manhã. Repetia frases dentro de si como se fosse um mantra:
“Quero outra manhã depois dessa madrugada, assim como quero outra tarde depois dessa manhã radiante”.

As cortinas voavam de um lado para o outro. O vento que soprava rangendo a porta dançava, ela dançava…A canção tocava no rádio em Sol Maior, onde as notas musicais eram acompanhadas pelos trinados dos pássaros, aves que a acompanhavam sempre no amanhecer.
Todo o corpo reage ao testemunhar esse momento sublime. E no final dia, ainda quase como um mantra ela ainda repetia:
“Quero outra madrugada viva depois dessa noite.”

Mariana Gouveia *Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia…  

das coisas breves

Metades

metadesQue essa vontade de ficar e de te ter seja transformada na ansiedade e no desejo que vivo…
Que esse ir e vir em meu peito indo te oferecer amor seja ao menos o fogo saciado
Porque eu sou inteira você e a outra parte também…

Que a solidão que as vezes chega seja acalmada com sua lembranças.
Que eu mesma te represente em mim com as mãos…porque eu sou inteira o que fui com você…
e a outra parte o que você é em mim…

Que não seja preciso mais nada do que sua voz para me aquecer a alma…ou apenas a sensação de ouvi-la…o silêncio as vezes diz mais…
Porque eu inteira sou voz e a outra parte a música…

Que eu seja perdoada por amar…
e que eu seja tentada a pecar porque uma parte de mim eu sou inteira você e a outra metade também…

Que o meu coração fale tudo que eu calo…
para quando falar meu silêncio gritar mais…Porque eu sou inteira palavras e a outra parte seu grito…
Que meu medo de não te achar mais seja suprido por tanto que em mim você viver…Porque meu amor é isso tudo…
E até depois de minha morte é você.

Mariana Gouveia

das coisas breves

O dia amanhece com as mesmas rotinas.

O dia amanhece com as mesmas rotinas.O sol escaldante de sempre. O céu azul sem nuvens, ainda. O pássaro que canta na mangueira do vizinho.
O gato que arrisca no telhado entre os latidos dos meus cachorros.
Tudo sempre quase igual, com exceção do visitante que chegou e ficou ali, entre o fio e o poste. Perdeu a casa, a árvore imensa que ficava logo após a curva do bairro vizinho. Derrubaram-na para uma nova construção. Veio ele espiar se a mangueira é um lugar apropriado para ele. Acho que é. Ali, na mangueira há sabiás, bem- te- vis, siriris com seus voos rasantes no céu atrás de algo que voa.

Assim, na manhã das rotinas de sempre eu espreito o visitante novo e converso com ele. Dou as boas-vindas e espero que amanhã, ele volte para que a rotina se repita.

Mariana Gouveia.

das coisas breves

pela rota esquecida dos pássaros

pela rota esquecida dos pássaroseu te busco nas tardes rebuscadas de palavras.
Eles voam ao contrário na imensidão do meu amor
e as asas me carregam noite adentro  onde ainda não aprendi a voar

Mariana Gouveia

Das rotinas

Os dias de Novembro nunca mais serão iguais.

Os dias de Novembro

Haverá uma melodia que tocará na mansidão das tardes.

Os dias de Novembro terão comoventes dias, só por causa dela e a leveza dos jardins em qualquer lugar do mundo tocará na brisa das flores a asa de uma borboleta.

É esse o toque que a partir de Novembro, os dias terão.

Terão nuvens de efeitos com coração e as palavras pronunciadas nas ruas serão declarações de amor.

As paredes, grafitadas darão nome ao meu amor.

Os dias de novembro nunca mais serão iguais e todos os dias, até as segundas-feiras mais monótonas se transformarão em domingos por causa dela.

E a folha suave servirá de leito e as cores passarão a ter efeitos dourados como se bordados fossem.

Só um outro mês terá o doce encanto maior que Novembro.

Dezembro será inesquecível.

E, depois os dias de Dezembro serão especiais.

Ainda assim, por causa dela.

Mariana Gouveia.

das coisas breves

Gosto de te ver calmo.

Gosto de te ver calmo
Voando, indo
gosto do bater manso
de tuas asas
e do calor com que me aquece

do jeito com que se aproxima
Eu me perco em teu vão
e já escurece
me acho só

e nunca te encontro
Te procuro na noite
e percebo que dormes
sereno, sereno sonhando

Eu me vejo voando
e busco teu voo
mas não te domino

sei tuas verdades
mas não te decifro
pois escondes com certeza

a chave do meu quebra-cabeça

Mariana Gouveia

das coisas breves

Girassol plastificado

girassol plastificado 2

I

Um beija-flor veio beijar a flor

bem no meu quintal

Mas,foi mal…

O girassol plastificou

Por falta de amor ou falta de sol…

II

Eu não tive nenhuma alegria
depois daquele dia
que o beija-flor voou
e não mais voltou

III

Eu preciso de um jardineiro sim
Pra cuidar de mim e do meu jardim…

IV

Agora eu vivo sempre na janela
vendo a lua bela
em fase vírgula…

V

Da janela observo a lua
lembro que sou sua
e quero entender
o que fez o girassol morrer
se foi por você
ou pelo beija-flor que nunca mais voltou…

VI

As flores não perfumam mais
nem as estações são iguais
ao que era antes
do beija-flor voar
pra não mais voltar

VII

Os caminhos não trazem ninguém
e a lua vem,em forma de vírgula
num céu azulado

VIII

Eu preciso de um jardineiro sim
pra cuidar de mim e fazer brotar
o girassol plastificado

**
PS:Como gosto de ser abraçada
Por estas coisinhas mínimas!

Mariana Gouveia

Literatura

Inanimada

Inanimada

Talvez a minha grande frustração seja não ter aprendido andar de bicicleta.
Era meu sonho, aquela toda rosinha, com a cestinha na frente. Uma só minha!
Mas como os irmãos eram tanto, e naquele ano a colheita não havia sido tudo aquilo que meu pai esperava o que apareceu foi uma imensa – aos meus olhos de menina – vermelha, sem acessórios e categórico meu pai disse que era de todos, o tal presente mantido em segredo até a caixa se abrir.
Meu irmão mais velho já saiu em disparada e os outros correndo atrás marcando a vez na fila. Éramos sete, ao todo,sem contar nos meninos dos empregados que viviam mais ali com a gente do que na casa deles.
No fim do dia, ainda não chegara minha vez e quando chegou, não se podia mais pedalar porque já era noite.
No dia seguinte, nova tabela de uso foi feita e eu, lá pelas tantas depois do décimo. Mas na minha vez, ninguém dos mais velhos podia me ensinar e o pedal era longo para minhas pernas curtas.
Rompi de vez meu desejo de andar nela. E quando via os meninos de joelhos ralados dos tombos, aí que não mais queria nem passar por perto. E meu nome nunca mais foi pra lista.
Ela, coitada, foi abandonada tão logo chegou outro presente mais novo. A  bola.
Ficava ali indiferente, encostada embaixo de uma árvore, à espera
E deixou de ser meu objeto de sonho e passou a ser meu objeto de desdém.
Quando em tropel, eu passava por ela,  montada no meu cavalo eu ainda,esnobava, ela ali, inanimada…

Das palavras das cartas

Carta à Janeiro

Carta à Janeiro

Desta vez, trago-lhes notícias do mundo real.

Ele é muito real.
Nem tão feio quanto dizem e nem menos assustador do que pensávamos. Mas descontínuo e mais intrigante que o telescópio newtoniano. Há tanta ainda, mágica no ar, que eu poderia sufocar.

Agora, chove manso, o aroma que se desprende das folhas do esbelto eucalipto, invade as janelas que entardeceram de asas abertas. Só assim te escrevo. Quando o vento ganha algum perfume.

Por falar em árvores, as que foram plantadas por toda a extensão da minha rua que tem nome de Lagoa, gosto de destacar, floriram.
Uma vizinha palpiteira deu de me chatear dizendo que não eram plantas de florir, mas esta semana ao abrir a janela, alí estavam sorrindo rosa-claro. Eu ralharia-lhe o engano, não fosse seu sumiço deveras oportuno. Cheguei até a pensar que flores eram seres extremamente vingativos e de audição apuradíssima. Não fosse pela chuva delas que tomei numa sexta-feira destas passadas, indo ao trabalho. Uma região de árvores centenárias. Ventava fresco e as florzinhas amarelo-ouro das altas Tipuanas iam desprendendo-se de seus galhos, quase que em câ…me…ra len… ta, e caindo por cima da vida da gente que passava. Por Deus, quase cantei o Hino Nacional! Há coisas que só acontecem neste país. Penso eu, em minha humilde bagagem de quem só visitou Piraporinha do Bom Jesus.

Dalí em diante, pensei que em Janeiro eu seria feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha.

Reformei algumas esperanças. Inventariei sonhos antigos por ordem de importância, não data. Comprei selos. Escreverei para longe e para aqui do lado. Só pelo capricho de dar mais poesia à vida dos carteiros.

E se o amor inquilino quiser entrar. Eu deixo ficar.

Zidna Nunes Ou Ziris