
Não era cheiro de mato
nem de alecrim no jardim
Cheirava a céu
de estrelas – eu pensei
Mas confesso que errei
Uma nuvem se acentua
e eis que assim, despida
toda nua
Senti o cheiro da Lua.
Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Porque o melhor lado é o dentro

Não era cheiro de mato
nem de alecrim no jardim
Cheirava a céu
de estrelas – eu pensei
Mas confesso que errei
Uma nuvem se acentua
e eis que assim, despida
toda nua
Senti o cheiro da Lua.
Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.
Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.
De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.
depois que amanhece
asa feita
retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!
Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova
Redigiu o horóscopo do dia. Alternou a imensidão das coisas. No alinhamento dos astros, chove hoje. A moça do tempo avisa: leve seu guarda-chuva. Júpiter causa uma mudança interestelar. Pode se apaixonar de novo. Prefiro não dizer a palavra cuidado. Qual seria seu signo no horóscopo chinês?
O período da tarde pode haver mudanças. Realinho os astros no papel. A carta da lua teima em sair. Mistérios no ar. Ciclos. A vida não é feita apenas daquilo que podemos tocar. Nem ouvir. Nem ver. Há dimensões de estrelas na minha mesa. Números rodeiam meu destino de hoje. Ontem presenciei a queda de um mito. Já não há heróis para se espelhar.
A menina da mesa ao lado me pressiona com verdades que ela mesma não aceita. Recorta a parte que fala de seu signo e guarda. O dia de hoje é para ficar marcado. Relembro que há uma coisa chamada esperança. Na previsão do dia há poesia. A voz dela lembra qualquer coisa de fada.
A lua em Peixes enfeita o dia. Alguém compra o jornal e lê. Suspira e conhece a palavra vontade.
Mariana Gouveia

Vive de flor.
Come a espécie e grita a fome.
Adoece por falta de seiva – a dela –
Clorofila pura do sentido de ser natural.
Ama.
Por dentro, flor espalha em tudo que é canto.
Veia, sangue, ar. Respira jardim.
No sentido pleno da frase.
Dentro dela germina vontades… da essência dela em todo lugar.
Reage quando muda de espaço.
Trepa no limite do que pode sugar.
A história dos outros dentro da sua.
Subversiva, vive de flor.
Por que, só assim, pode viver.
Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

O dia começou com perdas. A aldeia chora a partida de um sábio. O dia grande sendo pequeno. Alguém ousa na coragem de tirar a vida. O verbo falha na rotina desavisada. O encantamento ganha cor quando alguém parte sem sofrer. Era o dia grande sendo dor dentro das perdas. O espírito do guerreiro ganhando sentido na floresta inteira.
O céu, sendo universal em cada luz.
A lua sendo guia da alma. O dia termina infinitamente grande quando anoitece.
Mariana Gouveia
Primeira Super Lua de 2018
Cuiabá – janeiro de 2018.
Dia 1.
Mora em mim
como pássaros em árvore
e com suas asas, cantam
para que as folhas dancem.
Mora em mim
como o sumo na fruta
desaforadamente nas entranhas e bebe o doce do beijo
mora em mim nas magias das manhãs laranjas e alaranja meu dia como sinfonia dos anjos
Mora em mim e eu vivo!
Mariana Gouveia
* imagem: Oleg Oprisco

A casa, à noite, era iluminada pelas lamparinas e o céu, de tão estrelado para iluminar os campos e os vaga-lumes inspiravam poesia. Não dava para ler – ou até dava, se conseguisse driblar o olho atento da mãe. O lampião veio anos mais tarde.
Contava as horas para amanhecer e devorar os livros ou escrever.
Criei um desvio para atravessar a ponte e ir além da colina. A escola foi feita no alto do morro. Ali, as crianças das fazendas vizinhas eram beneficiadas pelo invento que meu pai criara – construíra a casinha no alto da colina para que nada atrapalhasse os estudos – e a professora viera da cidade. O olho atento para os filhos do dono da escola. O cheiro dos cadernos criados por minha mãe e o descampado que mostrava lá embaixo o capim dourado a colorir a paisagem.
Todo objeto queria virar gente na minha mão. O livro quase virou na palavra escrita. O caderno todo em branco, esperando que as linhas fossem preenchidas com o verbo na palavra. A lembrança da mãe costurando o papel do saco do pão e ganhando estrutura de caderno.
Um dia, um lápis se perdeu em minha mão. Ganhou encanto no verso e na rima. Era laranja, o lápis… e a cor se encontrou no verbo e na gramática. Um lápis não pode ficar em silêncio. Ele quer gritar e usa a minha vontade de escrever e fazer um livro.
Fiquei adulta e aquela escola, no pé da colina foi me levando vida afora dentro de tantos mundos. Caibo em todos, assim como cabia na cadeira perto da janela e me perdia horas a fio a imaginar o capim dourado se transformando em arte e poesia.
Algumas cenas confundiram minha vida, mas ainda assim, me levaram para um passado onde reviro as coisas do baú.
Virei confusão nos personagens que encontro todos os dias – fora e dentro de mim – e confundi semente com flor. Amei mais nuvens que céu, mais voo do que pouso e mais letras do que palavras.
Era ali – ou ainda é – que a cozinha vira lugar de aconchego. Os objetos mudam de lugar. Ganham morada nova na cômoda do canto. A fotografia da avó com a colher de pau na mão, amarelada na parede que dá para o corredor. A janela no ponto certo onde a vista dá para a horta preparada para o alimento. Há mais janelas que cortinas. Mais riso que choro.
O rádio na cantoneira estilo curioso que a mãe mesmo pintara com as tintas feitas de folhas de árvores. Os bibelôs esquecidos no canto. Um sino de porcelana perto do elefante trazido da China – não se sabe por quem – e um quadro de flores bordado pela mãe. Ela tinha essas coisas de bruxa e índia. De sagrada e intocável. Sabia a cura através dos remédios feitos com ervas e benzia as crianças com dedos que imitavam os cataventos. Curava os males de quem sofria. De longe parecia uma mãe normal… de perto era uma mulher que ensinava a vida através das palavras. E eu sou essa página escrita no dia a dia.
Mariana Gouveia
Projeto Crônicas de Outubro
Editora Scenarium Plural
Hoje fui acordada do meu – suposto – merecido descanso por uma ideia. De madrugada.
Sabia que não ia lembrar mesmo falando o mantran que aprendi no curso de meditação que fiz em 1997 (e que tem os mesmos mantrans dos cursos vindouros – que fiz).
A gata mais pazeamor, vendo minha inquietude espreguiçou com as patinhas na minha garganta. Tossi. Acordei a outra gata (não é de paz e amor).
Desisti de tentar repetir à exaustão pra que eu não esquecesse e acendi a luz. Abri o caderno da aula de amanhã, ou melhor, de hoje mesmo e lá estava mais anotações de outras ideias não esquecidas (só porquê anotadas).
Sim. Ideias são como a mãe da gente acordando pra ir pra escola. E faz maria chiquinha que nem dá pra piscar até o final. Ideias acordam a gente… como se estivéssemos atrasadas ou pecando.
Aden Leonardo

Na rua de cima os cães não latem para os garis. O caminhão passa tranquilamente sem barulhos, latidos e bafafás.
Percebi isso na madrugada quando acordei e mergulhei no texto estampado em neon – tipo me leia e guarde-me antes que a Aden acorde e me apague – mania latente de marcar a gente com palavras/poemas como se fosse ferro a brasa e mesmo apagado já fica ali, na pele…
A rua de cima é morna dentro das minhas ideias. Um gato preto anda sobre o muro e o silêncio chega a fazer barulho nas portas pintadas de azul. Há um outro – gato – pardo que atravessa os muros laterais dos vizinhos e vem justamente na minha rua, cheia de barulho provocar os cães, atrapalhar a ideia que grita dentro do silêncio, na madrugada.
A ideia me arrasta como correntes e fiz o quarteirão repetindo gestos no ar como se louca fosse e percebi que algumas janelas se entreabriram para as vizinhas que não entendem como a madrugada me abraça. O último poema ainda adoça a boca que perdeu o sentido de sabor. A ideia da Maria Chiquinha leva o pensamento para além da infância e o cabelo sente o repuxo que a mãe fizera na última vez. Isso já foi a tanto tempo! Os dias se perdem nessa dimensão do espaço.
O caderno ganha as anotações depois que o poema ativou a palavra solidão no calcanhar… e quando você busca o poema que te inspirou, ele evaporou-se no baú dos apagados – não falei que ela – Aden – ia fazer isso? – e as ideias se perderam dentro do poema apagado…
para no instante seguinte florir no carinho da amizade.
Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro

Quando Setembro se inicia em meu íntimo já é primavera e escrever é quase esse espalhar sementes em um quintal povoado de pássaros. Sou esse ser em formação em matéria de escrever. Perco-me diante das banalidades e minha escrita ganha vida no dia a dia. Sou a que planta, colhe e faz poesias. A palavra me toma como se parte dela fosse parte de mim e outros tantos eu caminham por nortes diferentes dentro da escrita.
Ser escritora em plena primavera de 2017 talvez tenha a leveza da estação, mas ainda assim continua sendo peso o fato de ser mulher, dona de casa e escritora – e o novo século não alterou em nada essa questão – e atrevida, ganho voz através das redes sociais; a escritora de hoje sente na pele a mesma opressão que desde os séculos passados outras viveram e sentiram. A luta pelos direitos iguais dentro do movimento feminista imprime mudanças substanciais na ótica e nas relações sociais. E isso influencia a escrita, o pensamento e as ações.
Diante disso vivo em constante reconstrução e a cada dia me dispo diante das palavras e levo a quem me lê meu coração. Meu linguajar se mistura com a estação onde tento passar a minha emoção para o outro.
Moderna-antiga-ultrapassada-atuante, muitas vezes muitas dentro de uma só. Múltipla de mim mesma. De qualquer forma, assumo minha independência e força admitindo meus desejos e me coloco como protagonista de minha própria história.
Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Crônicas de Outubro.

Desenha em todo lugar
lembranças que ela deixou.
Um farelo de pão sobre a mesa serve para criar corações nas rotinas.
Uma linha que o pano de chão deixou, traz a inicial dela.
escreve ela em todo lugar.
Desenha corações nos muros.
Escreve o nome dela nas janelas dos ônibus
por onde vai a leva, dentro, fora, além.
Vê a vida com os olhos dela.
Vê ela dentro dos olhos
e ri quando imagina fantasias que ela
diria,
teria.
Vontades surgem e o respirar é ela.
Dentro, funda. Imensa. Aqui.
Coleciono pétala no olhar. Invoco o nome dela como prece.
Bem a quero. Eu bem quis.
Ave,flor!
Mariana Gouveia
*imagem: Marta Orlowska