Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

*essas saudades que vais tendo, são as minhas

Querida minha,

Eu queria te contar que o quintal amanheceu cheio de flores e que o orai pro nobis floriu de novo, assim como o pé de ipê que dourou meu lugar.
Um tapete amarelo se formou no chão enquanto as vidas miúdas de revezam entre as flores.
Queria também contar que o céu está de um azul incrível e algumas nuvens curiosas se formam para além dos muros.
A vida aqui continua igual. As rotinas também. As canções mudaram em minha playlist. Ouço Gadu no repeat, músicas coreanas e canto junto com Ed Sheeran o Perfect só para reverenciar o quintal vestido de flor.
A máquina avisa que é hora de estender as roupas no varal enquanto as borboletas voam ao meu redor. Eu diria que é uma cena repetida, mas parece que é sempre a primeira vez. Estou com saudades como sempre.

Mariana Gouveia
*frase tirada do poema de  Cláudia R. Sampaio postada lá no Primeiramente

Corredores, Codinome Locura

Dos meninos

O menino da rua de cima quis conhecer a ave de todo dia.
Falou do passarinho como se fala de Deus. Nos olhos dele havia a fé.
Não pude falar do dia triste de ontem, nem da incerteza de hoje… Fiquei ali, a beber a fé no olho do menino que nas tardes serenas empina pipa na minha rua. Já o espiei várias vezes pelo canto do muro, em algumas tardes… O olho fixado no céu, a mão a dominar a linha contra o vento… Ele nem sabe disso, mas foi ali que descobri que Deus brinca de passarinho no meu quintal.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O amor, é esse estágio branco escondido nas asas

Era oblíqua a lua, em seu estado vagaroso, seu olhar transversal em um céu nublado, sem nuvens, e atravessa a janela lateral da rua de cima. O búzio que me traz o sol na escuridão da noite. O vulto que vagueia nas sombras desenhadas pelas mãos. A previsão dentro das rotinas de vento e o intempestivo jeito de amar dos bichos. A gente fala das palavras de solidão e a canção busca na memória o revival dos contos lindos da infância. As coisas miúdas estampadas na parede… O segredo, um ovo feito no estuque para guardar bilhetes.
A ladainha da velha da esquina a repetir o mantra. Quase era tudo, um nada no telhado e a ave gigante lembrava uma história que alguém contou e eu não vivi. A saudade ladeira abaixo empunhando os gritos. Os caminhos que levam para outros cômodos. A porta dava para além dos quintais e muros que, logo ali, davam de encontro ao riacho. A vida é esse ciclo de memórias e vivências. O amor, é esse estágio branco escondido nas asas atrás da porta e que bebe água do rio, que sempre deságua no mar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

das impressões do dia seguinte

Visitava a sala depois de olhar cada canto, aposento abandonado pela saudade… precisava aspirar ela no quintal. Olhou céu, o dia coloria as flores… dentro dela germinava asas… pariu borboleta em um idioma que não era o seu. De noite, a situação era de sonho. o céu gemia dentro dela e as estrelas agitava seu interior. Calma aparente de quem ama. Depois que amanhece, asa feita, retrato na parede e ali, todo dia, quando ainda era madrugada fazia reza para ela Ave, borboleta!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era assim a vida na docilidade das coisas.

Havia jeito de asa para o lado do Sul
a maré previu a fase da lua
e a maresia invadiu meu quintal
eu era só teu olho diante da janela
a tarde tinha a brisa
tinha gesto
Guardei o meu amor em palavras
escrevi seu endereço no voo do pássaro
e seu nome foi jogado no céu antes que as estrelas acordassem.
Havia gestos de flores no quintal. O cão latia para o riso das crianças.
Era assim a vida na docilidade das coisas.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

das cartas que não enviei

Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Migratória

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor. Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar. Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão. A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave. Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar. Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e dos búzios que leem minha sorte aqui… isso me leva para junto dela. Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui. A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram. Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

De volta ao aconchego

Costurava a certeza das coisas dentro da memória. O cheiro invadindo o espaço e a natureza com seus mistérios exalando lembranças da infância. Era como se uma janela se abrisse e fosse me mostrando cada espaço dos anos vividos. O cão a farejar no mato o bicho estranho. O banho no rio quase passa dentro do quintal. O riso manso a festejar estripulias e a certeza de que os momentos ficam para sempre, como se uma gavetinha ficasse ali, os guardando para quando a saudade bater – ou a viagem me trazer de volta ao aconchego da alma – a gente abrisse e dela saíssem esses momentos que me fez forte até aqui.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Hoje

[Os gritos vem de janelas fechadas]
Há alguns pássaros que não voam…
um, se isola na diferença da cor. Então, o pai fala do respeito ao que é diferente – como se eu fosse criança – fala da história da menina muda que nunca canta mas que tem a música nos olhos.
Por enquanto, para mim ela é só silêncio.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É preciso esperar a próxima lua

Seu nome derrete em minha boca
e o pássaro chega arrastando a tarde.
A vida, é lá fora – alguém dizia – a vida é.
Rasguei todas as lembranças de outrora. Pintei o muro da cor azul.
Havia tanto céu no seu mar que quase naveguei.
A esperança mora em dias vazios e longos.
A asa atravessa o vento e a mesa das rotinas trazem o horóscopo de ontem.
É preciso esperar a próxima lua.
É justamente nessa fase lunar que as marés favorecem o amor.
Tivesse eu asas, hoje, voaria.

Mariana Gouveia