A porta entreaberta deixava a brisa entrar e tocar levemente meus cabelos, os dedos anelar e médio contornarem os cachos que se enrolavam na mão. Brindou a madrugada suave…
Era um costume antigo. Desnudar-se diante de si mesma, na madrugada. Rever momentos, buscar sentimentos internos dentro dela.
Conhecia todos os barulhos que havia por ali. Os grilos no quintal, um pássaro noturno pousado na árvore seca, encantado pela lua, o cachorro que latia ao longe. Até o motoqueiro do jornal, marcava a hora sublime em que a madrugada terminava e uma nova manhã começava. Espreitava o céu e suas nuances matinais e as nuvens ganhavam tons de laranja. O sol, majestoso no seu deslumbre diário surgia lentamente, enquanto absorvia uma cumplicidade divina emanada pelo silêncio.
O vento começava quase tímido e aos poucos reverenciava o corpo dela dourando o quintal. As flores abriam as pétalas no alcançar belo da energia que vinha do astro rei.
Os pássaros, agora, em bando anunciavam um bailado comum e rotineiro. O beija-flor quase a tocava de tão perto que chegava dela. A manhã parecia bordada com detalhes em miçangas e a extremidade do dia nascia nela como poesia. As folhas, formava desenhos nas paredes do muro como se fossem pintadas com requintes de artista.
Uma mistura de lilás e laranja colore um céu que se azuleja e ela pensava em uma canção.
Uma parte do dia começava linda por si só. Manhã única e mesmo que houvesse tantas manhãs e presenciasse isso sempre, seria totalmente diferente todo dia. Ocupava-se dos pensamentos que os afazeres diários exigiam, ainda absorvendo a mágica da madrugada. Um misto de encanto e beleza. Sedução e ternura. Era como se a madrugada, ela e a manhã formassem uma só coisa. Objetos dos mesmos lugar.
Se havia algum instante de liberdade, era esse. Pleno de sentidos e de sentimentos. Entrava casa adentro renovada e o sol beijava as coisas no sofá.
Uma luz sublime e que fazia o dia receber a graça de ser. Ela era aurora. Brisa, madrugada, manhã. Repetia frases dentro de si como se fosse um mantra:
“Quero outra manhã depois dessa madrugada, assim como quero outra tarde depois dessa manhã radiante”.
As cortinas voavam de um lado para o outro. O vento que soprava rangendo a porta dançava, ela dançava…A canção tocava no rádio em Sol Maior, onde as notas musicais eram acompanhadas pelos trinados dos pássaros, aves que a acompanhavam sempre no amanhecer.
Todo o corpo reage ao testemunhar esse momento sublime. E no final dia, ainda quase como um mantra ela ainda repetia:
“Quero outra madrugada viva depois dessa noite.”
Mariana Gouveia *Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia…

Minha cara, a paisagem nos oferece tanto e nem sempre a gente faz pausas necessárias para participar desse milagre diário. Eu, lembro a primeira vez que vi um grupo de pessoas aplaudindo o por do sol. Achei tão mágico que comecei a chorar. Hoje, eu deixo tudo de lado para apreciar a noite caindo junto aos olhos e a manhã acontecendo junto a minha pele. Lindo texto.
bacio
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esse é o pequeno grande milagre diário. A noite me chega mais agitada, até mesmo por conta do serviço e ainda assim, eu vejo coisas lindas nela. Um dia, escrevo sobre isso. Lunna querida, bacio
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Pássaro que trago comigo, as suas histórias tornam o meu dia mais bonito. Tu, teces-me os dias! 🙂 Beijo
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Tu, és a renda com que teço, Flor. E eles só são especiais assim, porque tem você neles. Beijos
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concordo com a Lunna.. é preciso desligar e perceber o mundo suave à nossa volta.
os milagres da natureza.
amei!
beijos.
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Obrigada, Ingrid. Beijo grande
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