Querida Graça,
A caixa de costura ganhou linhas novas. Jogo água nas plantas e busco o botão novo da flor. Todo objeto aqui tem jeito de gente. A tesoura, uma bailarina a ensaiar passos no lençol novo. Alguém confundiu semente com flor e a solidão das coisas apareceu no quintal enquanto garoava. Tudo era a estação errada a invadir o tempo. As paredes inventam nomes rabiscados contando histórias. O micromundo nasce onde ainda há pouco era chuva. Reconheço a figura nova no jardim. Tinha jeito de novidade junto do meu riso e penso que em algum lugar as lágrimas devem molhar as flores. Reconheço o sabor a sal na boca. Toco a brancura da pétala. As flores merecem o afago. Em vez de mudanças, as lembranças cabem dentro das coisas. O Universo é feito de coisas miúdas. O tempo muda e a moça do tempo fala dos próximos dias e eu fico a esperar que mais uma vez ela erre outra vez mais uma vez.
Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro estações
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso









