infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

tanta gente, Mariana!

Como eu escreveria sobre a outra – aquela que me habita na solidão dos dias.
A fumaça envolta naquela menina que ri e conta histórias que ninguém conhecia.
Como pode o ritmo ser medido pelo movimento que roda a saia e o vento pelas folhas que ele derruba? Quantas tem o pertencimento sobre o que você sente? A que dança? A que que chora? A que segue as regras e lê os manuais? Aquela que se esconde dentro do espelho? A que nunca se maquiou ou a que anda nua nas madrugadas insones pela casa em uma noite de calor infernal… Quantas mulheres te habitam, hein? Que voz sai de sua boca quando grita nos rituais da lua? Quantos humanos estão dentro de você? Cada vez que fala traz em você os seus irmãos – e os pais e avós – nas suas lembranças? Ah, você, tão dona de si e tão frágil… tão forte e complexa… tão fraca, às vezes. Talvez, se olhando na água que balança na bacia no quintal apenas responda: tanta gente, Mariana!

Mariana Gouveia
Agenda 2023 – Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos rituais da noite

Laurie Kaplowitz

Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também. Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia. A noite tão curta dentro das horas. As horas tão longas dentro da noite. Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos. O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem… Conhecia os gestos, o barulho da TV em algum lugar perto. Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário da Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro estações
Scenarium Livros Aretsanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

O conto de fadas em papel e palavras

contava nos gestos o corpo partido. Os riscos da mãe, ali no papel… medidas em centímetros a saudade. Era coisa para ser dita a olho nu. O pássaro sem asa, a linha ainda a costurar. A fruta no cesto — e o pomar — além da janela a exalar o cheiro real das coisas. O conto de fadas em papel e palavras. A irmã, ali, a imitar o mesmo gesto das tesouras e linhas. Artesã de alma e coração. O mesmo ritmo a encontrar a paz na arte. A letra da mãe ainda a marcar as cores fazia com que os instantes fossem relembrados entre risos e histórias. Alguém lembrou do sabor do bolo feito com a massa de mandioca e com isso desenrolou casos vividos na época — como se isso puxasse um fio — e mais histórias surgiam na fala delas… e era possível viver a saudade no gesto.

O campo dá a certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e há cada coração em cada grito. O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas, o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, sendo bússola vagueia no laguinho onde o cão se banha. Os vaga-lumes oscilam perto do lago e ele — o cão — corre atrás de algo que voa… Aqui, tudo voa — ou quase — e quando a asa vira coração, vira folha — e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar à altura da beleza. É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu. O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois… E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.

Guardei o dia na memória e desenhei a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos. [Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes das irmãs, o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem quando a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado — tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes] Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas. [Era ainda ali, a infância… e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida, nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina] O aroma do bolo a assar no forno — o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma. [Voltei à casa onde chorei mil vezes. E onde

escrevi todos os dias parte da minha história. Na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá] nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade. Sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim. Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.

[Há dias que não deveriam acabar].

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – about

No inverno, um animal
 Na primavera uma planta
No outono – uma ave 
O resto do tempo sou uma mulher 
Vera Pavlova

Tantas vezes, em tantos casos eu sou a menina e em outras sou a própria história inventada. A biografia escrita nos olhos dos outros.

Já fui também a artista que compunha casos e imitava em arte aquele que escrevia coisas para além da alma. a que justifica o próprio ato, antes de atuar.

Tudo em mim vira asas e pousos… gosto da chuva, das tempestades, dos raios e trovões. Da lua, das nuvens. Mais de bichos do que de gente.

Nas minhas digitais trago pólen de flores, poeira dos pés de animais, de asas de beija-flores e no ouvido tenho o som eco dos corações deles.

Em alguns momentos, eu sou preto e branco, silêncio, melancolia e saudade.

Mas, na maioria das vezes sou essa multiplicidade de vozes… das mulheres tantas que vivem em mim – mãe, avó, neta, tia, mulher, poeta, escritora, artesã, fotógrafa e adoradora da vida. A que gosta de pisar na terra e olhar para o céu. A que chora e que ri. Sou eu. Plena de mim e ciente de meu lugar no mundo.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Geometrias – das geometrias do meu lugar.

Bambina mia,

Andei procurando uma forma diferente de falar de geometria com você sem necessariamente sair por aí fotografando os espaços da minha cidade. Lembro-me de que te perguntei sobre o que pensou dentro da palavra geometria e ouvi sua gargalhada… Resolvi modificar meus gestos dentro da palavra e te escrever… Sabia que depois disso vi geometria em todas as coisas… Rá!
Em cada canto há uma janela quadrada – às vezes, retangular e até oval. Por isso resolvi seguir meu olho e te mostrar a geometria das coisas daqui.

As borboletas daqui, depois que passei a observá-las, me trouxeram nuances geométricas, não só nos desenhos que formam em suas asas, mas juro que vi um formato de triângulo quando ela pousou em meu dedo. É lúdico, bambina… mas é quase triangular essa asa, não é?

Confesso que vi um hexágono na ipomeia lilás e suas gotas. A trepadeira está coberta delas, e quando ficam penduradas também tem o formato de triângulos… e como há triângulos por aqui, em diversas coisas…

Sabe, bambina, eu fiquei mesmo feliz quando vi o reflexo do arco-íris no quadrado do piso da varanda… Aconteceu a primeira trovoada de maio aqui e me lembrei de você… Gritei seu nome – o que já nem é estranho mais – porém, o ritual do arco-íris levou a chuva para outro lugar e só deixou os trovões por aqui.

Nos retângulos de pedras que cobrem uma parte do quintal servem de caminhos para o joão de barro. A ave parece brincar de amarelinha e arranca um riso meu. As flores de ipê fazem cama por ali, quando caem, sob a leveza do vento. Acho que já te mostrei isso. O chão fica dourado de flor.

Mas, é através da janela, sem suas cortinas lilases que o céu se desenha para mim, bambina… os retângulos – ou seriam quadrados? – me mostram as nuvens e suas nuances, ainda com indícios da chuva que não veio…

Bambina mia, encerro com a lua e seu círculo natural chegando em minha noite. Claro que faltaram tantas coisas, mas esse espaço cabe apenas seis fotografias. Eu poderia ter te mostrado as manchas engraçadas nas costas das ladies bugs que vivem aqui, o triângulo disfarçado no besouro que encontrei esses dias no pé de algodão e até as geometrias diversas na folha do mesmo pé de algodão. Mas fui escrevendo formas por aqui… Meu abraço cabe direitinho no seu abraço. Seria um enlace… é geométrico o abraço?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Geometria
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins

Scenarium Livros Artesanais

no espaço, a vida é ilimitada e sem cercas.

Chegou das andanças com cheiro de aventura no olhar.

Sentiu fome nas esquinas… aprendeu o medo do chão – porque amava as alturas – e se perdia no espaço de voar.

Calculou rotas e fronteiras… no espaço, a vida é ilimitada e sem cercas.

As aventuras que viveu lhe permitia acreditar na sorte de um amor tranquilo.

Um ternura íntima no pouso. O colo na terra a oferecer amparo e a aventura no olhar, depois que chegou das andanças.

Era como se palavra liberdade estivesse além do chão e a alma entendesse que a é na terra que as raízes crescem livremente.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

Ainda ontem e o verbo era germinar 

O fruto serviu ao destino para o qual plantado. Havia rumos de asas no quintal… O canto a madrugar rotinas dentro das horas e o vento a exalar aromas de saudades.
Ainda ontem e o verbo era germinar e o raminho a brotar o verde ganhando espaço fora do espaço.
As flores em sua sorte de perfumar a vida e ali, logo cedo, o pássaro de todo dia ganha a sorte de matar a fome. A natureza e seu estado de graça diante de mim enquanto o vento sussurra em resposta ao amor.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

Leonor,

Eu deveria te escrever em poemas. Usar teus poetas favoritos ou as canções que me lembra você. Mas, eu… às vezes, fico perdida… Devo escrever cartas que sei que nunca irá ler? Postar os envelopes pardos na agência dos Correios sem saber se irá buscá-los em sua caixa postal? O que eu faço, Leonor?

Eu acho que gestei demais a despedida e usei a tag marítima como sinal para você se reconhecer em meus gestos. Mas tenho pensado: será que você não foi inventada por mim? Tudo que vivemos parece pertencer a um passado tão longínquo que parece ser coisa da minha cabeça.

Te perdi, te ganhei, me perdi ou nos perdemos? Lembro-me do tempo em atravessei um campo de capins dourados e você me esperava no topo do morro. A frase ecoou morro abaixo e você com a câmera fotográfica nas mãos registrava meus gestos – e se uma sumisse da outra entre o capim dourado, como seria? – e eu me lembro de te dizer que a procuraria até o fim do mundo. Doce ilusão! O fim do mundo é longe demais e mesmo as cem ideias que usei para te encontrar se perderam em uma praça de Queluz.

Alguém me disse que não podemos encontrar quem não quer ser encontrado — e eu fiquei pensando se era você que tinha esse medo de se perder ou era apenas a promessa de uma fuga que te movia. Confesso que já apaguei mil e quinhentas vezes as mensagens com sua voz e recuperei em tantas outras mil e quinhentas, só por medo de esquecer seu sotaque e o som monocórdico de sua voz.

Na última vez em que nos falamos, você disse que havia andado por minha rua — tantas vezes — através do Google Street e que pensou no pé de trevo de quatro folhas que cultivei como se fosse um tesouro, para depois do portão… E tudo mudou… Você sumiu do mapa e eu ainda procuro por você no meu silêncio. Nas estações, nas gavetas da memória, nas palavras de seus amigos. No topo do morro da Chapada, nas ruas misturadas com as casas coloridas que você tanto amou fotografar.

No resto do tempo, começo a te esquecer e a passo a ler as notícias que saem nos jornais do seu lugar. No carro igual ao seu que passa na rua de cima, no sol de cada dia e até na xícara de café — quer café, flor? — porque eu fico esperando qualquer coisa de extraordinária para recebê-la mais uma vez entre gotas de chuva nessa estação da espera.

É elementar que seja assim. Se passaram mais de mil madrugadas e eu sou todas as janelas e portas abertas, como se estivesse sempre pronta para sua volta. E eu já fui até farol, confesso…  Mas, hoje sou apenas essa solidão para o nome das coisas.

Mariana Gouveia
Texto publicado no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para abril – As metamorfoses e seus contrários com uma xícara de chá

Minha menina nuvem,

O tempo mudou por aqui e o céu azul foi transformado em cinza logo depois do almoço. Precisei ligar a luz para trabalhar, já que escureceu de repente. Dizem vai esfriar e me perco dentro da estação. Com a chuva que caiu torrencialmente as sementes do ipê voaram para todos os cantos do quintal. Ela voa de tão fina e volta e meia levo embaixo do pé uma delas para dentro de casa.

Su, geralmente, trabalho no quintal ou na varanda, mas precisei levar a mesa para dentro e fui espiar a chuva. A luz da rua apagou e fui cuidar dos casulos – vários deles se formaram no pé de turnera – que é onde acontece as metamorfoses no meu lugar.

Já te contei que as borboletas nascem pela manhã? Umas gostam mais do meio-dia. Enquanto outras preferem o antigo canil dos cães, que é meu “sótão” de mentira. Lá é mais escuro e as mariposas gostam mais de lá. Gosto de ver esse processo de transformação – e até acho que vou me transformando junto – e depois, da metamorfose ao voo.

É certo que eu plantei as flores que elas gostam e com isso, o meu quintal está sempre “grávido” de borboletas. Mas, há também outras metamorfoses no meu lugar. As lady-bugs também tem um processo único para se transformar. Da larva ao inseto o pé de algodão vira casa delas. Das mais variadas espécies e logo as asas que parecem origamis vagueiam por aqui.

Gosto desses gestos por aqui e vou carinhosamente, com cuidados de mãe cobrindo os casulos… volto para dentro fugindo das gotas de chuva e vou preparar um chá… meu pé de alecrim está lindo e se ofereceu para aquecer essa tarde-noite estranha ao meu lugar. Preparo o caderno, sublinho as folhas e começo a te escrever enquanto bebo meu chá…

Aceita uma xícara?

Beijo meu
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega