Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

E o mundo é micro…

Querida Graça,


A caixa de costura ganhou linhas novas. Jogo água nas plantas e busco o botão novo da flor. Todo objeto aqui tem jeito de gente. A tesoura, uma bailarina a ensaiar passos no lençol novo. Alguém confundiu semente com flor e a solidão das coisas apareceu no quintal enquanto garoava. Tudo era a estação errada a invadir o tempo. As paredes inventam nomes rabiscados contando histórias. O micromundo nasce onde ainda há pouco era chuva. Reconheço a figura nova no jardim. Tinha jeito de novidade junto do meu riso e penso que em algum lugar as lágrimas devem molhar as flores. Reconheço o sabor a sal na boca. Toco a brancura da pétala. As flores merecem o afago. Em vez de mudanças, as lembranças cabem dentro das coisas. O Universo é feito de coisas miúdas. O tempo muda e a moça do tempo fala dos próximos dias e eu fico a esperar que mais uma vez ela erre outra vez mais uma vez.

Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

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O boletim do dia…

relata o mistério. Havia dor em qualquer grito. O unicórnio na parede lembra o desenho da minha infância. Cartazes pediam silêncio onde ninguém se mexia. Rascunhos rasgados de cartas que nem foram escritas. O cheiro do verniz limita a distância. A moça de branco procura a veia e agita o frasco onde as purpurinas flutuam na alma.
A menina ri diante do mapa. Conhece o portal da imaginação. O relicário pendurado no peito. Sentia as asas do pássaro como se fosse dela. Via coração em tudo que é flor… Fechava os olhos e cantava coragem. A vida, esse doar incessante de dor.

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A solidão é uma faca…

atravessando a garganta, o grito sufocado na dor. As paredes fechando em todas as portas e o vento trazendo as folhas para o quintal.
Tem noite em que o vazio atravessa a madrugada e o perfume das flores no jardim é apenas o aviso da passagem da lua pela décima casa astral.

A meteorologia erra a previsão enquanto o uivo do cão na rua de cima faz lembrar das coisas da infância — quando o mundo cabia até onde a vista alcançava.

Uma data me traz a presença de um menino que voou…

A vida é esse nocaute duro no peito a embrenhar lembranças do santo, vontades de céu em noite de lua…

Mariana Gouveia
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— as porcelanas empoeiradas…

na mesa de cabeceira guardam segredos que eram repetidos apenas para o espelho. Depois que colocou o pano azul para cobri-lo nunca mais ousou pensar neles. Costurava a garganta todo dia para não cantar as canções daquele tempo em que a maresia trazia o balanço das ondas para o quintal. Vivia todos os dias a metamorfose de se regenerar… na dor. Era a asa quebrada, no vento forte. Precisava da mão para sobreviver. Queria leveza para que não doesse a alma — algumas dores nos fazem mais fortes — para que apenas passasse os dias com suas rotinas.

O medo — ainda bem — é passageiro… dá coragem para pousar, quando é necessário o voo.

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A cadeira esquecida no quintal, a luz da rua sem pretensão de ser, apagou…

A alma saiu pela boca quando amanheceu — perdi a calma no instante seguinte — delirei no arder da pele. O amarelo da tarde povoa o entardecer… dá sentido para a estação do momento. As folhas do algodão caem secas no quintal. Coube na memória os dias de antes e de como a vida era colorida diante do espelho. Vagueia por aqui a borboleta que nasceu ontem. Quase um adereço na flor vinda de longe. Parece um quadro de parede, ela ali, intacta a saborear o néctar ao alcance da mão. Tem dia que o amarelo domina as horas dentro do dia… irradia sol na oração do tempo… é quando adivinho o verbo da cor.

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Previsão do tempo

As nuvens criaram palavras no céu e o pássaro de todo dia renovou minha fé nas pessoas. As flores foram beijadas em outra estação e a meteorologia decidiu o que era explosão em outro lugar – pode chover a qualquer hora do dia – choveu e depois a lua deitou-se nas nuvens. Alguém faz previsão sobre o destino de amar. Pode a solidão vir estampada em dias de chuva? Tudo o que queria era adormecer no mar alto.

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Vi um coração rabiscado no muro.

Desenhei na folha de papel para o menino que eu achava que fazia anos. A flor cabia na docilidade do dia. Na vitrine uma floresta falsa com sonhos de mentira. A torre da cidade-luz exposta como se fosse uma ponte por onde passar e chegar. L’a hamorny no salão da Esquina — tudo tinha coração em cada coisa — até a flor imitava no jardim.

A semente do amor-agarradinho se derreteu pela asa com amor em dobro. Deixava a vida de cabeça para baixo esse tal de amor. Cabia saudade em cada grito. A alma responde em ecos onde nem o coração escuta. Tem dia que o coração se desfaz feito reflexo de lua na piscina quando a luz se apaga.

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dos dias que chovia…

gostava do barulho da chuva no telhado. Parecia um mantra entoado pela natureza. Gostava também das brincadeiras com os irmãos. Faziam cabanas debaixo da mesa… o lampião a iluminar a noite. Os vultos a relembrar as histórias do pai sobre assombrações… Um a um tentando parecer que não tinha medo das coisas. Os grilos, em algum lugar a tocar sua melodia. Lá fora, os raios a cortar o céu. A mãe a contar histórias que lia nos livros.

Um bolo a assar no forno e o chá de erva doce a exalar perfume do instante marcado para sempre — todas as vezes que o cheiro, de uma forma ou de outra invadia os lugares onde passava — e por isso, adorava os dias de chuvas e hoje, dentro da estação das águas, as lembranças traziam saudades.

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dos dias de chuva…

Listei os livros que li. E acabei perdida dentro das histórias de que me lembrava. Escolhi nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas. O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas. As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes. Era uma vez… o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto. As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem ninguém. A lista. As regras. A colheita… perderam-se. As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

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dos pousos

Tem dia que é esse vento morno, feito pouso de pássaro no fio fino do poste da rua, no fim da tarde. Tem dia que a vida vai feito voo de pássaro e que some no horizonte e você fica a buscar a nuvem, ou a esperar que a ave volte e te encante de novo com novos voos e outros pousos. Mas a vida é esse sumir no espaço quando o espaço muda de lugar. Agora, o tempo é outro… o vento chega e vira sopro na alma e de repente você entende que não perdeu os abraços que não deu, mas que perdoou os abraços que não ganhou. Agora, o tempo é de resignar e acreditar nas palavras que o coração traduz em saudades, até o próximo voo.

Mariana Gouveia
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