Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Dos verbos indefinidos

Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.



Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora
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Ainda havia tempo para dor.

A cartografia da pele exposta… nervos e poros. A tintura feita a mão para contar as horas.

As portas noturnas acusando a solidão.  Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade. Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo. A voz na garganta é esse grito onde a solidão encontra-se com a minha na esquina da rua de cima.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Tem a flor estampada no vestido…

o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Desvios para atravessar quintais.
Lançamento 28/11 em uma live via Facebook pela página da Scenarium. as 17 horas (horário de Brasília).
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O meu diário

Sábado, dia 28 de novembro de 2020, acontecerá o lançamento do meu quinto livro Desvios para atravessar os quintais, dentro do Projeto Diário das Quatro Estações, pela Scenarium Plural Editora. O lançamento será de forma on line, pelo facebook da editora, por causa da pandemia.

No formato de um diário, fui escrevendo durante os dias dando voz ao que senti. É quase uma confissão de sentimentos, emoções e, momentos. É o meu diário.

“Escrevo o roteiro da viagem e coloco nome nas coisas que toco — dou a tudo isso o nome de poesia. Canção que se repete em mim. O gosto de férias se aproxima e a rotina ganha anotações diárias. Faço listas, cumpro metas. Jogo fora lembranças que só aumentam a bagagem… Preparo sementes para jogar nas estradas. Refaço planos esquecidos…
Hoje, posso mais… varrer as folhas, aspirar as flores, beijar os cães — me imunizo das vontades todas. O sorvete de pistache tem outro sabor… quase uma rusga de felicidade. Houve mudança no tempo. A estação emite sinais. O vento antecipa a queda da temperatura e a febre é só um presságio na ave que beija a flor. Guardo os mapas e recrio instantes que ainda vou viver… “

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
O lançamento será dia 28/11/2020, em uma live via Facebook pela página da Scenarium.  as 17 horas (horário de Brasília). E você já pode adquirir seu exemplar na pré venda. Basta clicar aqui ou aqui

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– Sou eu ali naquelas linhas

Quando o olhar atravessa os muros e o lápis ganha contornos de confidente, sou eu ali naquelas linhas…

– A noite se recolhe gesto… acolhe a geometria das horas e o signo ascendente. Desenho histórias vividas através dos acontecimentos inéditos. Era lua de se perder, em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas e os retornos nos devolviam sempre para o mesmo lugar no mapa onde atalhos não são traços possíveis. E são o melhor da viagem, que começa do lado de dentro. Descubro que o meu nome se repete em outras pessoas, com sonoridade nova. Sou duas e ao mesmo tempo: uma… dentro da minha solidão. E em meio a perguntas que ficam no ar, brinco de roda com o dia porque se existe a lua de se perder na aldeia, existe também a de plantar, cortar o cabelo, de pescar e catar ervas. Qual delas eu sou enquanto escrevo? –

Sou tantas que se misturam em uma só e viaja além do tempo, volta ao passado para viver as lembranças dos momentos e me derramo junto às palavras para então encantar com as coisas miúdas do quintal, com as asas em pleno voo dos pássaros.

Mariana Gouveia
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A cidade de minha escrita

A cidade que escrevo em meu diário atravessa a rua de cima e me leva para além dos limites dela…

A minha escrita caminha por tantas cidades dentro de uma só e não só por ela. Mas dela, eu cito o sol que se põe… a lua mais brilhante e dos desvios sobre os quintais e seus telhados antigos.

Mais do que uma cidade, uma legião delas me inspiram… inclusive, até as que nunca visitei. Mas, quando o sol se propõe a oferecer um espetáculo diferente todos os dias.

“A minha rua tem uma cidade vazia… cheia de casas sem habitantes e com quadros ocos. De vez em quando, peregrinos com ideais de sonhos cruzam por ela. Atravessam seus muros e plantam nos quintais – chegam a abrir as portas e janelas – mas logo vão embora deixando as casas mais vazias ainda e as aves desabitadas penduradas em galhos secos de árvores sem cor. As estações acontecem dentro das horas do dia. A primavera se perde no calor imenso que queima tudo. A minha rua tem uma cidade em ruínas e essa solidão imensa sem você. Nos quintais a esperança foi moída e os mitos que cuidavam dos jardins se desmitificaram todos. A solidão da minha rua tem tatuagem da presença de alguém. Tatuagem desbotada, igual aos grafites feitos nos muros tortos da minha cidade. Tem a maresia rasgada em mil pedaços dentro da noite e tem a vitrola antiga a entoar fados só para registrar que o mar é logo ali, além da esquina.”

