Corredores, Codinome Locura

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Trapézio

 

Estar com ela tinha a sensação plena do voo.
De repente me pediu pra cantar. Uma musiquinha de criança…
Não cantei, ela fez charme e mesmo não dedilhando canções a melodia invadiu espaço dentro da alma.
De novo a sensação do voo, água na boca. Quase turbilhões de borboletas na barriga.
E foi riso…e mergulhei sem rede. Não tive medo. Me joguei.
Sei lá. Não sei que nome dou pra essa coisa na barriga que envolve e que devora, que tal qual criança na noite do Natal a espera do pacote abrir.
Me abri. Os braços, quase alados, quase asas. Indo, vindo. O espaço era meu. Não. Melhor, o espaço era nosso.Amplo. Lá embaixo, picadeiro sem rede. Mas o amparo era nítido.
Era colo.
E assim, a magia se faz e a gente voa junto. A respiração corta e a respiração vem.

De um pequeno instante,a sensação agradável de estar ali, invadindo espaço, braço.
O palpitar do coração na melodiosa canção do amor e a plenitude de dominar o céu.

Quer saber? Até hoje  subo no estendal de roupa onde meu coração ficou preso.

Foi o primeiro delírio de um voo rasante de uma provável série de outros que virão. Aliás, acho que viverei nesse trapézio constante em alucinógenas doses de me entregar nos braços dela.
Quero andar nesse caminho de céus coloridos, com borboletas de cores variadas a voar suavemente em torno dos meus pés.
Em volta tudo lembra magia e é bom, nem é preciso fechar os olhos.
Exercito uma insanidade sutil, pequena, suficiente.
Eu queria que eu só existisse pra essas coisas e pro amor. Daquele momento de borboleta me peguei a derramar do limite das asas, uma chuva de flores.
O vento me emprestou um movimento e em festa soprou com gosto um domingo de abril.

Foi como se você estivesse aqui e coubesse toda nos meus braços e voasse em mim…

Mariana Gouveia
Art: Larissa Marques

Corredores, Codinome Locura

Por aqui a lua jantou com Vênus

Por aqui a lua jantou com Vênus

Vem quase tudo
do que tu dizes

é como ter a respiração acelerada.

Jantei sombras de sol,
luas de metamorfose.

Bebi…

Achei lindo beber lua
e até me embriaguei aqui.

Estou a cata de inspiração

pra ver se te encontro e do que tu te alimentas;

o mel nos teus lábios…bebi.
Tudo em ti  me sabe
a sal
e é doce, doce

como a saudade
e eu sorvo cada sabor
da delicadeza dos instantes.
É nos seus braços que me inspiro.
Deve ser por causa do eclipse solar.

Por aqui a lua jantou com Vênus
numa clepsidra de sonhos.

Sonhei contigo.
Seus goles me sorviam

e passou depressa.
Mas ficou cá dentro
uma imagem tua,

aquela imagem
que não esqueço.
Não quero esquecer

e no toque lento de tuas mãos.
Árida estou e ardo
e sou
todos verbos.

Verbalizo,
úmida,
sou gutural, estaminal.

Te vejo,
as minhas mãos imitam as tuas
passam em mim iguais.

Aperta-te…

Para eu sentir
a marca
procurando o tudo e nada.

O teu corpo
se funde no meu,

a minha morada tardia
e eu que ardia de desejos
no deserto de concreto,

tenho sede.

Não sei nada de AMOR.

A minha boca já sabe a tua
e cresce
uma nascente de água…

tua estaminal.
É no céu da tua boca, meu paraíso

verbal,
mas tão real que te sinto
e vou ao delírio.

Quente como o areal
no sol

que eu: ardente desejo
que me deu

sabes de amor agora?
Sim!
Um sentimento,
pequenas conversas,
várias nuances

que fica.

Quero tua resposta.
Tu és meu coração
perdido.

Eu acho-te
no repetir

dos momentos,
dos meus
encantos
mesmo quando
acabo
e quem disse que é preciso estar juntos pra estar perto?
Acabo e ardo

Mariana Gouveia – Das delicadezas dos Instantes

Corredores, Codinome Locura

as lembranças me chegam sempre em dias tão vazios

DSCF6145

As lembranças sempre me chegam nos dias vazios. Era eu em tuas fotografias. O vento uivava no morro e ali, a vida parecia cor de rosa.
Te mostrei a florzinha azul. Falei da delicadeza do lugar. A aliança tinha ar majestoso na mão. Você tremia.
Não era chuva, mas tinha gotas a cair do céu em uma garoa que não era do lugar – ou pelo menos, eu nunca tinha visto – e você se deslumbra com a visão do céu ali. Quase tocamos as nuvens com as mãos. O dia era para ser feito de magia.
A timidez dominava seus olhos. Eu te via como a rainha do lugar. Era eu, indivisível olhos de amor.
Falei do mar que você me trazia e que ali, já havia sido um oceano. Era história contada nos livros. Onde as flores azuis nasciam – sua cor – foram encontrados fósseis marinhos. Um, que parecia estrela – eu vi – e quase pulei de alegria quando te contei.
Você falou da estação que sobrevivia os dias e de como era intenso o lugar.
Tenho todas as estações na mão. Em mim, tudo era primavera quando você estava.
Seus olhos se perdiam na imensidão do tempo. Passou-se tanto depois disso.
Lembro que no fim do dia o sol apareceu. Eu te cantei uma canção e fomos embora achando que a vida era isso.
Hoje, num dia vazio a saudade abre a tampa das lembranças e eu deliro – deve ser a febre – o dia parece igual àquele.
Já não é mais primavera em mim, mesmo dentro da estação das flores e a florzinha azul, ficou extinta e nunca mais nasceu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sobre(vivência)

 

Inaugurava em mim o outono
e a voracidade dos dias.
Mora dentro de mim as tuas digitais
e os caminhos que percorro em tua pele
a folha que cai enquanto o corpo treme
é preciso sobre(viver) dentro das estações.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

e o silêncio se fez de vento no varal 

Quando rasguei o nome no peito…Tirei do ventre a palavra voo e chorei pelos números de nomes que voaram entrelaçados dentro da ausência vivida. Nem era dia especial e o silêncio se fez de vento no varal e as esperas aconteciam e a gente sabia que não ia chegar. Algumas partidas acontecem como voos de pássaros ou como pouso em um dia de silêncio.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para memórias futuras…

Su, minha menina nuvem,

confesso que vou guardar essa noite, essa lua, essas nuvens em gavetas para memórias futuras. Foi ontem, tudo isso, e você deve saber o momento. Estou em um tempo passado e muitas vezes, esqueço esse fuso de uma hora a menos.

Mas, para que saiba o que senti e de tudo que meu céu, nesse quadrilátero dos muros que o rodeia tem, guardo em palavra, escritas sob um céu, de um lado, estrelado e ao centro, uma lua belíssima – cheia – e quis te mostrar.

Você sabe bem que a vida é esse afago de alma, de lembranças, de cheiros… eu moro tão longe do mar e nesse momento, nesse meu desaforo de fuso, o mar veio junto com a lua, as nuvens e uma brisa que nem tem cheiro de rio – mas de mar mesmo – ruas abaixo do meu lugar.

Sorvi o chá que fiz a pouco. Meu pé de capim limão está vibrante – culpa das chuvas dos últimos dias – o aroma das flores do alho e que nem cheiram a alho invade essa noite de lua cheia e há cheiro de bolo assado na vizinhança. A minha vizinha da direita faz delícias a essa hora da noite – culpa do trabalho – e de madrugada. Um dia, conto mais sobre isso.

Sabe, Su, há um silêncio no quintal. Até os grilos calaram… e vi, no canto do lado do sul uma luzinha de vagalume – seria impressão? – e a sombra, quase vulto, de Chiquinho dormindo no varal perto de mim…

Vejo vultos logo para além das ipomeias e sons de folhas caindo e as asas de um morcego – recém visitante por aqui – que assusta o meu amor – num vapt vupt que faz ele soltar impropérios que nem ouso repetir. Ele é geminiano e tem medo dos vampiros… vê se pode!! Fecha as portas e janelas e fica me rondando aqui fora, como se o bicho fosse me esvair em sangue… logo ele, que odeia ver o líquido vermelho jorrando – seja em filmes, novelas, e cortes… mesmo os pequenos – fica como se fosse me proteger…

Mais uma vez, rodeio o pescoço com os olhos no céu… as nuvens se dissiparam. Dizem que pode chover a qualquer momento, mas já vi a moça da previsão errar tantas vezes, que meu sopro de ar vai para essa carta para que você guarde para memórias futuras, de uma noite em que eu te vi no céu do meu lugar, brincado de lua, enquanto você se graduava em outro momento, de um céu, do seu lugar.


Beijo meu,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Costuro a palavra habitar no corpo,

como moradia leve… um toque. O coração sendo trocado, de leve, por outro – uma válvula – que afinará as melodias em manhãs de pássaros nas árvores secas do quintal do vizinho.

Que além das batidas insanas causará ruídos nas janelas abertas pelo vento. Que fará com que eu esqueça o amor que não deu certo, as perguntas inconvenientes, a mesmice plantada no olhar do homem da esquina.

Um coração que viverá de noite, como se dia fosse e que tocará a alma do outro como única, no verbo amar. Costuro a palavra habitar e bordarei poesias soltas nos murais dos pontos de ônibus e sairei cantando o amor como rotina e esvaziarei o peito e dentro da mão, o voar virando pouso, mesmo que imaginário na solidão dos corredores de quem espera viver.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Marielle, presente!

Da voz de uma menina, da minha e da sua voz.

Mariele,


fiquei buscando na memória a cronologia do tempo depois de sua morte e já contamos hoje seis anos.  Você ganhou nome de rua, de alameda, de avenida, de ala, de sala e seu rosto estampa coisas mundo afora – desde painéis, camisetas, grafites e uma pergunta ecoa: quem mandou te matar?

Sabe, devo te dizer que sua voz ainda ecoa nesse Brasil de injustiças e nesses anos sem respostas. E claro que nada te trará de volta. E vi no dia 8 de março agora, uma menina com um turbante na cabeça e dizia, na praça central da minha cidade que ela era uma Mariele e com o microfone da mão, disse que te levaria junto com ela onde quer que fosse.

Aquela menina disse que sua morte não seria em vão. Que ela ainda queria viver muito para te levar por aí, dentro do peito, na voz – ainda quase de adolescente – e enquanto eu seguia rua afora fiquei pensando o quanto você alcançou mesmo depois de sua morte.

É possível que aquela menina nunca havia ouvido falar sobre você antes de te matarem…  e ela estava ali, simbolicamente como mulher se vestindo de seus feitos e gritando a impunidade para os que tiraram sua voz. Ela e tantas outras meninas-jovens-mulheres falarão por você mundo afora.

Infelizmente, Marielle, a máxima de que nossa justiça é cega se confirma com esses seis anos de perguntas sem respostas. Quem mandou te matar e porquê? A quem interessava calar sua voz de forma tão brutal? E quem ganhou com isso?

Hoje, essa data se tornou o símbolo de injustiça e é por isso que cada vez mais vamos nos juntar à voz de tantas meninas que se inspiram em você para dizer que você vive nas vozes de tantas mulheres que não te deixarão em silêncio. Falaremos por você sempre!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Enigmas

Quem foi que descodificou o meu segredo
que era olhar-te atenta e quieta
e deixar-te escorrer nos dedos

canções a quatro mãos tocando
e o olhar inteiro derramando
você…

quem foi que te revelou o meu enigma
e trouxe até a mim e por estigma
desejo flutuantes de prazer

quem
conhece meus rumores e gemidos
palavras que diria ao teu ouvido
em laços de abraços em você
só por viver

para te ter…

se te tocar eu me derramo inteira
se me tocar sou sinfonia verdadeira
na melodia que o vento faz

então
eu quero mais é que descubra
e encontre o que guardei em minha boca rubra
que é o beijo que te dou de amor.

Mariana Gouveia