Corredores, Codinome Locura

A minha mãe costurava.

Fazia colchas de retalhos que, normalmente iriam pro lixo. Daqueles pedacinhos de pano saiam mantas que quase parecia as páginas do livro que quero um dia escrever, de tão bonitas que eram.

Eu ficava horas ao lado dela vendo-a emendar os retalhos e eles se transformarem em figuras feito retrato costurado.
Lembro-me que ela dizia que costurar era como fazer amor com a máquina. Isso a preenchia…minha mãe vivia plena de tudo, quase tudo a preenchia. Ouvi muitas vezes ela dizer isso ao costurar, ao cozinhar, ao bordar, ao cuidar da horta…

Pegava um pano simples e bordava ali, sonhos… Para mim, um dos momentos mais lindos era a hora de colocar óleo nos pedais. Ela calava a máquina do choro de ranger correias besuntando as dobradiças que haviam e a máquina se calava…

Enquanto costurava ela cantava. Era quase um mantra a canção na boca dela. Eu, do meu cantinho de filha ficava desenhando na mente aquele momento para que durasse feito retrato. Nem respirava.

Quando ela não estava costurando estava sendo plena de qualquer outra coisa. Sendo mãe. A máquina, ficava ali, parecendo sentir saudades do amor que fazia com ela, com seus pedais quietos que parecia gritar. Com seus apetrechos descansando em cima, a tesoura, o ferro de passar cheirando a carvão e a canção de ser plena em qualquer lugar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Agreste

Agreste. Agreste

Meio agreste,
meio teste.
Calafrio, arrepio.]

De você só quero o toque,
me provoque
mate a sede de prazer.

Me domina, me ensina
e deduz que tenho medo
meu segredo]
alucina
eu, menina
entre seus dedos

E onde a luz brilhar
o seu olhar.
O meu sertão é você
Um deserto de paixão

escondendo o coração
só pra saber.

Faço pose, entro em close
pra mostrar que quero mais
me perdendo em pensamentos
é você que no momento
me traz paz.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

O necessário é voar

A tarde chegou ligeira.
Era proibido esperar.
Ficava ali avisando o voo do pássaro e repetindo gestos do passado.
Amanhã ela vem – dizia entre a angústia da espera e a certeza de que erraria – de novo.
Ontem esperou o gesto da fruta. Respirou a gota que não choveu. Bradou junto com os trovões a fisiologia da falta.
Gritou o nome dela de novo.
Era preciso vigiar o voo…quem sabe, amanhã o destino muda.
O mês é outro e há expectativa da lua.
Um decanato inteiro propício à asas.
Revolta-se no amor que enviou. Feito envelope com fitas. Tudo da cor que ela gostava. Até de azul pintou o céu. Esparramou tempestade no sopro.
Alguém avisa que já é hora de ir.
Muita confusão no fuso do dia.
Já foi essa mesma hora em outro lugar.
Abriu um portal na dimensão do agora.
O necessário é voar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Bi_polar

Bi_polar

O meu amor tem o ocaso do dia e o amanhecer vibrante

em mim.

Tem a delicia plena de menina e é tão senhora de mim.

O meu amor duplica em mim as maneiras de amar.

Ora terna,suave.Outras,selvagem,ânsia…furacão.

O meu amor desperta em mim a loucura dos vendavais e a mansidão da brisa.

O meu amor é espera e ao mesmo tempo chegada.

É anúncio de primavera e encantadora como o outono.

Traz calmaria e tempestade.

Meu amor é bipolar.

Frio,calor.

ternura e desejo ardente.

Volúpia e a doce tentação de entrega.

O meu amor é pleno,é tempo,é hora e ao mesmo tempo,

segundos.

O meu amor é por quem todo dia eu morro…

ah,e por quem eu vivo a cada instante.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Esboço do 6º sentidos

Esboço do 6º sentidos

Quando te toco
a textura da pele
as digitais
o arrepio

Linguagem

Quando te provo
minha língua sente teu sabor
e a sensação de fome amplia

Vontade

Te ouço e a melodia se faz em tua voz
e não há mais nenhum som tão perfeito que eu queria ouvir

Sintonia

Antes mesmo de chegar
já sinto teu cheiro
Suor, corpo
desejo

Sabor

Te vejo nas molduras dos retratos
nas palavras escritas nas paredes
declarações de amor

Eterno

Esboça em mim o 6º sentidos
As misturas de tudo quando penso em você.

Ler uma  palavra e sentir o gosto de um beijo que ela representa,
ou escrever uma letra e relacioná-la com teu nome ou a cor de seus olhos.
Sinestesia de tudo que se relaciona em você.

Paixão

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à minha mãe aos cuidados das lembranças.

Carta à minha mãe aos cuidados das lembranças.

Sabe, mãe. Os dias voam tal qual as asas das borboletas e como as nuvens em dia de primavera aceleram e vão se tornando semanas, meses e anos.Você se lembra de quando eu perguntava qual dia era hoje e você sempre me dava motivo para aquele dia ser especial? O dia tinha o nome do santo, a estação vigente dentro dele e um ensinamento que vinha com a frase de alguma coisa que você leu em um livro ou em uma fotonovela.

Você guardava as datas como jóias. Eu sigo igual.
Conto os dias com a intensidades deles. Mas, o dia de hoje, eu preferia esquecer. Marca a sua partida daqui. Eu, ainda menina, vivendo dentro de uma adolescência e você se foi.
Tenho raiva da data – você sabe – e muitas vezes, me vi rasgando o mês inteiro da folhinha.

Dias desses, abrindo meu baú de lembranças achei a última carta que enviou para nós. Tenho ela guardada ao acaso. O cartão de aniversário desejando dias felizes e junto, a carta que ia enviar para a rádio solicitando a música que você sempre dedicava ao meu pai e que não sei por que, veio junto no envelope.

Foi de você que peguei essa mania de cartas. Você ia gostar de saber que até hoje, eu ainda continuo a escrevê-las. Espalho as palavras mundo afora e com isso cultivo amigos que são alento para mim em dias difícies e companhias adoradas nos dias bons.

Já são 33 anos. E todo ano eu te escrevo pelo menos duas vezes no ano. Nos outros dias, eu converso com você através das coisas que faço.
Sua família cresceu, mãe e seus netos, alguns que você nem conheceu já são pais e mãe,
Acho que você iria gostar de ver seu jeito em cada um deles.

Você permanece viva nas lembranças e quando falamos de você fica um pedaço em branco daquilo que você não viveu, mas também fica uma presença enorme do amor que você nos dedicou.

A vida é hoje – lembro-me que dizia assim – e se cochilarmos amanhã já não será amanhã. Continuo seguindo seus ensinamentos. Me vejo repetindo gestos que você fazia, frases que você dizia e como resposta, vejo meu filho responder as mesmas coisas que eu te respondia.
Será a vida este eterno reinicio, mãe?

Acho que iria gostar do que me tornei. Agarrei-me a arte como meio de te fazer viver dentro das poesias, das histórias de amor que você gostava de ler. Do artesanato que você magistralmente criava e dos sonhos que tantas vezes revelou. Aprendi de verdade os pontos que me ensinou e crio colchas de retalhos que já atravessaram o oceano. Bordo esperança em orações que viajaram para outros estados.

Ainda me encanto pela magia dos contos que você criava e de como nos fazia sentir dentro de um na rotina dura de ser mãe de sete filhos.

Busco equilíbrio na fé. Na mesma que você repetia e tenho a mesma mania das suas superstições. Talvez nem acredite tanto nelas mais, porém, falando delas é como se prolongasse os instantes teus em nós.

E como você um dia disse que minhas poesias – tão infantis na época – estariam em um livro, venho te contar que já estão.

Talvez eu seja a mesma sonhadora que você foi. Talvez eu pense da mesma forma que você pensou – de que só a arte possa salvar as pessoas e de que através da arte a gente possa chegar no coração delas – e é assim que sigo meus dias, mãe.
Levando ao outro o sentimento do amor.
Dividindo instantes que acho mágico através das imagens que confesso, às vezes, penso ser você que me envia tanta beleza nos momentos que vivo.

Hoje, doo de mim, as palavras, mãe e você que precisou tanto de uma doação e se foi antes que pudesse ter tido a chance de mais dias.

Termino essa carta em oração para que mais pessoas possam doar rins – que foi o que você precisou – sangue e que outras mães não precisem ir embora tão cedo.
E que eu possa, nas palavras de amor que espalho estar cada vez mais perto de você.

à benção, mãe!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Mania do destino de escolher dias longos para doer mais

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Um homem toma posse de nada. A vida amanhece plena de saudade. Era domingo, os dias iguais sem ela. Quebra a caixa, destrói as sementes todas – lembranças perfumadas. Vidas plantadas – que ela deixou. Não há vestígios de vida no jardim. Só gritos internos que habitam o silêncio de mim.
Pétala por pétala exposta em cheiro na mesa. A mesma mesa dos desejos todos. Da fome de existir dentro dela. Esqueceu de brotar na folha do canto. A flor preferida não resistiu ao calor. O inverno aqui é quente, seco, sem umidade que precede raiz. O doce, no canto, apenas faz figura da palavra perdida. Era doce a vida. Era. Por desacato a flor avisa mudanças. O halo de cheiro invadindo quintais. A música toca. O pássaro canta. Parece que ri. Mania do destino escolher dias longos para a saudade doer mais.
Histórias iguais a sua contada em poesia. Era ali, no livro marcado no poema que ela leu que mais doia existir.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sob o signo da borboleta

sob o signo da borboleta

A neblina avisa os rumores do dia. Há estações de flores no quintal da vizinha.
No horóscopo o signo oscila entre o voar e o pouso.
Sente falta da flor. Busca abrigo de pele nas lembranças. Sofre influência sob o signo da borboleta. A lua em Sagitário possibilita essa viagem vazia. O acúmulo de emoções me entorpece.
Rabisca os mapas que sempre me leva de encontro a ela. Saqueia todas as vontades do peito. Hoje, o sol, pareceu a lua pela manhã. Cantos matinais parecem mantras. Repete a canção e repete.
Faz chover sobre o jardim criado. O cheiro das folhas do tomateiro se banham de fragrância.
De novo, quase sofro uma recaída. Retomo as vontades da sede. Esvazio a saudade nas lembranças.
Pego a roupa esquecida e falo com ela como se estivesse aqui.
E está. Dentro. De mim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Rotina

RotinaO dia passou na intensidade das horas.
Choveu. Trovejou. O céu rugiu por aqui.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Casulos se espalham pelo quintal.
Conto os dias e repito. Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito. Surreal as palavras que dançam, brotam e mesmo que eu apague elas estão ali.
No jardim, nasceu mais flores.
A vizinha escuta Bethânia. A lua hoje não saiu.
As horas passam como se não chovesse. Confiro mil vezes a sua presença.
Não há. O que sopra é apenas instante do nada.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Teresa

DSCF4844Linda T.

Acontece mudanças no meu jardim. Migrações de formigas entre os canteiros me lembram as palavras do meu pai: formigas mudando é sinal de chuva.
E não é que aconteceu? Caiu a maior tempestade aqui. Tive de mudar as coisas todas do lugar. O pé de amora perdeu seus frutos – ou quase todos – o vento não foi companheiro dessa vez. Até um ninho que havia lá, caiu. Sorte que os filhotes haviam ganhado asas dias atrás.
Mas como sempre depois da tempestade, vem a bonança o sol amanheceu radiante. Não veio o frio anunciado pela meteorologia. Está o mesmo sol de sempre e os quase 38º às 10 da manhã.
A vida acontece ali fora. Um céu azulinho que vira poesia só de olhar e as nuvens que passeiam por ele como se fosse um desfile.
Vejo nelas figuras estranhas e algumas que parecem coisas, animais. Já brincou de descobrir desenhos em nuvem?
Faço isso sempre – confesso – e descubro algumas engraçadas. Em sua maioria, vejo corações. Aliás, há coração em quase tudo que vejo. Desde uma folha seca que voa, ou alguma flor que brota no jardim. Também nos grafites dos muros.
Vejo corações por ai. Até em nossas conversas, na despedida, sempre me envia aquele coraçãozinho rosa que arranca sempre um riso de mim, depois do beijo e na despedida.
Hoje, lembrei da história do teu nome. Quantas histórias podem encerrar um nome e percebo que a sua tem a docilidade de avó bordada nela. E como leva o nome da padroeira das flores é assim que te rendo homenagem.
Flor colhida no jardim. Um gesto que viaja através das letras e atravessa o oceano na acolhida doce da amizade.
Que ao ler seu sorriso seja de ternura e que sinta nas palavras meu carinho.

Beijo meu

Mariana Gouveia