O lado de dentro

Ave, Maria


Quando é ave
é poesia
Ave, Maria cheia de cor
ave de espaço, de fé na vida
Ave, alegria cheia de amor

Ave Maria
e o canto ecoa
ave que voa

Ave Maria, cheia de árvore
invade a minha casa,
meu corpo e eu, em ventania
ergo a mão em prece
Ave Maria cheia de amor
no jardim que colore o dia

Ave Maria, cheia de sol
que brilha,
que contagia com seu calor
Ave, Maria cheia de tanto
meu canto é seu
Ave Maria cheia de flor

Mariana Gouveia
O Lado de dentro

Corredores, Codinome Locura

Final feliz


Tem jeito de anjo, a moça
mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém
Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas e pensa em salvar o final feliz da história.
Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)
exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz
e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

 

Corredores, Codinome Locura

Isso foi bem no dia da dor.

Isso foi bem no dia da dor.
As histórias que eu ia te contar esqueci.
Apenas recordo de passagens curtas do livro que eu lia.
Havia qualquer coisa de viagem – não lembro bem –
Alguma coisa apitava forte, falta de ar.
Pessoas correndo e eu confusa.
Não havia flores na veia, pareceu que ouvi alguém dizer.
Paredes brancas, rostos estranhos.
Pediam-me calma e estranhamente eu estava, calma.
O jardim ficou sozinho, e as flores que abririam naquele dia fecharam seus botões.
Não lembro disso, mas falaram que foi no dia da dor.
Essa falta de memória me busca na solidão das horas e eu não consigo esquecer.

Mariana Gouveia

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Meu quintal…

Meu quintal


… tem um portão mágico para a poesia.
Lá, a vida acontece em instantes únicos
E supremos.
… é onde a realidade ganha ares de encantos.
E onde casulos viram borboletas!

Mariana Gouveia – O lado de dentro

O lado de dentro

Invasor

Invasor


Chegou como se fosse dono.
Ficou.

Trouxe no bico o canto
a sede.

Nos espaços – a asa
Na liberdade – aconchego

Não havia marcação
território livre
apenas a doçura
nos plásticos das flores

Invasor, intruso
e domina a arte de conquistar
o riso.

 

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

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abe, pai. Quando ouvi essa palavra pela primeira vez foi como se eu fosse marcada pela força que ela emana e descobrisse que ali, naquelas três letras estava todo amor definido.
A pronúncia, entre balbucios e riso e teu olho cheio de água plantou em mim uma árvore da qual me espelho até hoje.

Virei essa árvore e a minha raiz vem do alicerce forte que você me deu. E quando por vezes uma ventania espalhava minhas folhas vida afora, eu me agarrava na certa de que minhas raízes estavam seguras no amor, no exemplo e no amparo que você sempre me deu.

Muitas vezes, quando me rebelava em meu espírito de filha, você me mostrava caminhos, indicando-me onde era mais fácil trilhar. Por mais que eu me perdesse nas buscas, sua mão estendia-me a direção.

Me ensinou a ter consciência das perdas que por vezes tive.
Ensinou-me a valorizar cada ganho e principalmente a ter respeito por tudo. A vibrar com vitórias sem parecer prepotente. A vencer sem derrubar ninguém. Me ensinou a ser eu. Tão própria dentro do meu mundo e tão raiz tua.

Te desenho hoje na simplicidade dos dias. Você, pai, de sorriso largo, de persistência intensa. Com toda vontade de viver exemplifica o amor incondicional.

Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia

 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao meu filho aos cuidados de julho

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 Oi, filho,


Hoje retornei às minhas lembranças. Revi os dias que antecederam tua vinda ao meu mundo. E depois daquele dia em que me vi grávida, nunca mais fui só, por que desde aquele momento você passou a ser parte dos meus pensamentos.
Ainda na barriga, resguardado do mundo aqui fora, a ansiedade era ver como você seria.
Os dias e os meses antecipou tua chegada um mês antes do previsto. E de repente, você se tornou nossa vida.
Os primeiros dias, os primeiros meses, o primeiro ano. A primeira palavra, a ida à escola… e você se torna cidadão do mundo.
Cada descoberta era uma magia em nós.
Eu e seu pai fomos seus adversários nos jogos, até tênis inventamos de jogar, para te dar uma atividade única.
Você foi se transformando com o tempo. E cada conquista tua era a nossa também. Sofremos juntos suas dores de amor. Rimos juntos das piadas às vezes sem graça. Até torcer para seu time nós torcemos, só para te ver feliz. E quando ele perdia, dávamos-te a lição de que perder faz parte.
Hoje, relembrando o dia em que você nasceu, há 26 anos atrás, eu sabia que seria a última noite em que eu dormiria tranquila, por que depois de você, as minhas noites seriam povoadas de você. Se tava dormindo direito, se tava com frio, se havia comido antes de dormir. E rezava/rezo para Deus te proteger.
Te criei envolvido na poesia. Te apresentei os livros. Mas, antes de tudo te dediquei amor.
Embora hoje, você seja um homem, com personalidade forte, dono de si, para mim e seu pai, você ainda é nosso menino.
Filho, a vida nos leva por caminhos que talhamos e são nesses que caminhos que desenhamos nossa história. A sua história é escrita dentro da nossa e sem você nossa história não teria momentos tão bonitos para mostrar.
26 anos se passaram desde quando você nasceu e foi aí que nós nascemos para a vida.
Te amamos infinitamente

Mariana Gouveia

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Ave, flor

Ave, flor


Ela trazia na mala seu gosto de Flor
bagagem única que na noite tocou minh’ Alma
Sua cor destoava do meu querer
por que eu a queria colorida,
plena,
estame, orvalho, saliva
semente de mim.

Pólen que espalha sensações
do bem querer –
essência

Quase uma oração:

Ave, flor!

Mariana Gouveia – O lado de dentro, pág, 12
Scenarium Livros Artesanais

O lado de dentro

Ave, sou!

Ave sou

O dia estava disfarçado de chuvas.
Ave, reza…


e eu caí para dentro de sua sede
Fui saliva corpo adentro.
Ave, bem…

Te vi … tal qual textura no espelho
na estranheza das estações
no desaguar das nuvens.

Ave, sou!

Mariana Gouveia –
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao meu pai, aos cuidados de Junho

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Oi, pai.

Eu vim dar notícias de Junho. Maio passou tão ligeiro. Nem sei se você percebeu os dias. Mas Junho aqui chegou quente. E com seu aniversário, pai. E sigo o ritual de todos os anos. Faço a oração para Deus te proteger e meus pensamentos voltam para Junho. De todos os meses, Junho é o que mais me toca e você sabe o porquê.

Eu sempre me lembro da minha infância, pai e tudo que me marca nesse mês são as festas juninas. A alegria com que nós festejávamos os dias, era especial.  Além da festa por si só, os rituais que você seguia me leva hoje a repetir quase todos eles. A devoção cristã e a fé que te fazia levantar o chapéu sempre que pronunciava o nome de qualquer um deles.

Logo de início, o dia dos namorados envolvia laços e simpatias. A reza para que Santo Antônio nos trouxesse maridos bons. Ainda me lembro de colocar a faca na bananeira para que no dia seguinte surgisse o nome do amado escrito. Hoje sei, que tudo aquilo era apenas para enriquecer nossas histórias. Os doces feitos durante a semana que antecedia o dia 13 enchiam de cheiros nossa cozinha. O mamão ralado, o queijo para o doce de bolinhas, os pães sendo assados no forno feito por você. Os biscoitos de polvilho…ah, pai. Ainda hoje sinto as especiarias como guindaste do que vivi.

Junho por si só era frio. E parecia que você conseguia esfriá-lo mais na véspera de São João. O dia inteiro na feitura da fogueira. A mandioca e a batata doce escolhida a dedo para assar. Era como se fosse Natal e suas histórias sobre o batismo de Jesus ao redor da fogueira criasse em mim e nos meus irmãos um roteiro sagrado.

Sempre admirei tua fé. E na noite de São João você manifestava ela de uma maneira que nos assombrava. O atravessar as brasas descalço sem queimar os pés. Apesar de saber sempre que isso acontecia e repetia todos os anos, era o ponto alto da noite. Lembro que eu contava para todo mundo teu feito e quando ia dormir ficava a imaginar tua coragem. Meus pés ardiam na coragem que eu não tinha de fazer o mesmo. Seguindo os rituais nos levantava bem cedinho para o banho no rio. Como se fosse um batismo mesmo. E o frio ficava sempre em segundo plano. O que mais me recordo era a maneira de olhar na bacia e ver, se na sombra refletida havia duas orelhas. Se não houvesse, era sinal de que morreríamos durante o ano. Graças a Deus nossas orelhas sempre estavam intactas. Mas você conhecia sempre alguém que no ano anterior não havia aparecido uma das orelhas.

Estou aqui a escrever, pai e Junho passa e repassa todinho na minha frente com seus cheiros, seus frios, seus rituais e encantos. Fechávamos com chave de ouro com o santo pescador. E em sua doutrina religiosa nos ensinava que mais importante do que ganhar o peixe, era aprender a pescar. São Pedro era a fé viva do dia que quase fechava o mês e eu quase nasci nesse dia. Mas, isso, é história para outra carta.

Hoje, anos depois, Junho me desenha uma pescadora de sonhos. Mas, também uma realizadora deles. O mês começa hoje e já o vivi inteiro aqui. Você e tua fé que te mantém vivo, continua elevando os olhos pro alto ao citar os nomes dos santos e embora uma cadeira de rodas te prenda, com seus olhos atentos você viaja vida afora.

E como nas cartas que já trocamos tantas vezes, fecho essa desligando o rádio. A vida passa rápido, as coisas vividas já foram vividas e como você mesmo dizia quando eu era pequena:
– Vamos embora cuidar da vida.

a bênção, pai.
Mariana Gouveia