Corredores, Codinome Locura

A minha mãe costurava.

Fazia colchas de retalhos que, normalmente iriam pro lixo. Daqueles pedacinhos de pano saiam mantas que quase parecia as páginas do livro que quero um dia escrever, de tão bonitas que eram.

Eu ficava horas ao lado dela vendo-a emendar os retalhos e eles se transformarem em figuras feito retrato costurado.
Lembro-me que ela dizia que costurar era como fazer amor com a máquina. Isso a preenchia…minha mãe vivia plena de tudo, quase tudo a preenchia. Ouvi muitas vezes ela dizer isso ao costurar, ao cozinhar, ao bordar, ao cuidar da horta…

Pegava um pano simples e bordava ali, sonhos… Para mim, um dos momentos mais lindos era a hora de colocar óleo nos pedais. Ela calava a máquina do choro de ranger correias besuntando as dobradiças que haviam e a máquina se calava…

Enquanto costurava ela cantava. Era quase um mantra a canção na boca dela. Eu, do meu cantinho de filha ficava desenhando na mente aquele momento para que durasse feito retrato. Nem respirava.

Quando ela não estava costurando estava sendo plena de qualquer outra coisa. Sendo mãe. A máquina, ficava ali, parecendo sentir saudades do amor que fazia com ela, com seus pedais quietos que parecia gritar. Com seus apetrechos descansando em cima, a tesoura, o ferro de passar cheirando a carvão e a canção de ser plena em qualquer lugar.

Mariana Gouveia

21 comentários em “A minha mãe costurava.

    1. Ah, Mariel! Deve ter bordado o céu inteiro de nuvens e que eu dedico a você, com muito carinho.
      Muito obrigada por tanto e que seu ano novo seja de muitas bençãos.
      beijo meus

      Curtir

  1. Nossa amore, essas suas linhas falaram ao mio cuore… viajei no tempo e espaço, para longe e perto. Fui até você, te abracei e conversamos sobres linhas e agulhas, sobre você e eu, nós duas e todas as pessoas que trazemos juntas… amo-tu cada vez mais e mais e mais…

    Grata por tocar-me assim

    Curtido por 1 pessoa

      1. Ah, minha cara… aproveitei a segunda para por em dia as leituras dos blogues. Andei sem tempo – você sabe – para essa “brincadeira singular” que tanto gosto.
        Catarina está lá em silêncio… não nos falamos faz algum tempo. Ela se recusou a escrever… ou fui eu?
        Enfim… quero voltar, mas não será hoje porque hoje meus olhos querem esse sentir alheio. Vestir-me de ti, é como estar aí, ao seu lado, nesse seu dia aquecido de verão…

        Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário