Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Gravidade do Quintal e as Frases-Rastro

Bambina mia,

Aqui no meu lugar o tempo também se gasta entre um afazer e outro, mas a falta de paz que a ansiedade promove costuma ser varrida junto com as folhas secas que o inverno deixa cair no chão. Enquanto você caminha pelas ruas barulhentas do seu lugar tropeçando em frases de jornal, eu empunho a vassoura e organizo o meu microcosmo, sabendo que, em algum ponto invisível dessa nossa órbita torta, os nossos pensamentos se cruzam exatamente na mesma esquina.

Aqui, esfriou de repente, eu diria, para a confirmação pontual da moça do tempo. Será que é assim que o inverno se despede? Depois de dias ultrapassando os 40 graus, o alerta de frio me faz buscar um casaco enquanto te escrevo. Acho graça quando você diz que vivo no passado pelo tal fuso horário. Talvez as frestas do meu relógio corram mesmo um compasso atrás, mas é esse atraso manso que me permite acolher os teus ontens com o frescor de quem ainda espera o sol nascer. Nossas conversas, sejam feitas de risadas largas ou de silêncios compridos, são como os desenhos de graveto que você fazia na margem do lago: linhas efêmeras na terra que a água ou o vento apagam, mas que a escrita fixa para sempre na memória do papel. Somos, de fato, planetas vizinhos atraídos por uma gravidade muito própria, imunes aos eclipses do cotidiano.

O inverno que agora se despede definitivamente deixa seus últimos vestígios na poeira fina que limpei das prateleiras nos dias passados. Ele vai embora sabendo que a terra aqui já acordou, batizada pela bendita chuva que lavou a copa das árvores e preparou os galhos para o primeiro broto verde. Se a ansiedade aperta o peito aí no meio do concreto, daqui eu lhe devolvo o conselho: mude o foco do olhar, espie o sabiá que assalta as jabuticabeiras e lembre-se de que o passado que você enxerga em mim é apenas o modo mais bonito que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Abro a janela e sigo acompanhando a dança das folhas com o vento. O frio faz com que Yoshi se encolha ainda mais no travesseiro em sua cadeira. Observo Chiquinho pairar no ar perto do seu bebedouro. Acho lindo quando ele dobra as perninhas e gravita em busca de sua bebida favorita. O alinhamento está feito, a gravidade está dita e a escrita cumpre a sua promessa de nos salvar dos desacertos.

Bacio, bambina, o dia aqui já começou, um tantinho depois do seu. Logo te darei um buongiorno, amore no seu futuro.

Mariana Gouveia

Nota de rodapé: a sua missiva que ocasionou essa resposta foi uma das mais lindas que já recebi. Só para seu conhecimento .

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto 6 on 6 – A hora de ouro

Bambina mia,

enquanto você busca os contornos do crepúsculo entre as silhuetas verticais, eu me sento aqui no meu lugar para assistir ao ensaio diário que o céu faz antes de recolher suas malas. Olho para o alto e percebo que, embora a distância nos separe, partilhamos do mesmo relógio de frestas. Há uma urgência mansa no modo como o dia se despede. Mas, antes disso, eis que a imagem que sempre quis fotografar antecede aos meus olhos. A lua ((você) toda cheia de pompa tendo por companhia um avião. Lembrei de Calcanhoto e cantarolei baixinho aqui. Para mim, foi minha hora de ouro.

Seus olhos buscam a poesia nas esquinas paulistanas; os meus campeiam a luz que muda de tom além da rua de cima. A hora de ouro aqui não pede licença. Ela invade o quadrante do meu muro, espalhando pinceladas vivas de um calor que começa a ceder, transformando a poeira dourada do chão em uma moldura de começos e fins. Minha rua fica dourada quando o dia se finda.

Sabe, bambina, olhar para esse sol que desce lento, tocando as copas secas e as curvas dos morros distantes, me devolve imediatamente àquela menina que conversava com as coisas do mato na colina da cruz. A natureza opera sem pressa. Ela sabe a hora exata de adormecer, e deitar os olhos sobre esse horizonte limpo é um jeito bonito de encontrar abrigo.

De repente, o céu incendeia sobre as nossas cabeças. As telhas absorvem o último suspiro do dia, e o vermelho-fogo toma conta do espaço, lembrando as velhas calhas e os telhados que desbravávamos na infância. Facilitar o acesso ao desejo é também permitir que os olhos alcancem esse incêndio manso que limpa os contornos do mundo. A parabólica me entende quando o gesto é pura quietude.

Depois do fogo, vem a calmaria das cores que parecem inventadas. O horizonte se veste de lilás e rosa, uma delicadeza que contrasta com o calor bruteza da tarde. Um único galho se curva diante dessa pintura invisível, como quem agradece pela passagem do tempo. A vida ensaia o seu repouso no sutil. A solidão da tarde, às vezes, tem uma beleza sem tamanho.

A noite finalmente reivindica o seu pouso aqui no meu quintal. Os seres alados se enfileiram nos fios condutores, guardando o silêncio que precede as estrelas, enquanto a lua espia as pombas no fio. Outra hora do ouro minha que esperei acontecer. A poesia, acontece antes mesmo que eu perceba a cena. Descobri que a hora de ouro pode ser qualquer momento que a leveza nos abrace.

Mariana Gouveia
Lunna Guedes – Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Literatura · Lunna Guedes

Os Horizontes da Janela e as Árvores da Infância

Minha paixão por horizontes também começou na infância, vivida com os pés descalços na fazenda. Meu território de desbravamento misturava os galhos firmes das árvores e as telhas; mas vim me aventurar nelas apenas aqui, em Cuiabá. Lá na fazenda, a casa era forrada com palhas de babaçu, e os morros da colina da cruz me davam um horizonte inteiro para espiar. Os olhos campeavam onde o gado estava, se o carteiro já vinha vindo nos dias de quinta com sua bicicleta amarela e, se eu fosse um pouquinho mais para a direita, dava para ver o meu pai na lida da roça. Já aqui no meu lugar, eu subia para alcançar o infinito do meu próprio quintal. Minhas fugas planejadas eram para ver o sol se escondendo ou nascendo, trazendo as pinceladas do dia antes de chegarem ao quadrante do meu muro.

Crescer com o olhar solto no campo ensina que a liberdade é feita tanto de voo quanto de frestas. A janela sempre foi uma moldura para o tempo. Hoje, quando o primeiro sopro de vento morno bate no vidro anunciando que o clima aqui no meu lugar está mudando de tom, sou transportada para aquelas tardes em que eu listava o mundo além da rua de cima. Eu também tinha meus livros e cadernos guardados como tesouros, e lia nas alturas, dividindo os galhos e os telhados com o vento, sabendo que a natureza ao redor compreendia cada verso silencioso.

Acho bonita a sabedoria dos adultos que facilitam os caminhos da nossa audácia em vez de podá-la. Na minha infância, a cumplicidade vinha do silêncio dos mais velhos, que sabiam exatamente em qual copa ou cumeeira eu estava escondida, mas fingiam procurar-me apenas para manter vivo o mistério da minha própria fuga. Eles entendiam que o desejo de descobrir o mundo nasce desse espaço sagrado onde ninguém nos alcança. E quando o dia findava, o mistério da volta também se cumpria em silêncio: eu descia com os joelhos ralados, as mãos sujas de seiva e a alma lavada de céu. A bússola dos meus pais era meu irmão mais velho, que me seguia de longe, com um capim no canto da boca, como se estivesse entediado — e na maioria das vezes estava mesmo —, porque preferia a brincadeira dos meninos simulando treinar os cavalos mansos a “vigiar a irmã do meio que gostava de conversar com as coisas do mato”.

Agora, na quietude da casa, abro as frestas da janela para deixar o vento da nova estação entrar. Não sou mais a menina que se escondia lá no alto, mas sigo tramando novos começos a cada página em branco. Escrever, afinal, é a nossa forma mais bonita de continuar desbravando os cantos do tempo. Acho que eu espiaria o mar e os navios também, se morasse perto dele, mas daqui, eu sigo acompanhando o balanço das asas e o sopro morno que agita as folhas do meu próprio chão.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O Regente da Madrugada e o Silêncio da Escrita

Madrugar, para quem vive com os pés no quintal, nunca é um ato de solidão. Quando os olhos se abrem antes que o sol decida rasgar o horizonte do meu lugar, a casa ainda guarda o frescor que a noite estendeu sobre as telhas após a tempestade passada. Não preciso de despertadores barulhentos; há um relógio invisível no peito que me empurra para a cozinha na hora em que o mundo silencia. Enquanto a água esquenta e o aroma do café toma o ar, as frestas da madrugada se tornam o meu cenário mais bonito para ler e existir.

Dizem que nas cidades grandes os pássaros migram seus cantos para o meio da noite, disputando espaço com a poluição sonora dos homens. Aqui, a sinfonia segue a partitura exata da terra. Antes mesmo que o primeiro raio de sol doure as folhas das árvores, os primeiros acordes começam entre os galhos limpos. Não há um regente único na minha madrugada; há um coro inteiro de seres alados que reivindicam o dia. Ler a poesia dos outros sob esse teto de cantos é como costurar duas linguagens: a palavra impressa no papel e a voz livre que ecoa do quintal acordado.

Minhas leituras de amanhecer não escolheram meses cruéis. Elas se acomodam no tato, na busca cega pelas lombadas da estante de madeira, onde cada volume parece esperar sua vez de respirar. Folhear as páginas enquanto o sabiá laranjeira e outros visitantes ensaiam os primeiros voos é um hábito que me ancora na realidade. O livro na mão esquerda e a xícara quente na direita formam o meu ritual de permanência. Enquanto a luz vai mudando de cor e a famosa hora de ouro se aproxima, percebo que os pássaros e as palavras fazem exatamente a mesma coisa: ambos procuram frestas para espalhar suas sementes.

Quando o dia finalmente desperta por completo, a escrita já ocupou o seu território. Os rituais da madrugada se dissolvem nos afazeres cotidianos, mas o eco daquela primeira cantoria permanece guardado entre as linhas. Deixo que os sabiás governem as sombras da noite nos outros edifícios. No meu canto, eu amanheço junto com as asas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Fermento do Tempo e as Chuvas do Caju.

Há uma alquimia muito secreta no modo como o passado se transforma em alimento dentro da gente. Quando ouço histórias de cozinhas, com cheiro de trigo chovendo em tigelas de louça e pães assados no calor do verão, sou imediatamente transportada para o meu próprio templo de começos. Na minha memória de infância, o frescor não vinha da farinha amassada pelas mãos dos antigos, mas do cheiro de terra molhada que subia do chão logo após a primeira chuva do cadju. Era ali que o ano de fato recomeçava. As estações se refaziam e o forno ganhava utilidade. Mas os pães de outrora aconteciam pelas mãos de minha mãe e da minha bá. Pães feitos no forno a lenha, com a massa de puba que fazia a nossa festa.

Crescer com os pés na terra me ensinou que não precisamos de receitas rígidas para entender os ciclos da vida. A natureza, assim como as cozinhas de família, opera por intuição. Olho para o meu quintal hoje e percebo que escrever é um ato muito parecido com o de assar um pão: misturamos um punhado de frestas de sol, duas colheres de saudades mansas, o pulsar do relógio na parede da cozinha que guardamos no peito e deixamos a massa descansar na penumbra da gaveta até que ela dobre de tamanho. O tempo é o fermento invisível da nossa história.

Quando cresci, o pão de puba ficou na memória. Outros pães vieram fazer parte da minha vida, mas ver a Lunna preparar a massa e o cheiro invadir um edifício inteiro em São Paulo me mostrou que a poesia acontecia em 3d. Aquela imagem nunca mais saiu das minhas lembranças. Dizem que as estações aprisionam as melhores recordações, mas aqui no calor do meu lugar, o recomeço tem a ver com a espera. Espera pelas nuvens que desenham promessas no céu, pelo amadurecimento dos frutos no pé, pela coragem de virar a página e inaugurar uma nova estação. Quando resgatamos os gestos daqueles que vieram antes de nós — seja sovando a massa com sentimento ou tecendo palavras em uma tela em branco —, nós reabrimos as janelas da alma. É um sopro de ar puro que afasta a poeira dos dias antigos.

Ao final da tarde, enquanto coloco o café para passar e espio os pássaros disputando os galhos secos lá fora, sinto que o mistério está renovado. O passado e o presente se misturam na fumaça quente que sobe da xícara. Não há solidão possível para quem traz o quintal povoado de heranças. A terra desperta, a memória ferve e, em cada linha que escrevo, saboreio a certeza de que a vida sempre encontra um jeito bonito de recomeçar.

Aqui, a expectativa finalmente se fez presença: eis que desceu a bendita chuva do cadju — com a pronúncia assim mesmo, igualzinha à escrita pelo linguajar cuiabano. A terra, que antes parecia fingir que nada recebia, agora bebeu com vontade a água do céu, e o cheiro de poeira lavada trouxe o aviso de que a doçura dos frutos novos finalmente vai chegar no tempo certo. Alguém assa pão na redondeza. E as minhas memórias são imediatamente ativadas pelo olfato, misturadas ao perfume da terra molhada. Deixo que o pão asse na cozinha dos outros. No meu canto, eu cultivo as lembranças, a saudade e o frescor desse chão renascido.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Memória que Mora no Pó.

Meu pai dizia que meu amor pelos livros começou ainda na barriga da minha mãe, e ele a “culpava” por eu gostar tanto de ler. Minha mãe lia de tudo. Desde os rótulos de latas e embalagens até as fotonovelas que chegavam à fazenda pelas mãos do carteiro, que trazia sempre doações. Daí, me tornei herdeira desse gostar. Talvez, meus livros de estimação sejam os de Manoel de Barros e Maria José Dupré. Alguns dos volumes que ganhávamos vinham desfolhados; faltavam páginas. Nosso desafio, em plena escola rural, era criar o que faltava ou acrescentar nossa visão do que mudava para além das folhas que não existiam. Aprendi cedo a inventar começos e fins.

Aqui, olhando minha estante de madeira me descubro uma guardiã de mundos inteiros. Eu preciso do peso físico das minhas memórias. Preciso saber que, se eu esticar os braços na penumbra da madrugada, cada livro artesanal — com suas lombadas costuradas à mão e fitas coloridas — estará exatamente ali, vigiado de perto pela guarda silenciosa e terna do meu Charlie Brown e do meu Yoshi de plástico.

Você limpa a poeira dos dias com o rigor do pano úmido, do chá e do vinho. Meu ritual com as prateleiras é um compasso de espera diferente. Limpar os livros, para mim, é quase como tirar as folhas secas do quintal; um jeito de abrir espaço para que o ar circule e respire entre as palavras escritas. Há cadernos e volumes aqui que guardam o cheiro do dia em que ganharam vida, e para minha surpresa vez ou outra, encontro uma folha seca entre alguma página ou algum dinheiro que foi colocado ali por acaso – justamente o preço de um sorvete para aliviar o calor.

Acho bonita a sua cumplicidade itinerante com Álvaro de Campos nos centros velhos e cafés sob jabuticabeiras. Minhas cumplicidades literárias são mais enraizadas e domésticas, criadas no calor manso das tardes em que o tempo cuiabano parece esquecer de andar. Meus livros não voam de mão em mão; eles criam territórios. Olho para eles perfilados — como tuas histórias dentro de Catarina que voltou a escrever — e vejo que eles espalham suas linhas pelas frestas da casa, ganhando marcas afetivas de xícaras de café e acolhendo pequenos guardados cotidianos. Em vários dos textos, percebo vestígios de nossas esquinas se cruzando em outras eras.

No final de cada ciclo, quando você recolhe os seus companheiros de sempre e os devolve à rigidez da ordem alfabética na gaveta do tempo, eu apenas reorganizo os meus afetos. Mudo um romance de prateleira, coloco as poesias mais perto do sol da janela e deixo que continuem conversando entre si. A poeira sempre volta. Mas os livros, esses que escolhemos para morar em nosso quintal de dentro, são a única bagunça que nos põe em ordem. Acomode os seus na sua estante, na mesa da cabeceira ao toque de sua mão. Os meus continuam por aqui, colorindo a madeira e esperando o próximo café.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Chão que Reivindica o Pouso.

Ao longo deste mês, a convite da Scenarium Livros Artesanais, participo do projeto Primavera Literária Os textos publicados aqui serão travessias diárias; respostas sensíveis e diálogos de quintal com a escrita de Lunna Guedes.

O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.
O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.

Você pergunta onde pousa Setembro, enquanto eu ainda tento decifrar o mistério de como a terra sabe a hora exata de acordar. Olho para o calendário que você mencionou — esse arranjo gregoriano que empurrou o Septem para o nono lugar — e percebo que, embora os homens tenham bagunçado as gavetas do tempo, a natureza ignora a contagem dos Césares. Para o chão que pisamos, Setembro nunca deixou de ser o começo. De repente, me vem à memória você desenhando as letras a grafite no papel, rabiscando os contornos de ontem, enquanto tocava Pink no repeat. Parece que foi ontem, mas já se vão vários ontens dentro de hoje.

Septem: as linhas do tempo rabiscadas a grafite no papel.

Você fala da ventania que arrancou as flores dos ipês em Agosto, como se o inverno estivesse com pressa de recolher suas malas. Aqui no meu quintal, eu brinco de amarelinha com essas mesmas flores amarelas que caem; uma leveza tão bonita, que parece que elas têm medo de tocar o chão. A paisagem não muda num estalo de dedos; ela ensaia. Há um silêncio grávido nos galhos secos, uma teimosia secreta sob a terra que, mesmo quando a gente dá água para elas, parece fingir que nada foi feito. Ela guarda o segredo para si.

Se você ainda não abandonou Agosto e se agarra aos ponteiros da realidade, eu me pego observando as frestas. Há várias delas por todo canto. Uma telha fora do lugar abre um pequeno clarão de sol na cozinha, bem rente aonde a Lolla costumava se deitar. Parece-me, às vezes, que ela ainda está ali. Para não pisar na ausência, dou um salto no espaço e me lembro, de novo, da amarelinha que desenhei no chão em uma tarde morna, sem nada para fazer. Pisando descalça de casa em casa, do um ao oito. O giz acabou na oitava casa e não cheguei ao céu.

Escrever é um modo de cavar o tempo. Enquanto você finalizava seu romance no pulsar do cuore, eu espiava a linha certa do meu bordado. Todos os dias olho para o céu, procurando por nuvens que finalmente trarão as chuvas. A expectativa de ver a paisagem mudar é, no fundo, a expectativa de mudarmos nós mesmos. Queremos que a primavera nos justifique. Mas, muitas vezes, aqui no meu lugar é primavera todo dia; a terra desperta as flores que plantei alheia a qualquer estação.

Não sei se pulamos a amarelinha do tempo ou se caminhamos arrastando os pés na poeira dos meses passados. Mas sei que Setembro não espera estarmos prontas para pousar. Ele simplesmente brota. O despertar da terra é um chamado bruto e delicado: a vida exige passagem.

Vamos virar a página. O chão do quintal já está pronto para o seu pouso.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #31 – O voo: Certas Melancolias da Correspondência.

Composição artística em vista superior sobre uma toalha de renda branca, exibindo dois cartões postais — um com estampa de azulejos portugueses e outro com uma pintura vintage de paisagem —, uma ilustração em aquarela de flores azuis, uma borboleta artificial de asas vermelhas e pretas, um dado vermelho, uma pequena concha e duas moedas antigas de dois cruzeiros de 1945.

Bambina mia,

se você jogar a moeda para o alto, eu escolho coroa — porque a realeza deste agosto insano e quente esteve impressa em cada palavra artesanal que a gente teve a coragem de entregar ao papel. Ana C. tinha total razão: há nostalgias e certezas que só a correspondência é capaz de recuperar. Enquanto você equilibrava os seus dias nesse calendário imaginário em São Paulo, eu acompanhava os seus passos daqui do meu lugar, dividindo o som rouco da cafeteira, o canto do sabiá e a beleza de ver mais um ciclo se fechar. Trinta e um dias se passaram num sopro de vento, e se para alguns agosto teve a lentidão de noventa dias, para nós ele teve a intensidade exata de um voo que soube onde pousar.

Que alegria imensa ler que Lua de Papel (livro dois) finalmente encontrou a sua versão definitiva! Sei bem o peso e o afeto de reescrever uma centena de rascunhos, de diminuir capítulos e de brigar com as próprias linhas até que a obra ganhe a sua pele mais bonita. O fazer literário é esse café forte, expresso, que renova o colorido dos nossos lábios e nos obriga a encarar a realidade com um sorriso no rosto. Passamos o mês inteiro viajando de uma esquina a outra, sabendo que cada linha escrita cruzava os nossos 1.540 km de distância para inventar um porto seguro no lado de dentro das nossas páginas.

Agosto foi feito de ciclos aqui. Vento, calor, calor e fumaça, calor e aves, calor e crisálida, casulo, metamorfoses, ruptura e voos — dos mais intensos aos mais leves. A joaninha produziu uma ninhada de ovos e voou. O sanhaço-laranja veio em uma manhã mais fria e voou. O Chiquinho arranjou brigas no quintal e voou, e o bem-te-vi veio beber água e tomar seu banho rotineiro e voou. Mas sabe, bambina, acredito que o ciclo rompante e maior aconteceu do lado de dentro. Eu ouvi sua canção e a acrescentei na playlist que tem seu nome. Será mais uma que ouvirei e repetirei seu nome baixinho.

Amanhã será setembro, o dia seguinte a tudo o que fomos e tecemos juntas. A música já ressoa pelos cantos da casa nova e a gente devolve os livros para a prateleira com a certeza bonita de que as nossas asas continuam fortes. Ganhamos o céu, cara mia.

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

Afetos · Colheita · Das rotinas · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #28 – O voo: Pequenos Goles de Permanência.

Perguntar-me o que ando lendo por aqui é abrir as portas do meu próprio refúgio de papel. Neste mês, entre um rascunho e outro, minhas manhãs também foram povoadas por versos e prosas que chegaram sem pedir licença, acomodando-se na mesa do quintal ao lado das folhas que caem. Agosto está quente e seco e entre um bordado e a rotina, pausei aqui para saborear o vento debaixo do pé de ipê. Esse mês eu estive muito Scenarium. Aliás, acho que nos últimos meses eu só li os livros da Scenarium. Alguns, foram relidos e absorvidos. A Colheita é meu favorito. Casa Cheia me trouxe uma avalanche de saudades e Roteiros Imaginários – delicioso – acompanhou uma parte das minhas tardes. Mulher Proibida, Casa de Marimbondo eu já tinha lido, mas vieram parar em minhas mãos em uma dessas limpezas e fiquei por um tempo relendo. Nem Sempre à Lápis e uma ressalva para Delírios Comunista que continua atuante diante dos delírios dos últimos tempos (?) ou nada mudou mesmo?

Antes me incomodava deixar um livro à minha espera, como se me cobrasse para finalizar o que comecei. Talvez pela fome intensa de ler. Mas, me rebelei com eles. O tempo-vida é curto demais para insistirmos em páginas que não conversam com o nosso silêncio. Deixar a mão percorrer as lombadas na prateleira e escolher pelo tato, enquanto a água do chá esquenta, transforma o ato de ler em um verdadeiro pacto de presença. Fiquei acompanhando os seus passos curtos em direção à cozinha, virando as páginas de Peixoto ou Pizarnik, e pensando no quanto a literatura nos dá esse poder de desacelerar as horas para degustar o mundo em pequenos goles.

Você sabe que amo Reticências. Tenho os dois exemplares que já separei para quando setembro chegar. Achei lindo o anúncio da volta de Reticências. Adoro essas repaginadas que você faz. Ver os livros que amamos ganhando novos voos e circulando pelos olhos de outros leitores dá um sentido imenso a esse nosso agosto.

No final das contas, ler na contramão das listas de mais vendidos é a nossa forma de dar as cartas no tabuleiro do tempo. Se as prateleiras do mundo estão cheias de urgências frias, a gente escolhe a nossa xícara, abre as asas e mergulha no infinito de uma página que teima em nos salvar.

Mariana Gouveia