Corredores, Codinome Locura

Todo mar é essa estadia

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Ph: Alessio Albi Photography

Todo canto é essa árvore gesticulando folhas. É esse farfalhar de vento derramando gestos no quintal. Toda árvore é esse canto esparramando mar. Trazendo a maresia e os peixes para dentro de casa. Todo mar é essa estadia dentro do peito onde as ondas chamam seu nome.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

O silêncio aumentou tanto que o relógio parou

“Mil anos que escrevas”, disse, “não saberás a quem”

  Maria Gabriela Llansol

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Querida Ana,

Eu já li em algum lugar o quanto é difícil escrever em primeira pessoa. Falar até eu falo – Eu falo comigo mesma e quase que o tempo todo e no fim, vem a ser você – mas escrever é mais complicado. Por isso, terei cuidado em escrever para mim e falo com você.
Escrevo essa carta na solidão do agora. Volto aos corredores quando eu não estava contigo. As paredes vazias de cores.
Você distrai nas palavras antigas. Escreve poemas na mente enquanto as pessoas de branco, anônimas, quase, passam e desviam o olhar. Não querem ver a solidão dos seus olhos. Abrigam-se em seus jalecos como se procurassem no bolso a fórmula de ser invisíveis.
Eu não estava ai e nem sabia que os corredores nos ligavam e que a palavra cura viria em minha boca quando você nem sabia das promessas de beijo que  dedicaríamos através dos séculos.
Hoje, atravessamos juntas os corredores do tempo. Transpiramos emoções.
Hoje, o relógio para dentro da solidão desse silêncio. Aqui também as pessoas desviam o olhar enquanto medem a pressão, temperatura e procuram a veia melhor para o procedimento. Já vivi isso antes e parece que tudo está se repetindo – os mesmos gestos, os mesmos olhares e a mesma resignação de antes – e ainda assim é tudo diferente.
A sala está vazia e a moça que está sempre por aqui antes de mim não veio. Ela melhora o ambiente com o lenço vermelho que eu sempre brinco que ela roubou de mim. Contou-me coisas da vida dela. Meu deu risos de confiança e durante um momento difícil segurou minha mão e cantou canções para eu dormir.
No fim de semana as coisas acontecem devagar. Em algum lugar, toca uma canção do momento. Um celular dá o bip de alguma notificação e eu conto os minutos. Queria que tudo fosse rápido e passo a vigiar o relógio diminuindo o tempo que falta.
Não queria falar sobre isso, nem com você nem com ninguém…mas sinto que te tranquilizo quando repito que a esperança fica aqui do lado da porta e sai comigo de mãos dadas quando tudo isso acaba e daí, durante a semana me faz companhia todos os dias, exceto quando atravessa o oceano e vai até você.
A moça de branco repete os rituais e parece indiferente ao meu olhar. Volta os olhos para suas anotações em uma ficha que tem meu nome e um código que não define o que tenho. Confesso que isso, todas as vezes, me lembra Clarice e seu poema : “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome” e como eu não sei o nome posso dar o nome que eu quiser.
Agora, preciso ir…a esperança, às vezes, é impaciente e serelepe igual criança.
A vida é esse bem precioso que se torna muito melhor quando temos a certeza da presença de alguém que amamos, mesmo tão longe.

Beijo,

Mariana

Projeto Missivas
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Transcendental

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Dentro dela, o infinito
a pétala suave
o toque íntimo

Dentro dela
o universo inteiro
em pólen e flor

Dentro dela
delírio
Transcendental
coração que bate

pele que sente
(arrepio)
Dentro dela
desejos

Eu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Comecei a anotar a importância das coisas…

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O riso solto e gargalhado da filha da vizinha. O céu todo cheio de nuvens.
A cor da flor que nasceu no meu quintal.
Não fui eu quem plantei – penso – mas acho que veio pelo bico de um pássaro que também faz parte das importâncias aqui.
Comecei a ignorar rotinas. A ler histórias para a senhora da rua de baixo, que não pode andar e fica com um riso de orelha a orelha quando me despeço dela.
Comecei a dar importância para os sons.
Agitos da natureza no meu lugar.
Um pássaro peregrino que senta no telhado e fica ali a espiar os cães. Uma ave moradora daqui que sabe que se voar baixo corre riscos.
Os cães que sempre me olham quando veem um pássaro no quintal.
Eles sabem a importância que dou à asas.
Aprendi a dar importância na vida.
Essa que respira e me toca sempre quando a manhã me abraça e a noite me conforta da saudade maior que meu coração sente.
Comecei a ser importante.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

As minhas mãos…

As minhas mãos

nasceram para desenhar em tua pele minhas digitais…
Os meus dedos,
para aninhar em teus dedos
como se parte deles fosse
o meu toque.
Vasculha você mesmo sem presença,
porque assim sou eu em você.
Leitura de quem não vê
mas entende.
Teu toque em mim
desperta superfície plena
de supremo desejo e prazer
Você,minha leitura cega
que leio e saboreio fome e prazer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Pé de vento

Pé de vento
Ph: Karrah Kobus

Minha mãe dizia que o vento era leve – como paina que vira travesseiro para os sonhos – e que carregava os medos e os sonhos maus.
Era coisa para se apaixonar esse tal de vento.
Um dia, eu quis aprisioná-lo. Só para mim…Leveza era bom ter guardada para as horas difíceis.
Peguei uma garrafa e coloquei no meu quintal – no meu quintal, tinha um pé de vento – e fiquei horas ali a esperar que o vento entrasse garrafa adentro.
Foi quando minha mãe percebeu minha intenção e disse que vento era para ser livre. Tinha de percorrer lugares, levantar saias das meninas e só assim o vento tinha razão de ser. Minha mãe, em seu estado de fé, me disse que o vento era o Espírito Santo e quando eu quisesse que ele aparecesse, bastava assoviar. Era uma mandinga para fazer ventar. E ainda por cima, cultivar a fé na leveza da alma. Tem sido assim meus dias. Todos os dias, quando acordo, a primeira coisa que faço é ir ao meu pé de vento. Assovio e o dia ganha a magia da leveza, por mais que as coisas aconteçam contrário ao que tenho vontade, quando vejo as folhas dançando ao som do vento, percebo ali uma força maior.
Que ganha imensidão, viaja e chega até a mim como cisco voador

Nas janelas, os mensageiros do vento diz que é impossível controlar o que é livre e se um dia quiser controlar a liberdade vá ao centro do quintal, assovie e achará o caminho do paraíso.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Minha cena e a tua

 

a tua pele que me queima a pele
a tua mão tatua
minha mão na sua

a tua boca molha minha boca
que me deixa louca
e insinua

a vontade plena de misturar minha cena
e a tua

o meu corpo pede
sente tua sede
transpira, inspira

prazer, enfim
eu me embriago
sobre meu desejo
sobre o teu beijo

e a asa leve flutua
onde o meu braço cabe
no abraço que só você sabe

assim de mim

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta de amor explícito

carta de amor explicíto

Querida A.

É quase um absurdo amar e apaixonar – me dizia meu professor de teatro – cometo esse absurdo duas vezes. Amo Thereza e sou apaixonado por Ana.
Estávamos ensaiando um monólogo – A menina do tapete e o menino do girassol, onde eu lia algumas cartas no palco no desenrolar da peça.
Apenas no dia da estreia é que descobri que as duas era a mesma pessoa. Ana Thereza e que a peça foi uma declaração de amor para ela. Era um amor especial.
Eu sempre repetia a ele que queria um dia um amor daqueles para mim, porque havia uma magia quase transcendental entre os dois. Presenciei dias seguidos a química que havia ali.
O tempo nos levou para caminhos diferentes e o teatro ficou só no sonho mesmo, apesar do sucesso da peça. E de Theodora, a personagem, ficar gravada em mim, desde então.
E hoje, eles vieram em minhas lembranças pelo simples motivo de sentir aquela mesma magia e venho declarar a você meu maior absurdamente amor explicito.
Primeiro você me trouxe o encanto em buquês de poesia e coração. E a sensação de amplitude foi tomando meus espaços todos e quando percebi já era você por inteira. Em palavra, corpo, alma e desejos.
Com você eu dancei na chuva. Pulei ondas. Em um corredor esplêndido, fez meu rio virar mar e me deixou plena de maresia.
Saí pela noite a desenhar estrelas em seu corpo e vez por outra embriagar de paixão. Absurdamente.
Embriagada, eu conheci a felicidade em teu riso molhado dos meus beijos. A boca estava ali, ao alcance do toque. Bastava fechar os olhos e sentir.
Embriagada, eu sentia tuas mãos a me buscar e nesse momento, o prazer era dos mais extraordinários que vivi. A palavra é essa, querida. Extraordinário amor.
Com você conheci caminhos nunca antes percorridos e neles me perco para me achar de novo dentro de você nesse desalinho mágico de viver o amor, onde descubro que tudo que vivi até hoje, foi para respirar esse momento pleno.
As minhas manhãs ganham o encanto do seu nome e minha tarde enrola na saudade sentida, até cair de novo em seus braços em fim de tardes ensolaradas e noites de chuvas.
As estações vivem todas aqui, dentro de mim. Quente, frio, calor, desejos, flores e cores deslumbrantes com as quais você me pinta. E há um canto nascente dentro da minha alma onde pinta estrelas no meu céu. Esse mesmo céu onde voo para pousar em sua boca e seu corpo, meu amor.
E por onde passo derrama corações sobre meus pés.
É infinito esse sentir e não é de agora. Já era desde sempre e será. Porque o o extraordinário foi feito para ser sempre.
E assim, te amo todos os dias na delicadeza dos instantes. Na borboleta que faz amor com a flor e se encanta pelo cheiro. Te amo na chuva que cai, no sol e no mar onde me envolve no mais doce viver.
Se isso se chama felicidade então eu a vivo plena todos os dias.

Eu te amo em todos os idiomas existentes e até naqueles que eu inventar.

Beijo meu,

Mariana

Corredores, Codinome Locura

Do intenso delírio de te amar

Do intenso delírio de te amar

Eu não te amo nem mais nem menos
do que o muito variado intento
te amo aqui, além do pensamento
e muito mais do que o coração
cabe em cada vácuo dele, em cada solidão

te amo mais do que eu deveria
de te pensar em delírios todo dia
e te querer a todo custo agora
passear por onde você mora
te amo, assim, a mais do que cabia
na alegria de te amar eu deveria
te amar assim, na solidão das horas

Do eu quero, penso e te possuo
nos pensamentos ardentes, fugazes
de cores desvairadas, escritas em cartazes
eu te amo, assim, beirando a loucura
e ao mesmo tempo em cada ternura
eu te amo e vou te amar cada vez mais.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Feliz Tudo Novo

faria tudo de novo

Ah,eu faria tudo de novo.
Nesse ano que passou,eu me envolvi.
Me envolvi por olhos, por palavras, por mãos, por coração.
Me envolvi por desejo, por beijo, por paixão
Eu chorei, eu ri, eu amei…
eu amaria de novo o mesmo amor
eu sofreria a mesma dor
eu sentiria a mesma falta
cantaria a mesma música, e declamaria o mesmo poema.

Eu envolvi-me em palavras
eu mergulhei nelas.Tive perdas, tive ganhos, errei, acertei
mas amei…amei intensamente
daqueles amores que ficam gravados,cravados e você pensa como viveu sem ele até então.

e emocionei e amei…e amo

faria tudo diferente, de novo.
Falaria as palavras certas, e erraria de novo
e escreveria seu nome mais vezes e gritaria mais vezes que te amo.
E já é novo ano.
e tudo se repete e tudo se renova
e tudo é esperança e tudo é equilíbrio
e tudo é. E não é.

Talvez chore de tristeza, talvez chore de alegria
talvez me desnude, me cubra
me solte.
Mas de uma coisa tenho certeza em toda intensidade
de qualquer forma serei eu.
Com defeitos (esqueça-os)
com qualidades (enalteça-as)
com todo amor que meu coração absorve por você, por ela, por ele, por tudo, pela vida.
Que seja a hora de repetir ou de refazer e a hora de criar.
Que seja a hora de ser feliz.

Feliz Ano Novo a todos que vierem aqui.

Mariana Gouveia