Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Os trajetos são irreconhecíveis.

Aqui, os meus mapas atravessavam esquinas e me levavam para a rua de cima. Depois da casa laranja e da casa da calçada alta havia o pé de ipê rosa e confesso que mudei a rota para não ver aquele canto vazio. Arrancaram – já te contei – e a moça dona da casa, plantou gramas no lugar.

Quando cheguei aqui, a rua de cima tinha aura de encantamento. A casa laranja, o ipê rosa, a casa do moço da reciclagem, o quintal da menina Eva que teve de trocar o coração e hoje me acompanha até a terceira esquina, depois de fazer várias perguntas e volta aos pulinhos.

Dessa rua, conheço todos os cães e quando atravesso a avenida para o retorno em outras ruas, as “minhas meninas” do clube da terceira idade me acenam. Duas vezes por semana entro para ler para elas. O guarda do Correio responde meu bom dia com um sorriso e Dona Gercina sempre me pede ajuda em alguma coisa.

O dia surge quente – como sempre – e enquanto faço a caminhada recolho as tampinhas de garrafas descartáveis para o projeto Tampatinhas, que cuida de cães e gatos em situação de rua. Fico sempre impressionada com o tanto de tampinhas que encontro.

A cidade tão minha, o bairro tão nosso, cheio de casas coloridas e árvores no quintal foram tomando outras formas. É como se eu carregasse mil malas para longe de onde eu cheguei. O tapete rosa, das flores do ipê caídas só ficarão agora em fotografias… e a estampa do riso da menina de coração novo, que colocava a flor atrás da orelha e pisava descalça sobre elas também vai ser só uma memória. Um mapa que foi interrompido antes mesmo dela crescer.

Os andaimes não são visíveis, nem os homens de capacetes que viriam para começar a obra. A rua de cima ganhou apenas contorno para mim de um jardim que morreu.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Um dia se despiram para o sol (e foram felizes)

Quando ouço falar de livraria, lembro-me do pequeno salão de minha infância, onde grande parte dos livros empilhados em grupos de dez não tinha capas – alguns, faltavam até páginas.

Havia anotações em diversas cores, feitas por algum(a) leitor(a) em uma frase que gostou. Eu adorava mais as anotações para tentar desvendar a pessoa por trás da canetinha neon.

Bem mais tarde, quando cheguei na cidade grande, as livrarias não me cabiam. Os funcionários não conheciam a sensibilidade. Ou pouco conheciam de um autor ou outro.

Não era livraria… eu deveria chamar de generosidade a partir do momento que conheci Maria Eudes. Mãe de um amigo querido, radialista se transformou em minha melhor amiga. Na primeira visita à sua casa, no seu quarto, as prateleiras acima da cama continham uma infinidade de livros.

De escritores que eu conhecia, outros que não sabia quem era e ali, no aconchego daquele quarto, mais do que trocar impressões sobre literatura, Eudes me abraçava em gestos de fazer minha comida preferida, de emprestar os variados livros e de me dedicar sua gargalhada que ecoava no pequeno apartamento como se fosse o riso próprio das paredes.

Os sábados – todos – eram dedicados a ela. Seja em leitura compartilhada, abraços entre quiabos e arroz, massas e vinhos e o tiramissu de sobremesa sempre. Todos os sábados, pegava dois ônibus, atravessava a ponte que dividia minha cidade da dela. Descia perto do aeroporto e seguia pela ruazinha cortada por um córrego até o seu condomínio.

Cada vez, havia livros novos ou algum que eu não descobrira antes… o chá sobre a mesa e as bolachinhas de nata… o cheiro do forno ligado, a dança entre a mesa de centro e as risadas. Ali, era minha livraria grátis e meu lugar de viver. Com ela, descobri mundos novos e no artesanato que criávamos havia o amor em forma de doação.

Os fuxicos de tecidos coloridos, as bonecas de pano, os colares de sementes e as caixas de presentes. Dividíamos conhecimento e amizade… abraços e risadas e algumas brigas também. Eudes era radiante como o sol e a gente tinha de saber como tocá-la…

A pandemia a levou e depois disso nunca mais consegui atravessar a ponte… nunca mais meus sábados foram os mesmos e as livrarias do meu lugar não me cabem… mas, o sol dela que se dividia em três meninos lindos me acolheram como luz do sol em manhãs nubladas e a gente cultiva a saudade dela e transformamos em amor.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Inventário


Para o caso de o silêncio te acometer 
e recordares a língua estranha 
que aprendeste a meu lado
 Para o caso de regressares
humedecendo as lembranças de luas 
Para o caso de o trópico te reclamar
 impaciente entre seus verdes
 Ou para o caso de ser noite na tua morada 
deixarei aberta a porta.

 Josefa Parra

Bambina mia,

achei essa coisa de inventário muito bonita… fiquei vagando por horas em coisas que eu te deixaria, caso pudesse fazer um. Pensei na xícara de chá – ou café, quem sabe – com as folhas de hortênsias enfeitar a mesa – por certo, eu te deixaria um canteiro inteiro de hortênsias azuis, mas não é tempo delas por aqui.

Um disco da Gal – vinil mesmo – com a música que você gosta e cantarolou enquanto eu estava ao seu lado em um ontem que vivi alguns dias por aí. Ainda ouço sua voz enquanto a voz de Gal ecoa no repeat.

Uma lua – ou todas as luas em suas fases – querendo beijar a flor do meu ipê, como se pedisse colo ou pouso. Acrescento aqui os eclipses e as variadas luas de cores que se misturam nas manchetes, como lua de sangue, de morango e por aí vai…

Uma declaração de amor cheia de doce, ou melhor, de chocolate – que você ama. Mas, por via das dúvidas, deixarei escrito em cartas, poemas, paredes e em áudio, para não restar dúvidas do meu carinho por você. Amo tu imenso!

A brincadeira de um pássaro antes do voo e já imagino um riso seu, daqueles risos serenos, em tardes mansas quando uma imagem te abraça. Poderia te dar também um dos azulzinhos – mas eles, já são seus. Ou nossos – ou todos os pássaros juntos em voos e pousos, em ninhos ou cantando. Um bem-te-vi, um sabiá laranjeira, um alma-de-gato ou uma espécie que ainda não sabe o nome. São seus.

Por último, bambina, para as noites frias deixo-te uma xícara de chocolate quente… daqueles em que o cheiro invade a vizinhança e aguça memórias. Poderia ser uma infinitude de coisas ou apenas poesias em um caderno de capa dura… ou um latte caramelizado que nem aprendi a fazer, mas que vou treinar até chegar na medida certa para seu sabor. Seis coisas são bem aquém do que eu poderia deixar… Mas, caso nada disso dê certo, deixo-te as lembranças das conversas e do meu amor por você. Ti voglio bene.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

das coisas breves · Lunna Guedes

Todas as manhãs travar o mesmo duelo.

Um poeta que a gente gosta – sei disso porque quando falávamos dele, suspiramos juntas – disse ser afinador de silêncios. Fiquei horas pensando nele calado. Só isso já é poesia para mim. No meu caso, os meus silêncios são barulhentos. Raramente fico apenas quieta. Nem meu lugar. Aqui, é barulhento mesmo. Até quando o silêncio impera. Sei que é contraditório e difícil de explicar.

No quintal, uma folha se arrasta levada pelo vento, uma criança chora na casa vizinha, o cão late para o gato que anda no telhado. As flores sussurram num vai e vem no caule e as roupas no varal conversam entre si.

O bairro por si só é calado… minha rua também, na maioria das horas…acho que o barulho é dentro de mim… em alguns domingos, em meio à solidão premeditada eu canto acompanhando o rádio. Canto baixo, só para mim mesma, para não espantar a vizinhança. Falo com os pássaros, as borboletas e o bem-te-vi que acompanha meu eu-que-te-vi em um dueto único.

Quando coloco as palavras no papel, monto elas na cabeça, em voz alta entre um andar de rodopio no quintal e assovio em outros instantes – um meio de chamar o vento – e ele responde. Já contei sobre isso para você.

Acho que talvez, por ter sido criada em meio a mais seis irmãos, a casa onde cresci era rodeada de barulhos. De risos, de brigas, até e de conversas que dependendo de onde eu estava saíam desconexas e inaudíveis, mas havia o murmúrio.  Eu chamava pela bá, minha irmã caçula pela minha mãe, as irmãs mais velhas falavam sobre coisas de irmãs mais velhas e mesmo pela noite, quando nos deitávamos, o capim seco ecoava o mantra da colina, o riacho alargava a margem em sintonia com os grilos e a juriti piava ao longe.

Às vezes, quando em quietude, durante a escrita ouço a pergunta interna: mais que silêncio é esse? Penso que essa palavra é inabitável em mim. Lido bem com isso, porque nesse silêncio gritante em mim é que vejo poesias. Elas gestam aqui, porque como disse  o poeta citado lá em cima: E todo silêncio é música em estado de gravidez.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes

Impor-se a trama romântica da noite.

Quando a noite se aproxima o quintal se apresenta para mim, de forma diferente do que durante o dia. As sombras dos galhos ganham formas transformando minha insônia noturna em um terreno denso na imaginação. Sou insone, na maioria das noites. Uso a noite como companhia, junto ao cão que se deita aos meus pés, quando me aquieto.

Mas, antes de me aquietar, passo horas olhando o céu noturno. As estrelas parecem acenar dentro do quadrante do meu lugar. A mancha escura, de um musgo seco, grudado no muro parece os monstros dos pesadelos antigos. Têm olhos, boca e cabelos grandes – que se movem à medida que o vento sacode as folhas da palmeira.

Quando o cansaço bate, sento-me na varanda, olhos voltados para a estante da sala, com seus retratos de família em quadros antigos, e ao lado deles, o elefantinho de porcelana ao lado da coleção nova de Pessoa, que ganhei de presente em um desses aniversários. Lembro-me quando Fernando Pessoa e suas entidades chegaram até a mim em uma sacola de livros doados, A maioria sem capa e pareciam carentes de olhos para lê-los. Era uma coletânea com os livros que alguém se desfez. Acho que eu tinha 13 anos e devorei tudo em uma noite escura, apenas iluminada pela luz do lampião.

Havia aprendido com minha mãe a consertar capas de livros e revistas, usando a velha máquina Singer. Foi o que fiz nos dias que se seguiram. Eu ainda não entendia os diversos tipos dele – acho que ainda não os entendo – e só absorvia o que estava escrito ali.

Acho que eu era sedenta da poesia e possuía a natureza na alma. Em tantas noites, lá atrás, eu lia para uma plateia feita dos meus irmãos, pai e empregados. O guardador de Rebanhos de Caieiro tocava a todos ali, e antes que eu escolhesse qualquer outro poema, o nome saia em uníssono. Acho que todos eles se viam dentro daquelas palavras, escrita por um homem que viveu além-mar.

E nessas noites em que a melancolia bate aqui, o poema quase decorado pela alma salta da epiderme e releio baixinho para não acordar os que dormem no quarto. Quase me transformo na guardadora de rebanho dos meus sentimentos e da saudade.

Mariana Gouveia

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Estou mestre em abrir envelopes.

Engraçado como os rituais nos une… acho que já te contei essa história antes, por telefone. Os envelopes que eu preenchia tinham aquelas listas verde-amarela ao redor. Meu pai comprava em pacotes, já que eu os enviava aos montes para tanta gente. Isso começou com meus quase doze anos.

O programa de rádio que a gente ouvia tinha uma seção de correspondências. Ali, o endereço era anunciado e com isso, ganhei várias pessoas com quem eu trocava palavras. Entre tantas cartas, duas eram as mais esperadas. Por vezes, me perguntava como aquelas letras, no envelope, antes mesmo de abri-lo com cuidado podiam fazer meu coração acelerar.

Acho que posso dizer que foi meu primeiro amor. As cartas traziam cada vez mais declarações de amor e a vontade para tudo dar certo gerava torcida ferrenha desde o carteiro que traziam elas em sua bicicleta amarela até os empregados da fazenda que vigiavam comigo a cada quinze dias, o moço de uniforme amarelo e azul surgir lá no alto da estradinha. O namoro ficou sério e ele chegou um dia, como uma história de livro e que durou enquanto durou.

A outra carta que eu esperava ansiosa era de um rapaz com nome de Eris. Dizia que vendia livros, discos e artesanatos em uma feira tradicional da capital. Falava de liberdade, de sonhos e perguntava muito sobre a cidade que ficava perto da fazenda onde eu morava. Queria saber sobre o padeiro e sua família, o padre, o dono da farmácia, da pequena livraria e me mandava postais da capital, com seus prédios exuberantes e suas praças.

Quis meu retrato e mandou o dele. Já havíamos trocados muitas cartas, que eu lia para meu pai e irmãos e claro, todos os empregados ao redor da mesa, após o jantar. O pequeno retrato 3X4, em sépia e foi Antônio – o moço que tirava leite – que o reconheceu. Era o filho do padeiro, que sempre o atendia quando ia à cidade. Estudava na capital, mas nos fins de semana estava lá, na padaria, a ajudar o pai.

No fim de semana seguinte, lá fomos nós em caravana com as cartas em mãos para a cidade. Pernas trêmulas e coração acelerado, torcendo para que aquele amigo tão querido não fosse mesmo o filho do padeiro. As perguntas não cabiam na minha cabeça. Porque ele mentiria, ou melhor, porque não disse que era dali, do mesmo lugar que eu?

E era ele mesmo. Que nos reconheceu e entre os berros de meu pai e irmãos pedia desculpas, enquanto o pai dele não entendia o que se passava ali. A explicação era que ele queria saber se eu dizia a verdade através das perguntas que ele fazia. Que quando eu falava da família dele era como um abraço nele, distante. Rasguei os envelopes ali, na frente de todos. Magoada demais por ter sido usada comecei a selecionar as pessoas com que trocava cartas, mas nunca deixei de escrevê-las, mesmo quando não enviava.

Com a mudança de cidade, os envelopes foram para um baú e só foram ganhar mais companhias anos depois. Hoje, ainda troco as cartas com algumas pessoas que a internet me trouxe e outras daqueles tempos de rádio. Ainda vibro com o barulho do carteiro que estranha eu receber envelopes ao invés das faturas. Ele sempre repete que aqui dou vida à função dele.

Mariana Gouveia

das coisas breves · Lunna Guedes

Deslizar de alegria nos cortes que o silêncio impôs.

Aqui, o dia foi parado, sem vento e sem nuvens. Talvez, em função do Dia dos Mortos. O céu azulou e parece aquele dia comprido, que nunca passa.  Lembro-me de meu pai que dizia que nesse dia sempre chovia. Se eu for seguir o que disse a moça do tempo mais cedo, a frase do meu pai vai ficar em vão. Não vai chover – ela disse – mostrando o mapa em um vermelho intenso na tela da TV.

Vi mais cedo em uma entrevista uma mulher que vende flores de plástico. Pensei em como é triste flores de plástico no cemitério. Parecia feliz ao relatar as vendas. Havia uma fila imensa de gente com suas flores nas mãos em meio ao engarrafamento. Vivi o mesmo vazio que você sentiu aí. Aqui também os pássaros quietaram. Você falou sobre a pipa a flutuar e volto meu olho para o fio em frente minha casa. Um esqueleto de pipa foi largado ali e me incomoda em dias de ventania, ela presa num fio que oscila para lá e para cá, como se pedisse para ser retirada.

Agora a pouco começou a trovejar e a ventania derruba as folhas do ipê no quintal e o esqueleto da pipa começa sua cantilena. Acho que a tradição do meu pai sobre chover nesse dia vai mais uma vez se cumprir.

Mariana Gouveia

Lunna Guedes

Alçar voo sobre as respostas guardadas

Gosto de novembro sendo seu… Acho que te esperava há tempos, para esse novembro seu. Assim como gosto do pássaro azul ser nosso. Sanhaço é o nome dele. Quando ele passou a fazer parte de nossas conversas, passei a chamá-lo de: azulzinho.

Acredita que ele fez um ninho em meu vaso? Nasceram três lindos pássaros azuizinhos. A mamãe passou a dominar a varanda. Tivemos de mudar a rota de sair da sala por causa dela. As manhãs foram barulhentas em um cri-cri até que o som deixou de ecoar no ninho-vaso e o quintal ganhou mais três aves serelepes a voar por aqui.

O calendário parece mais apressado nesse penúltimo mês do ano. As canções natalinas começaram a tocar nas rádios e as lojas espalham em vitrines o vermelho e branco. Confesso que não gosto mais desse alvoroço. E nem sei dizer se gostei algum dia.

O calor abafado mais uma vez faz com que eu abra os braços para o vento, que derruba as folhas no chão, enquanto os pássaros voam por aqui.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Nossa casa.

Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
– apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

Bambina mia,

Já é dia 6 de novo e agora, de outubro. A primavera que plantei na parte lateral da casa floriu. Não sei se ela resisti os 40º que acontece aqui. Nesse mês, tenho que te falar sobre nossa casa. Minha-sua-nossa porque é assim que sinto meu lugar para além dos muros, da rua de cima e o seu quintal aí, parte nosso…

Lembra-se do “nosso” azulzinho? Pois bem! Ele veio fazer do meu vaso de trevos a casa dele. Aí, com você aconteceu isso também – lembro-me bem. Mudei até a rota de meu caminhar pela varanda, até que ele esteja pronto e suas crias também para mudarem de lugar, já que o quintal tem espaço mais do que suficiente para eles.

E não é que ele serviu de exemplo para o sabiá laranjeira – que tem até uma “piscina” no meu quintal, agora tem também um ninho no telhado da varanda. Quase não percebi, a não ser pelo vai e vem dele aqui dentro. Não é que minha casa se transformou em nossa casa mesmo?

Acho que esse é um dos meus lugares daqui de casa. No fim do dia, minha casa mesmo é o quintal e a varanda é a porta para ele.

É nesse canto que posso ver o céu e suas nuances de fim do dia. E parece que o céu pegou fogo mesmo, tamanho o calor que faz aqui. Tive poucas casas na vida. Uma de pau a pique, quando eu ainda era criança e o quintal era uma fazenda inteira. Depois, quando mudamos para a cidade, uma casa de calçada alta, de onde eu via a TV pela janela da vizinha. Outras, foram apenas morada. Um lugar de paragem, porque havia outro lugar para ir.

Nessa casa – que te ofereço como sua também me possui há mais de três décadas. Cada canto desse lugar conhece minhas alegrias, meus pensamentos, minhas dores e meus tormentos. Em tantos momentos, o quintal me abraça. Em outros, o quarto me acalanta… A varanda me liberta nas tardes de café feito na hora e o pão de queijo assado. É um lugar de ninho, de nascimentos, de jardins, voos e pousos. E de portas abertas sempre. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Seis meses, seis fotos.

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Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.

Helberto Helder

Bambina mia,

confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.

Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .

Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.

Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.

Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?

E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal.
Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.

Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes