Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Cuiabá, manhã de sexta-feira santa,

Bambina mia,

O poema que me enviou me fez pensar em Ana. Ela adorava ficar parada, em um banco de praça, em uma calçada de qualquer esquina a observar quem passava. Maryann, é enriquecedor isso! Já imaginou o quanto de história tem em cada um?

A minha imaginação até flui no outro, no desconhecido… Mas eu escrevo a partir dos detalhes que a realidade oferta… Nem tudo é real, mas eu preciso da realidade para dar vida a minha narrativa. Ana preferia imaginar… de maneira peculiar: lúdica, poética, vaga… Eu queria ir ao sítio dos outros, desvendar as histórias, saber os nomes, ler sobre os segredos, trocar cartas…  e foi em uma carta que te encontrei.

Ir ao sítio dos outros não quer dizer invadir espaços que não são meus. É dar o toc, toc — dizer: oi, sou eu, estou aqui… e esperar que a porta se abra. Ana era voyeur que se perdia nos olhares, nos gestos. Espiava… dava cor aos transeuntes e lá de Paris dizia: o moço que perdeu o sapato me acompanhou até a praça da faculdade. Eu dei a ele o cachecol vermelho que você me deu. Estava muito frio… eu acho que ele perdeu um amor. Ela me escrevia de dentro da vida e eu respondia de dentro da minha saudade.

Mas havia um limite entre ela e o outro que era justamente a imaginação. Vejo um pouco dela em você. Essa inquietação com relação as pessoas. Ela era o próprio barulho — como você — e ecoava em tempestades mil. Com o outro, era distância nunca ultrapassada… os metros dos olhares. Uma troca de livro, uma sopa quente, um café noir e a mesa da cantine para ela. Seu passatempo favorito era ficar horas a observar o movimento-pessoas-personagens-imaginação.

Quando falo de Ana — as memórias, às vezes, nos traem — lembro-me do olhar amoroso comigo, do ônibus elétrico e seus olhos tragando minhas emoções. Enquanto o motorista descia para acionar o fio que se soltou. Você cabia na nossa história. Sua mão alcançou a minha e foi o amparo mais doce que senti na vida.

E foi ali que percebi que seu sítio cabia em mim… Você, tão avessa aos humanos. Tão canina quanto eu e tão aconchego para os que tocam o seu coração. Isso tudo é uma exceção à regra, mesmo porque, em muitos momentos, a regra decepciona.

Grazie Mille!

Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – uma história que se repete:

eu e sua rua

Ana,

Nessa noite densa e estrelada eu te escrevo… para te contar que passei na sua rua ontem e a cerca de madeira está cheia de flores da trepadeira que você plantou. Esta cena já se repetiu algumas vezes e dependendo do caminho faço, é inevitável passar na frente a casa que você morou e que nós moramos, compartilhamos e vivemos os mais bonitos instantes de amor.

Ainda te vejo na soleira da porta com as mãos acenando despedidas, riso solto e olhos brilhando. Em dias de muita saudade evito a rua do meio e dou a volta no quarteirão que é o dobro do caminho… Às vezes, me falta estrutura, querida minha.

Misturo versos de poemas aos instantes que vivemos… os passeios de domingo e suas histórias cheia de humor… Não era atoa que você pensava no homem de Paris que perdeu o sapato bem na sua frente. E das vezes que sua visita em um casarão em ruínas te fez correr tanto de susto… e cruzar com o mesmo homem que lhe cobrava o sapato — como alguém perde um sapato em Paris? — e seu riso ecoava vida afora…

Eu ainda me lembro dos vários rituais que repetidos e das cerimônias — que eram sempre as últimas — e vibrávamos com o sol nascendo como se nunca mais isso fosse acontecer. De como Marte era tão visível em certas noites que seriam banais e se tornaram únicas porque você levava Marte em seu nome como se ali sempre fosse o seu lugar, mesmo estando anos luz distante daqui, de mim, ou dessas histórias feitas de fragmentos…

Eu ainda tenho na memória seu olho através da cortina, e sua presença tão forte e potente em mim, na casa da Kaori e do teu monólogo ao meu ouvido no telhado de minha casa, no bairro antigo; quando dizia que Marte estava ao alcance de suas mãos e que poderia me dar quantas estrelas eu quisesse.

Eu nunca quis muita coisa para além do seu riso, da sua voz lendo poemas, dos ecos dos seus passos no corredor e das canções desafinadas de quem canta apenas o amor… Era isso que eu queria. Falar de Gadu, de Gil e Caetano. Da chuva, de um Japão com as cerejeiras em flor que nunca conhecemos e do barulho do rio a desaguar nos afluentes do Pantanal.

De frente para a cerca cheia de flores busco essa tentativa de te observar e você já não me vê ou até vê, nesse abandono de corpo entre o celeste e o seu quintal… Ouço vozes para além do portão. Alguém ri e como aconteceu em tantas vezes, me confundo. A cena está vazia e dentro de mim você é esse poema que tento domar para além dos muros do meu quintal… em sua rua, que é onde me perco, como se o vento não pudesse levar as minhas palavras e o meu amor até você.

Não é você na soleira da porta… é apenas a minha imaginação chamando pelo seu nome para além do amor.

Mariana Gouveia
Cartas para abril postada no blog da Scenarium Livros Artesanais
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Quem sabe amanhã você venha

De mim, o ruído estranho.
O coração que cresce. A voz que se cala, cabelo curto, que o vento agita.
Tracei os caminhos profanos e respirei liberdade.
Cometi os Sete Pecados.
Colhi o que plantei. Respirei saudade. Fiquei à espera.
Nasceram gérberas. Plantei mamão para os pássaros.
Costurei dimensões dos dias. Escrevi cartas. recebi cartas. Ganhei presentes. um riso de uma menina que partia doeu meu coração.
Por falar em coração, ele é todo cicatriz. Das esperas onde nada acontece.
O physalis deu flor, deu fruto e secou. Renovou-se nas esperas. Misturou-se nas folhas do amor agarradinho que cresce, agarra. Pinta de rosa o quintal.
Um pássaro noturno canta. É a aparição da saudade. Olho o céu. vejo a lua, as estrelas. Choro e chamo seu nome.
Quem sabe, amanhã você venha.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Me escreva uma carta

Dessas cartas simples, que mais parecem bilhetes e que soam a mansidão dos dias.

Havia um tempo em que eu desejava tanto a vinda do carteiro. E lá ia eu vasculhar as correspondências para saber algumas palavras de encanto no meio de tanta carta. Umas, era para minha irmã mais velha. Curso por correspondência. Um instituto que ensinava a bordar, costurar, pintar e tudo mais que se ensina hoje, só que nessa época, era por correspondência.

Outras, dos parentes distantes, contavam desde o nascimento dos filhos, do primo que casou. Da tia que enviuvou, do cavalo que nasceu… Não havia nenhuma carta endereçada a mim. Por que não havia quem escrevesse. E hoje ainda não há.

Já não há cartas mais, nem envelopes com a tarja amarela e verde. Os parentes que escreviam, alguns morreram, os que nasceram usam a internet e não há mais tanta novidade que o Facebook não traga de imediato.

Hoje, o que chega pelos correios são as faturas do telefone, da conta de luz e de água. Sinto falta do diálogo feito entre as letras e eu, e o papel de carta decorada de coraçõezinhos.

Me escreve uma carta, e nela me relate tua vida, teus sonhos e até tua angústia. Fala dos medos, das coragens e da vontade absoluta de ser feliz.

Ou ainda assim, mesmo que não consiga escrever nada, mande-me teu perfume para eu sinta sua presença aqui.

Mariana GouveiaÉ abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

o acalanto da memória.

O encantamento começa com a magia da manhã. Vasculho os instantes no quintal e a memória busca o tempo que acabou. Nada dura para sempre e nem o encantamento permanece o mesmo diante das coisas.

Havia o tempo certo para o pouso da asa e a mania de querer pousar. Toda passagem tem o exato momento para acontecer.

O fio é tênue e imprevisível e rompe quando o sentimento muda de lugar.

Cantei canções de outros tempos, podei as plantas e preservei a morada dos que moram na árvore do canto.

Refiz os espaços do jardim…Refiz os espaços dentro de mim. Hora de recomeçar.

Mariana Gouveia
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infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Dos dias aleatórios de abril

Havia roteiros de lua no quintal. Um vaga lume invadiu a sala e chamou a atenção do cão – logo ele que gosta de correr atrás da luz da lanterninha vendida nos ônibus – foi um achado! Teve de contê-lo e socorrer aquela luz que voava.

Procurava no céu alguma coisa que estivesse escrito nas estrelas. Elas desenham o caminho de Santiago – alguém disse um dia – desde então, lembra-se disso quando olha para o céu em noite de lua e estrelas. Depois disso, sonha em fazer o caminho de Santiago e já desenhou o mapa quinhentas vezes mentalmente e outras quinhentas vezes no papel. De tão lindo que ficou, pensou em bordar.

Olha para o Cruzeiro do Sul e vê Vênus quase na ponta da Lua – um piercing ou um riso disfarçado de Lua – no quadrante leste do céu.

Relembra coisas da infância. Das regras que seguia em relação à lua. O cabelo – sob recomendação séria da mãe – só poderia ser cortado na lua cheia. Era assim que os cabelos das mulheres indígenas ficavam fortes e bonitos. As pontas poderiam ser tiradas na lua crescente.

As rosas brancas deveriam ser replantadas na lua nova. O feijão, colhido durante a minguante de Maio – evitava perdas, o pai dizia – e fazia o feijão não carunchar. A macela, colhida na lua cheia específica da sexta-feira da Paixão para fazer chás potencializava a cura.

Tudo na vida dela fora um ritual de datas lunares e solares. De cores e de sabores. De magia e expectativas.

Quando deita no chão do seu quintal, refazendo o mapa das estrelas que indicam o caminho para Santiago, revê esses instantes que fez de sua infância uma riqueza só.

Os rituais ficaram marcados – segue até hoje – Deus a livre apontar o dedo para uma estrela! Apesar de ter ficado lá atrás a lenda de que se fizesse isso, nasceria uma verruga na ponta do dele.

Fica horas ali, todas as noites. É um momento único de lembranças que vão e se recriam no doce modo de espiar o céu.

Sabe desenhar cada coisa sentidas nas fases que a lua inventa em seu caminho no céu. É o ritual que segue quase místico na essência de viver.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Emily

Eu te dou metade dos meus pássaros
— sobre a doce condição de que você os trará de volta
— você mesma,
e habitará um dia comigo,
alegria sem preço,
eu mesma ganhei da natureza.

Emily Dickinson

Querida minha!

Talvez seja intimidade demais para nós… eu, que conheço tanto de você, por tudo que li e reli sobre sua vida e você, nas palavras das cartas — e eu, uma estranha apenas, que te admira — e juro que já fiz esse diálogo infinitas vezes em dias que não era assim como hoje.
Já te falei que chove? Chove incessantemente há três dias e no quintal os musgos já acumulam com suas cores verdes nos cantos do jardim. A roseira, que antes estava exuberante, teve as pétalas arrancadas pela força da água. O rio, logo abaixo algumas ruas já atinge um nível de alerta.
Devo confessar que até gosto do barulho da chuva nas telhas e o gluft gluft em algum balde esquecido logo debaixo da escada. A passagem bucólica que preenchia minhas manhãs ganha cores dos infinitos guarda — chuvas e as imagens que meus olhos alcançam são as das meninas que voltam da escola com seus uniformes molhados. Chega a ser estranho ver minha cidade sem sol e enquanto aguardo o ônibus releio as cartas que escreveu em um livro puído:

“Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia”

E assim, a palavra ganha o contorno de cuidado com o qual falo com você. Imagino você corrigindo os erros e rindo das infinitas traduções e interpretações de um pedaço do poema. Os manuscritos é esse fôlego de alma e eu a catar letras para te prender aqui.
Ainda chove e os vizinhos ouvem futebol. Eu penso em amores que você tenha vivido e tento comparar com os meus.
O que dizer do amor dos outros que brotam em cartas tão fora de moda hoje em dia? Talvez te escreva outra carta falando mais sobre isso… talvez só converse com você nas janelas embaçadas dos ônibus… Talvez apenas mergulhe meus pés na bacia de água gelada para o cansaço ir além da simples vontade de ficar só. Talvez…
Talvez o amor que exala em mim e que misturo nos seus poemas seja feito de asas… em mim, o pássaro de todo dia é aconchego e divide com as abelhas jataí a água preparada para quem beija a flor… e quem sabe esse amor seja só essa gota que pinga constantemente em um balde esquecido…

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
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Ele mesmo. Originário.

Sou índio por dentro, e tupi-lusitano por linguagem de minha metáfora mais tímida: eu mesmo.

Anderson Carmona Domingues de Oliveira

Conheci um sábio da floresta. Conhecia o poder da cura pela natureza. Possuía o dom de entender as sementes, as folhas, as flores e soube tocar meu coração.

O olho tinha a fome de um povo por respeito… Os braços, a força de um guerreiro…
A família era o elo que o ligava ao sagrado e o sagrado cobria a pele do espírito da terra.

O sábio sabia o segredo dos animais… E com esse poder dominava o seu mundo
O vento, seu mensageiro de voz e ecoava pelos cantos pedindo sabedoria para entender o sentido da vida.

Que o dia não seja só uma data, mas que o significado seja de respeito.

Mariana Gouveia
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Scenarium Livros Artesanais

Andarilha

Ph: Lauren Treece

O meu corpo
É um mapa
Com muitas rotas…
(im)possíveis

Alguém se perdeu de mim
Ficou pelo caminho!

É tudo tão vasto
nessa Estrada
Que liga o meu
estado de espírito
a lugar nenhum!

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Andarilha
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Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

(De)serto

Ph; Adam Taylor

Sendo o meu corpo
A tua pauta musical


…dedilha-me!

E faz escorrer da minha boca
um beijo que se deforma

— Miragem!

Onda que vai e vem e põe no meu corpo
palpitações de oceano!

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo de Poesias Eróticas Lilases
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