Nenhum abismo me cabe,
nessa hora, eu voo.
Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Darlene Regina e Suzana Martins
Porque o melhor lado é o dentro
Nenhum abismo me cabe,
nessa hora, eu voo.
Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Darlene Regina e Suzana Martins
Bambina mia,
Devo confessar que todos os dias eu vigiava o pé de ipê em uma das avenidas principais da cidade. A minha expectativa era vê-lo florido e te escrever junto das flores.
Por dias a fio eu via os galhos secos e pensei que as flores esperariam o agosto fugaz para desabrocharem…
Mas, o tempo delas veio hoje, e corri para te mostrar o quanto o dia pode ser iniciado na singeleza das flores.
Faz tempo que não te escrevo – pensei nisso enquanto me preparava para vir ao trabalho – e quero reparar essa falha dentro dos dias corridos.
A segunda – feira chega na forma inesperada de um buquê. Que seja assim então diante do namoro com a vida.
Bacio
Mariana Gouveia
é um canto que se renova
Concha nos ouvidos
Silencio meus lábios
Satélites a orbitar a alma
E a solidão…
Um crescente lunar
Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Sete luas – Scenarium Plural Editora
Era manhã quando você nasceu. O dia estava bonito quando as dores chegaram. Só depois de alguns anos entendi a sua pressa ao nascer. Você é desses meninos/homens/pessoas apressados para viver. Chegou antes – mas quem disse que era antes? – segundo a previsão dos médicos e sob o signo de leão me fez mãe. São 35 anos com sua voz me chamando assim. O meu olho de amor te abraça mesmo com tanta distância de lugar. O meu olho de poesia te faz minha melhor obra e o meu olho de mulher se orgulha do homem que criei. Dizer que te amo é repetir mantras feito aqueles que acalma a alma. Minha alma se acalma quando você sorri.
Mariana Gouveia
Agenda Scenarium Livros Artesanais 2023
Eu estive em sua São Paulo e desde quando estava no avião, em pleno céu, me encantei com a imensidão da cidade, cantarolei Caetano e lembrei-me de todas as canções que exaltam a cidade que você tanto amou.
O buongiorno ouvi da minha bambina e claro que a reconheci entre tantas mil, ainda no aeroporto. A boina, o riso e o abraço acolhedor de boas-vindas. Foi ela quem fez o mapa e me guiou pelas ruas e calçadas… indicando o melhor caminho.
Da janela do carro fui exclamando o tamanho das formas e fiquei surpresa ao perceber como fui engolida pela tua cidade. Reconheci prédios — vistos na TV. E quando, de pé, no chão olhei para cima… me senti pequena.
Vi as vaidades dos homens… e os invisíveis que em sua época, talvez, fossem outros. Em alguns momentos, não senti poesia… porque doeu ver os desiguais tão iguais.
Eu vi os diferentes e meu olho vibrou na diversidade das pessoas nas ruas. Fiquei dias pensando na personagem andrógina, branquinha — até os cabelos — a caminhar em minha direção como se tivesse flutuando.
Ali, eu vi a poesia da tua Paulicéia desvairada.
A segui com o olhar como se estivesse em um cortejo até desaparecer entre a multidão apressada. Passei pelo cortejo dos homens de paletós que não me surpreendia, mas os desiguais e a “cidade” feitas nas calçadas com suas lonas pretas — tão sem endereço, são sem lugar, espaço numa cidade tão imensa. Como é possível? Tão desvairada!
Não sei se te contei que estive na biblioteca que tem o seu nome? De repente, eu era a menina da infância que sonhava em publicar livros. E, lá estava eu, com um livro meu, em mãos… na Biblioteca Mário de Andrade.
E não era sonho!
Era realidade… e observei tudo, da enorme estátua ao centro, as pessoas rodeando as mesas e falando comigo. As vozes ecoavam no ar. Parecia sonho, Mário. Mas, ali, eu fazia parte do cortejo dos que escreviam, mesmo que no fim da fila. Queria que soubesse que não vi os homens de São Paulo como macacos. Vi asas em alguns e dei pela falta delas em outros… Medo, desilusão, desesperança, e vi amor. Mas vi sede de fé nas pessoas e acolhimentos em tantos… Apenas dentro dos meus olhos tão ricos de ver, vi apenas os homens.
Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Desvairada
Scenarium Livros Artesanais
– O azulejo da cozinha, a cantoneira, a mesa posta para o café. A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e… Esqueço-me de que a estação das flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco (as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto.
Meia noite e meia e a luz ainda detalha o canto das cortinas. É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e
aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção. A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar. Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.
Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
– Pensou nas roupas do varal — o lençol branco, de linho, bordado com o monograma dela — quase um voo — era a invenção para ter asas… As mãos a ganhar acaso de bicho e o imaginário a criar sombras entre o chão e o céu. A pele a equilibrar a rotina do medo. As falhas entre as folhas criam desenhos sob a luz da lua. Ela — tão etérea — visitante invasora da vida. A renda a desenhar as asas. Os olhos aumentados em uma lembrança que não vi. O abismo tão imenso diante da miniatura no varal. E já não era mais o lençol da memória. Era esse abuso de cremar o ouro do sol. O voo noturno e o pouso a caber dentro do sonho. A luz, quase vasculhando cada canto do quarto.
Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.
Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.
O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.
As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.
A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.
Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.
Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
Em casa de menino de rua o último a dormir apaga a lua!
Giovani Baffô
Bambina mia,
revendo minha caixa de cartas percebi que faz tempo que não te escrevo e como no momento o papel não me cabe nessa noite de lua cheia, aproveito para fazer do satélite natural motivo dessa missiva digital chegar até você. Desde segunda, eu fico presa ao céu, durante a noite e em algumas madrugadas. Às vezes, tenho por companhia meu pássaro de todo dia…
Às vezes, é só ela mesmo, majestosa com suas crateras enigmáticas – confesso que vejo um menino de coroa – e de diversas interpretações. Confesso que nuca vi o dragão, mesmo usando toda minha imaginação. Você sabia, bambina que há mais de 150 luas no sistema Solar? Eu fiquei boba de saber que só Netuno possui 13! E Saturno, tão exibido tem 48 e ainda os anéis… eu fico olhando meu céu noturno, cheio de estrelas e todas essas luas além do espaço que vemos.
Você já sabe que sou adoradora de lua e ela sempre me encanta em suas diversas fases e como se estivesse esperando uma foto minha se apresenta tal qual o meme: tira foto, mãe! Tira foto! Essa, já estava amanhecendo quando as pombas se apresentaram para a foto pedida.
E como ando tal qual a poesia, ando irresponsável nas manhãs, o instante se repetiu, bambina… a menina que leva a sonoridade de seu nome – ou o seu o dela – se abre feito guarda-chuva para ver o avião passar. quase vira frase de cartilha de criança.
A gente já falou muito sobre ela. Lembra-se? Já falamos na canção da Ivete, no poema da Clarice, no Lua de Papel – meu livro – ou seria seu? preferido… e quando falamos dela sempre me vem à cabeça a canção Luna tu e cantarolo baixinho pensando em você e no seu idioma natural.
Seis fotografias são poucas para eu falar com você sobre a lua, bambina… é uma via lunar o meu quintal. Ela vem mansamente no quadrante direito, rompe o muro por trás do pé de ipê e se põe majestosa… em algumas outras noites, ela surge disfarçando Marte e sua importância em minha vida como se fosse um piercing. Quase vejo uma piscadela para mim. Em outras fases, eu a vejo metade, em forma de riso, em meia forma e tão nova que parece menina ainda.
Encerro minha missiva lunar para você, para que chegue até você alguns instantes meus, de lua, porque sou assim. Rá! Amo tu imenso!
Bacio!
Mariana Gouveia
6 on 6 – Projeto Fotográfico
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes
A caixa dos poemas e das cartas parece sufocada de lembranças. O retrato 3×4 que você enviou, um lenço perfumado anunciando o cítrico que tanto gostava, e o envelope azul que nunca abri…
Eram nas manhãs que aconteciam os nossos encontros e eu te levava comigo feito tatuagem para onde quer que eu fosse. Eu ainda vivo da nostalgia de momentos que ficaram registrados em fotografias pequenas, onde o teu sorriso ainda se espalha e provoca arrepios em minha pele gasta. Tenho ciúmes das viagens que não fizemos juntas e das vezes em que você chamou outro alguém pelo nome sem lembrar-se do meu.
Folheei o nosso álbum de fotografias e só para não te esquecer de vez, deixei apenas a foto 3×4 que estampa os teus documentos.
Mariana gouveia
Projeto Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais