Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

Os bordados…

Ficava horas olhando os vestidos na vitrine da loja da rua do Meio. Alguns, lembravam a infância para além das costuras que a mãe fazia. Passava horas a espiar a mãe e a irmã a rabiscar os moldes, os cortes e por fim, o bordado. Apaixonou-se pelo bordado livre e desenhou na mente as flores e as cores todas. Carregou os sonhos através dos anos e foi aprimorando a arte das agulhas. Não costurava, mas fazia o acabamento e os bordados com dedicação. Às vezes, desejava entrar, tocar cada um dos bordados depois de prontos. Reconhecia os pontos feito à noite, entre o sono e a insônia. A flor que madrugava dentro das mãos, nas saias rodadas que o manequim vestia. As borboletas quase saiam voando fora do tecido, a espalhar asas no rodado da saia e quando vez ou outra cruzava com alguém que trazia o vento na saia e as borboletas voavam em volta, ela sorrindo dizia: eu que fiz!

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium livros Artesanais

Encomende o seu exemplar:
É só chamar (11)99241-5985

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Aberta a temporada de ventos.

As cortinas dançam e eu me distraio com os movimentos – sinto-os do lado de dentro. Na véspera, a previsão do tempo é dedicada as flores. Reparei que as coisas do amor residem na véspera, mas, tudo acontece no dia seguinte.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium livros Artesanais
Ph: Ivânia Bezerra

Encomende o seu exemplar:
É só chamar (11)99241-5985

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão…

para esse nome das coisas.
Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.
Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.
A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Plural Editora

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Portas

Falar sobre portas me leva para as igrejas do meu lugar, com suas portas nem sempre abertas. Com suas histórias de fé. Com momentos do seu povo e ritos. Isso me leva para grande parte de minha infância e de minha vida.

As tradições e religiosidades do povo e as características e arquiteturas vão além de templos para os fiéis, muitas delas também são consideradas pontos turísticos. As festas dos santos e tudo que se traduz na vida da cidade.

O povo constrói as tradições através dos tempos e da fé que os move, naquilo em que acredita… Como se a porta sagrada onde se faz o sinal da cruz, os livrasse de todo mal.

Algumas histórias recontadas, transformadas em lendas ou simplesmente passam a fazer parte do cotidiano do lugar.

É impressionante ver que em cada porta que se abre ou se fecha a história fica como testemunha dos relatos, dos mistérios e das confissões de fé.

A historicidade, a tradição e a singeleza do lugar fazem com que toda simplicidade seja mais um motivo da coragem de quem se constrói com fé.

Cada vez que falo de portas, lembro-me de meu pai que sempre dizia: quando Deus fecha uma porta ele abre uma janela… Isso ficou na memória da criança que se tornou mulher. Não é um conselho que eu siga ou fique apegada a isso. Talvez, falando sobre religiosidade, igrejas e fé, o que me vem à memória é um texto que está no meu livro recém lançado, Desvios para atravessar os quintais e retrata bem sobre o que sinto sobre fé, coragem e portas. Muitas vezes, a melhor porta que se abre é a do abraço de um amigo:

“Passei pelo centro quando o sino gemia dentro de um horário errado e me levou para a cidadezinha do interior aonde tudo era feito ao som dos sinos – quando uma criança nascia / alguém morria / alguém chegava / alguém partia e o padre tivesse de passar alguma notícia qualquer – e  o povo todo surgia como um passe de mágica. Ouvir o sino da matriz em seu rugido rouco e enferrujado me fez parar e perceber a mudança na fachada da igreja. Tudo modificado desde a primeira vez que a vi. Pareceu-me que só eu havia ouvido o sino. Pessoas apressadas, em seus vai e vem fazendo contraste com os carros em fila aguardando o sinal abrir. As duas torres, seus relógios e seus vitrais coloridos em sua imensidão passava desapercebida pela multidão. Tudo parecia feito de preto e branco. Os instantes, o dia de hoje, a hora… Lembro-me da última vez que estive ali, a procura de apoio e dei de cara com as portas fechadas. Estava com um diagnóstico dentro da bolsa, com coração alarmado e buscava a esperança na fé. Um dos padres me disse que a igreja estava fechada e mandou-me buscar apoio na igreja do meu bairro. Pareceu-me que ele ainda estava ali, atrás da porta, a sensação da porta fechada… de novo dei meia volta e a igrejinha do meu interior, com as portas sempre abertas… Padre Quirino a cumprimentar as pessoas, a acolher as crianças e a oferecer sempre um abraço. A igreja do meu bairro, naquele dia, também estava fechada, mas encontrei a fé num riso de um médico, que nem abriu o envelope do diagnóstico. Abriu os braços para mim e me acolheu no coração como amiga.”

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Lunna Guedes, Obdúlio Ortega e Darlene Regina

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos corações

A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença.
Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?

As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço. Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
Scenarium Plural Editora

Encomende o seu exemplar:
É só chamar (11)99241-5985

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

das palavras das cartas

A carta fora escrita no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.
Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar. Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma. Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia.  Um universo de distância nos separava e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudessem tocar. Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixou e eu dos cheiros das flores de lá. Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava. Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo. Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o Paraíso com nome de filtro de cor. A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas –
Scenarium Plural Editora

Encomende o seu exemplar
É só chamar (11)99241-5985

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

– Havia o encontro marcado

Sabia a hora exata em que o universo mudava a rotina da lógica. Tudo agia para que a sensação fosse de surpresa. Cada passo fazia com que a memória ativasse os encontros passados e ainda assim era como se fosse a primeira vez.

Mariana Gouveia
Desvios para  atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
Encomende o seu exemplar
É só chamar (11)99241-5985

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

— aquela hora…

em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã. A permissão para sentir vem da natureza que me concedeu a fé enquanto a memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e o conselho do pai para tomar cuidado com o veneno contido dentro das coisas bonitas — base para mais um ensinamento.

Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura… eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo, cada átomo do Universo fizesse parte de mim.

Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, naquela parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim. E a poesia recém-escrita, olho no olho… onde o orvalho cresce na minha própria alma.

Mariana Gouveia
Desvios para  atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
Encomende o seu exemplar
É só chamar (11)99241-5985

Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas

O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar.
Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.


Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora
Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Em 2020 eu…

Resumir um ano inteiro e tão atípico em 6 fotos é um desafio. Eu poderia descrever cada mês com a mesma intensidade com que aconteceram os dias. Mas, até nossas vidas serem modificadas pela pandemia aconteceram encontros, abraços e risos.

A pandemia transformou meu dias em artesanatos, comida, livros, comidas, receitas, comida, fotografias, comida, caminhadas pelo meu quintal, comida, lives, comida, estudos, comida. Nuca estive tanto na cozinha como nesses meses.

Passei a acompanhar o por do sol do ângulo que o muro me permitia e os tons atravessaram os muros e fui brindada pela beleza. Tantas, em nuances e cores…

tantas em formas diversas e de alma.

Chorei perdas, sofri com números, usei máscaras, plantei flores e colhi tudo que plantei.
Aguentei desaforos, solidão, e escrevi…

Escrevi e lancei um livro: Desvios para atravessar quintais. Talvez não tenha conseguido passar nem aqui, nem no livro o ano diferente e assustador que o mundo inteiro viveu/vive… Mas, preferi encarar ele com poesias e é assim que esse projeto chega até você que me lê.

A possibilidade de uma vacina renova a esperança em um ano novo que chega. Não somos mais os mesmos. Não seremos. Há um novo tempo no ar. Isso causa medo e ao mesmo tempo me encoraja a acreditar. Enquanto tudo isso não chega, deixo vocês com a poesia:

“O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.  Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades. Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a
passo. O porta-retratos guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo. O verbo era quase um propósito de espera. As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto. O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.”

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Plural Editora.
Se tiver interesse em meu livro novo, é só chamar (11)99241-5985

Participam desse Projeto:

Participação de 6 On 6 de:
Lunna Guedes — Obdúlio Ortega— Darlene Regina