Corredores, Codinome Locura

Adágio

adagio

Amanheço
pela minúcia das lembranças…

Em tudo busco a palavra que disse :sou tua!
Em toda letra busco o verso que não me dedicou e ainda assim sei que pensa.
Na moldura sem rosto é o teu que sempre vejo

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

Corredores, Codinome Locura

das minhas memórias todas

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seu nome escrito nos muros
sangrando as paredes
onde escrevo saudade
a palavra que não disse
o beijo que não deu
o abandono todo.
O sentir do teu toque na pele,
as borboletas a voar no estômago
das minhas memórias todas
o livro que não li em braile em tua pele
o abraço que não dei em seu dia
das minhas memórias todas, você.

Mariana Gouveia
*imagem: Rimel Neffati

Corredores, Codinome Locura

Era tudo escuro no corredor cinza.

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Cheirava a ossos a nitidez da tarde.
Ela me deu um riso torto enquanto eu esperava.
A solidão entre as pessoas é desigual.
Vivo o silêncio dos gritos.
Era pouco o dia para tanta gente.
A moça de azul desafiou as dores que eu tinha.
A lucidez se perdeu no cesto de frutas e não havia copo para sede.
E de repente tudo perdeu o sentido.
Era estação das flores quando eu acordei e você vivia o inverno.

Mariana Gouveia
*imagem: Lauren Treece

Corredores, Codinome Locura

O jardim não está para peixes

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Ph: Louis Treserras

O jornal não acredita na história dos signos. Pediu para trocar a personagem do meio. Como pseudônimo usou o nome verdadeiro. O editor corrigiu para um nome engraçado. e assim a lua transitou suave pela constelação do agora.
No porta-retratos familiares antigos. Pessoas que não recordam da infância.

Há muita distração na grama do jardim. A história é a mesma. Só muda o nome. Não há conexão com o astral. A demora atrasa o dia. Afinal, o jardim não está para peixe. Eles voam para fora da gaiola.
Ninguém consegue entender a isca.
O inverso acontece dentro de mim.
Hoje a solidão exagera na palavra.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era para ser apenas esse, o nosso tempo.

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Foi escolhido para ser no tempo de agora. Não era para ser pesado nem leve.
Era para ser apenas esse, o nosso tempo.
Ela me mostraria os caminhos que fez. Os 1.700 e tantos kms percorridos. As colinas, os montes, as aldeias que desvendou. Eu, falaria das lendas que criei no intuito de trazê-la até a mim.
Ela me ensinaria coisas que nunca viveu. Eu aprenderia prazeres nunca vivido por ninguém, porque só ela sabia o segredo para tanto.
A mão dela tinha a magia das flores. Tudo era pretexto para o toque.
Quando me tocava, deixava ali, seu cheiro de flor.
É esse o nosso tempo e não havia previsões dizendo quando seria. Nem que horas o portal se abriria para o encanto.
Só sei que, quando aconteceu…
Eu já estava pronta.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Sabiam as hortências do desejo vivido.

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Sabiam as hortênsias da vida líquida
dos seus beijos.
Marejava os olhos com jeito de mar
tão ela, menina de rio.
Cavalgava cavalos marinhos rumo ao oceano.
Os muros dividiam os desejos no quintal.
Não era a hora de amar na concordância verbal do dia.
Chovia – fazia sol em outro destino.
a imagem do paraíso – ela.
Cheirava a amor as palavras escritas.
E a cor da flor resumia o destino da mão
Sabiam as hortências do desejo vivido.

Mariana Gouveia

*imagem: Anna O.

Corredores, Codinome Locura

Era todo o verbo no gesto de amar.

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O pássaro não veio na lógica do dia.
Havia nuvens sem cores no céu. As folhas dançavam com o vento.
Algum vizinho preparou o café. O cheiro invadiu a madrugada e mudou a rotina do dia. Não havia a voz dela a desenhar as linhas da manhã.
O dia tinha tonalidades de arte. Pintura abstrata na solidão das cores.
Vi uma mulher que ria pra dentro.
Marquei mais um século no acontecimento do dia. Relembrei a manhã do pedido e a rotina do tempo. Chovia quando a palavra pronunciada trazia prazeres.
Faltava o ar na maioria das vezes.
Era todo o verbo no gesto de amar.

Mariana Gouveia
*imagem: Craig Gum

Corredores, Codinome Locura

Quando o mar invadiu…

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minha janela
eu já era plena de riso
Já era nua e o vento, meu
Peguei a onda pelo cabelo
e os peixes, em delírio de estar
era toque de mão no corpo todo.

Quando o mar entrou em minha vida adentro
trazendo a maresia para a moldura da sala
eu já era poesia na palavra dela

Quando o mar me amou
eu já era marítima e mais nada
eu já era puro amor de mar.
E já não podia ser de mais ninguém.
Só dela.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Deu-me mar em imagem…

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Azul…ondas a balançar aqui e ali.
Corri para ouvir no búzio colorido.
O mar cantou para mim.
Deu-me o saber da distância. De uma falta que nem sabia que havia.
Do gesto de buscá-la. Do afago, nas coisas que li.
Revi toda a palavra e fiquei sem.
Isso acontece quando o encanto é maior do que se pode dizer.
Corri em todo canto e só seu nome entoava a brisa em mim.
Era a delícia antecipando a vida.
Como pode sentir falta do que não se tem?
Era a onda a chamar.
Tivesse vento e barco, eu iria.
E pintaria de azul céu todas as noites com ela. E para o amanhecer, eu alaranjava o dia.

Mariana Gouveia
*imagem: Anka Zhuravleva

Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Septum – Primavera

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…“ para aquele imaginário
em ebulição que desarruma o
‘concreto’…

Mais um dia se encerra em meus olhos…conta-se em algum lugar – como se fossem moedas – um punhado de minutos e um bando de euforias. A noite acontece ao mesmo tempo que a palma de uma mão estendida no ar cresce aos meus olhos. Admiro entre as linhas meia dúzia de moedas: douradas e prateadas.
Não se pode comprar o tempo, mas muitos tentam suborná-lo.
Era apenas um menino que me fez passar a limpo toda a minha vida anterior…revisei minhas notas, que são muitas, porque sempre deixo acumular as coisas, mas em algum momento – dentro da noite – eu me dedico a passar a limpo esses rascunhos.
É quando eu reescrevo páginas inteiras…reorganizo os espaços mentais e consequentemente tropeço em lembranças…
Sempre que me sento para escrever eu reviro minha pele, meu passado… sinto aquela velha monotonia que descobri no fundo de mim nos dias de infância.
O olhar enrosca-se facilmente em certos cenários: o balanço vazio, as mesmas mesas na biblioteca, a casa vazia, a rua silenciosa no começo da noite, o tabuleiro de xadrez pintado nas mesas da praça…
Eu sempre tropecei em ausências, solitudines…
Sempre encontrei a palavra nos meus cantos secretos e favoritos. Às vezes, sinto como se meus passos – pelas ruas da cidade – me levassem de volta sempre ao mesmo cenário…me aproximo da mesa, das peças e atravesso a ilusão que a vida molda, para que o diálogo não seja um poço onde se atira moedas para si mesmo. Avanço o peão…concedo o próximo movimento…e me coloco em estado de espera!

Notas de rodapé – gosto das madrugadas frias, com cheiro de chá quente na xícara… vinho na taça – um gole ou dois e os sabores se precipitam – gosto de um som a dizer suas notas e a pilha de livros a espiar-me, como se dissesse: leia- me. Gosto de ver os envelopes vazios… com suas cores a dizerem possíveis destinos.
Meus mapas são outros…eu me movo através de elementos particulares. Vou de uma esquina a outra em busca de uma mesa de canto do mundo, da vida e do corpo. Cheque mate!

Lunna Guedes
Diário das quatro estações – Septum – primavera
Pág: 77

Quando Septum se abriu aos meus olhos eu mergulhei dentro do imaginário de Lunna Guedes. Não fosse pela delícia de vasculhar as palavras que tão bem me tocam seria pela jogada de mestre de Lunna de nos prender ao seu mundo. As histórias nos envolvem a ponto de acharmos que a história é nossa e que o personagem pode ser eu, você ou alguém conhecido… Septum traz a magia do sete. Do mês da primavera, do idioma diferenciado em explorar nosso pensamento na melhor forma de desvendar os mistérios onde os brancos são preenchidos entre o encanto e os gestos.

Septum é esse gesto pronto de entrega.

Lunna nos presenteia e oferece dentro das estações a sensação plena delas. Septum é o próprio presente do Outono e a docilidade da primavera…A sensação de sentir na pele o inverno e se aquecer no verão.

Então, te proponho um desafio: que você não se perca dentro das palavras. Ela sabe como surgem os personagens.

A jogada está dada. O próximo lance é seu.

Mariana Gouveia