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
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O que eu escrevi em meu diário

No meu diário falei sobre os rumores dos dias dentro do que eu vivia ou imaginava. Muitas vezes, vesti a solidão das pessoas e escrevi:

“O homem da esquina contou sobre o pássaro solitário. Nunca havia motivo para voo, nem pouso. Falou que ele ficava ali, parado sem nenhum motivo aparente de alegria. E
que a missão dele era encaminhar aves sem rumo. Que a maçaneta da porta da casa azul foi ele quem fez. Que o pé de amoras foi plantado no quintal em um dia de chuva e que ele ficou ali, com o céu a derramar a água e o cheiro de terra molhada a invadir as janelas onde violetas brotavam… Que a água foi dando vida entre a raiz e a terra e que
naquele dia desejou o pássaro para ser parte da árvore que nascia, pois pássaros nascem para pousar em galhos, onde frutos oferecem o universo no sumo e não para pousar em fio, seco, sem vento, suporte ou sem algo para a fome. Desenhou para mim as palavras dentro do mesmo tempo — a ave e a árvore. Os dois. Entre o reencontro e a perfeição.
Que era assim que tinha sonhado e que passaria a vida inteira a ser ponte para asa e
pouso. Havia quem dizia que era doido — o homem — e que o sonho era tão maluco
quanto ele… Eu, apenas imaginava que não importava o que falassem dele porque
dentro dos olhos dele o céu criava jeito de espaço e morada para pássaros sem árvores.
E que das mãos dele, com instinto de cansaço ainda continuavam espalhando sementes
em dias de chuvas. Em cada dia ele repetia a história… com uma ave diferente, uma
árvore nova e seu quintal se juntava ao meu, em oração pelas aves sem árvores e ele
criava dentro de sua história, um motivo para viver.”

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais.
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As quatro estações da minha escrita

Primavera

Foi sentada na varanda observando o quintal que prestei atenção nos desvios que os pássaros, borboletas e insetos faziam através do muro, em um lado transversal no céu. Parecia uma rota programada. Dali, senti os cheiros das flores, da grama cortada em alguma casa vizinha, do café na madrugada enquanto o sabiá laranjeira anunciava o dia nascendo. Passei pelas quatro estações dentro da minha escrita.

Verão

Escrever não precisa de explicações


Eu poderia detalhar cada mapa e cada imagem… cada planta e cada estação dentro do dia. O sol, esse companheiro que vem e faz sempre questão de mostrar que é verão todo tempo se acanha quando falo de chuva, de lua e vento. Os cães me espanta quando os vejo em pleno meio dia deitados no chão com as pernas abertas como se assim absorvessem a energia emanada dele.

Escrever um diário é entrega de alma e foi isso que fiz. Em delicadas porções fui me dando dentro da leveza das folhas que o vento carregava no quintal. Não posso dizer que ousei. Acho que escrevi cartas e não enviei. Um dia, às vezes, tão igual ao outro e tão diferente dentro de mim.

Inverno

E foi assim que dentro de minha escrita as estações vieram morar. Talvez eu te diga que a primavera é a estação que me encanta… Quem sabe, na rota entre os desvios você se encontre no verão ou prefira a sensação boa de inverno… mas eu entendi que eu moro no outono de mim… Isso me leva à minha infância onde o campo semeado quase pronto para a colheita dourava as manhãs… aquela cor, nunca mais saiu de minha memória. Aquela cor desenhou a bússola que olhei e tracei as palavras dentro de minha escrita.

Mariana Gouveia
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As quatro estações do ano

Primavera

Dizem que as flores esperam que em todos os jardins seja
sempre primavera

Escrever dentro das quatro estações é um processo de conhecimento. Os dias que acontecem dentro delas se misturam em nuances que aproveito nas palavras do diário.

Verão

Aqui, onde moro é verão o tempo todo e poucas vezes, acontecem todas em um só dia.

Outono

O vento, esse mensageiro de poesias

O outono, quando acontece aqui, espalha as folhas pelo chão.

Inverno

Os nomes das coisas antecedem as estações.
Nem era dia de nada e ainda é dia de alguma estação…
Como digo que a flor só nasce na primavera?
E quem sabe se a folha só assopra no vento do outono?
No inverno, o frio é esse vazio de pele, mas e no verão?
Quem cala essa voz que grita?

Denominar cada uma é estranhar o ritmo que acontece aqui. Não sei em qual estação minhas palavras vão te alcançar. É mais do que um diário… É uma rota que tracei e marco você, na bússola que te guia nos Desvios para atravessar os quintais.

Mariana Gouveia
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Sim, eu escrevo diário

Novamente, mais uma vez abro as páginas do meu diário. Dei o nome de Desvios para atravessar os quintais. Cada dia, diante dos muros e sem poder sair por causa da pandemia meu olho atravessava as rotas que as borboletas e os pássaros faziam e com isso eu conseguia atravessar a barreira da solidão e mergulhar nos quintais das ruas do meu bairro.

As lembranças de grande parte de minha infância são retratadas nos dias que se misturam dentro das quatro estações e é nelas que o lápis deu cor ao branco das folhas.

As miudezas do dia a dia… o artesanato que minha mãe ensinou… o amor contado nos segredos das horas… Tudo serviu de inspiração para te contar coisas que a gente só conta em um diário.

Então, te convido a vir comigo nessa rota até onde meu olho encontra com a emoção da escrita.

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Mariana Gouveia
Ph: Pinterest