Corredores, Codinome Locura

dos rituais da lua

Olhava com adoração o céu. Vênus namorava a Lua indo lentamente a Oeste. Respirava dentro dos desejos todos. Declamou mil poemas de amor. Era o astral interferindo no crepúsculo. Descalça, pisou a grama, a terra. Rodopiou dizendo as palavras de fé. Sabia que a magia ia acontecer ao toque. Lembrou-se de cada ensinamento. Aprendeu a conhecer o destino olhando as mãos. Enquanto o muro permitiu ficou ali, apenas repetindo o mantra do agradecer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos rituais do orvalho

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.
Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.
Alguns diziam que era para se impregnar de perfume…
Apenas ela sabia que era para se manter viva.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos dias de chuva

A fuga das dores reflete no equilíbrio das palavras. Alguém diz sobre a sorte de um amor tranquilo e a canção decifra a solidão que invade o dia.

Que era assim que tinha sonhado e que passaria a vida inteira a ser ponte para asa e pouso. Havia quem dizia que era doido – o homem – e que o sonho era tão maluco quanto ele… Eu, apenas imaginava que não importava o que falassem dele… que dentro dos olhos dele o céu criava jeito de espaço e morada para pássaros sem árvores. E que das mãos dele, já com instinto de cansaço ainda continuavam espalhando sementes em dias de chuvas. Em cada dia ele repetia a história… Cada dia com uma ave diferente, cada dia com uma árvore nova e seu quintal se juntava ao meu e em oração pelas aves sem árvores ele criava dentro de sua história motivo para viver. 

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Mas esse quase é um quase que eu adoro

Desse amor, a pele
quase cítrica – agridoce
A gota da chuva – quase sede
o trovão ecoando seu nome -quase grito

e esse nó no peito – quase morro
no seu crepúsculo – quase ardo
em sua história contada – quase vivo

sou real em tua pele – quase poro
em teu voo sou asa – quase pássaro
Do mar que te rodeia – quase rio

das ruas das tuas estradas – quase atalho
das palavras do poeta – quase roubo
o poema que te chamo – todo amor

e do abraço terno – quase encontro
da mão que oferece colo – puro pouso.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

a alma inventada na rua do nada.

Eu invento a Rua de cima… finjo que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor! Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Colocam nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha. É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.

A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas. É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas. Essa rua, inventei em detalhes. As casas e suas cores vibrantes cheias de sons.

E a vida acontece dentro dessa invenção. A estação acontece dentro das horas. As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra. Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas.

A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Não cabia na palma da mão a audácia do voo e o casulo abriu-se…
o som e a briga constante com o silêncio. A vontade absoluta de nada. Vidros partidos na reza silenciosa de agora.

Os estranhos se misturam à paisagem do dia e perdem o nome à medida que o tempo avança. Enquanto caminho, penso no cachorro perdido que nunca mais vi… Na rota da fuga, uma estrela desavisada. O moço da bicicleta perdeu-se na cidade encantada. Mandou postal da nuvem que desenhei de madrugada.

Vem a coragem lavada na calçada sem flores. A mariposa voa em volta do lume da rua de cima. Busca a própria solidão em asas. O pé de frutas socorre o faminto.

A rua ecoa meus passos. Era quase isso no ano que acabou ontem… escrevi duas cartas na memória. Nota mental de quem sufoca o grito.

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo. Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.

Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui. Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.

Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.

O pacote de pão. Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme. Conteve-se.

Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.

Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.

E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Era uma vez, a coragem

Tinha rosto de homem e pintou a floresta de igualdade. Possuía o sonho de unificar o mundo, ou a etnias e com isso ele vivia dentro de sua cor de alma.

Vivia entre a natureza e o equilíbrio tênue – em uma mão, o acolher… em outra, a liberdade que as árvores e os rios possuíam – e a liberdade cobra o preço de quem aprecia o vento.

Quando a certa altura tudo começava a fazer sentido na vida do homem e daqueles que o cercava, que com a coragem no olho, desbravou a sensibilidade do dentro. Eu-você-ele-o-outro-igual. Era como se a floresta vibrasse na essência viva do acontecer.

Mas, nem tudo é tomado pela cor e quando tudo era princípio e começo e a vida fluía no sentido da correnteza do rio, o destino tomou pelas mãos o homem… e as encruzilhadas se misturaram diante do dia em que ninguém sabia o que fazer.

Havia apenas o homem e seu destino de dever cumprido. Havia apenas um quadro onde a floresta perdia a cor.

E os elementos da natureza na própria observação dos fatos apenas agradecia a coragem do homem que ousou ser ele, em sua essência, igual ao seu semelhante.

Ao pensar acerca das razões porque a floresta ficara sem cor, e o homem em sua coragem virou menino pintor… concluiu-se ao fim do dia que não importava se o homem nem era mais dali… A floresta pertencia a ele por onde quer que fosse.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Devia ver as roupas no varal… 

Devia ver as roupas secando no varal… O vento convidando para o lençol dançar e a ave, com seu jeito de asa sendo instante no momento. Era primavera dentro dos dias no quintal.

Na estante, os bibelôs trazem lembranças de um tempo que já não é – a vida desavisa os calendários – e a lua, incerta do caminho do sol muda o decanato em meu mapa astral desenhado a dedo no vidro da janela embaçada.

Ainda era ontem, menina eu e os lençóis de linho branco, bordados com monogramas em ponto cruz e a mãe, ali, ao pé do rio, a água a correr e o riso dos irmãos a brincarem de viver.

Devia ver as roupas secando no varal e quem sabe as suas histórias se parecessem com as minhas e a carta de um parente distante, com fotografias desbotadas de quando ainda era a menina de trança.

O olho perdido no espaço e a irmã a relembrar que ela já fora personagem de um filme e que abraçava o cão da infância com nome de Capuchinho – de tão peludo que era – e que toda cidade lotou o único espaço da cidade para ver ela.

A filha do pai que carregava o cão no colo e tinha olho de voo. Devia ver as roupas no varal… ali, estendeu as lembranças de uma vida toda e até as cartas de amor.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para minha mãe aos cuidados do amor

” Um dia, a palavra amor será seu lema em tudo que fizer. Desde as coisas mais simples, até o mais sublime ato seu, terá amor e é nessa palavra que me encontrará”.
Mãe.

Hoje vivi o dia dentro do silêncio. A voz sumiu e de repente, a vida passou feito um filme.
Posso contar tudo que você me ensinou dentro da palavra amor e de quanto carrego em mim seus ensinamentos – tão poucos – diante do que me lembro e tão intensos que revejo nas cartas que guardo comigo.
Suas letras aos poucos desbotam perante os anos que foram escritas… em outras, estão bem feitas como a última que escreveu para uma rádio, onde pedia sua música favorita e que trago comigo.
A letra miúda falando da primavera e de como as flores dos ipês te encantava tanto.

41 anos é uma vida. 41 anos sem sua presença física. Eu poderia dizer como foram esses anos todos, mas ao mesmo tempo, dentro do meu silêncio, às vezes, é como se eu abrisse o baú e tivesse ali suas fotonovelas e as histórias de amor que tanto gostava ao toque das mãos.
Aquela menina ainda está aqui, e roubo a frase que a mocinha dizia… Relembro seus suspiros e a mudança da história quando havia algo mais profundo para que a gente entendesse sobre o amor.

Há 41 anos, a vida te levou. Não sei para onde. Sei que de alguma forma você vive. Vive na sua estação preferida e nas canções que gostava de ouvir. Vive no riso dos irmãos onde cada um tem algo de você. Vive e permanece minha mãe sempre, nos momentos que mais preciso… e permanece viva em meu coração, mãe.

Beijo

Sua filha
Mariana