Corredores, Codinome Locura

 Temos tão pouco tempo tão pouco sonho tão pouco

Às vezes, me lembro que só tenho doze minutos por dia. Esses minutos entre o respirar e as gotas, sempre as últimas – para na manhã seguinte a tela se abrir e anunciar nova programação – que caem trazendo os sintomas que quero esquecer.

Não veio nem o sim nem o não. Apenas essa distância infinita, além do muro – e a dureza do cimento e a frase escrita, sangrando os dedos. Apenas esse infinito presságio de que a asa calada já não é mais parte minha.

De meu, só os doze minutos e essa porta fechada e a lembrança do pedido do “não me fale mais” quando o sangue na artéria rememora o magna dos que esperam sem expectativas.

Gostaria de te amar um pouco menos e talvez quebrasse menos as paredes e nem esperasse a primavera chegar. O relógio conta os segundos que restam… As aves fogem das mãos e o vento traz o calor intenso da febre – e do tempo – e a solidão que amarga na boca, a ausência.

O silêncio é essa vastidão de memórias na alma desde sempre, dos séculos onde as histórias foram escritas e descritas como poemas de amor.

… e a porta que se fechará mais uma vez, como se fosse a última…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

os varais vivem com os sonhos dependurados

Já faz tempo que o eco ficou perdido no quintal. Descobri cidades inteiras na rua de cima. Sob teus olhos vi esculturas de sombras em paredes claras. A fruta de todo dia no sabor do beijo não dado.
A vida ganha forças nos ninhos feitos nas árvores do lado de cá.
Há um nome oculto na calada da noite. Os varais vivem com os sonhos dependurados e o vento é esse pássaro fácil brincando de asas.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Escreve sempre que riscares na tua agenda mais uma morada.

É você essa poesia engasgada na garganta.
Seu nome fazendo eco nas paredes partidas.
A estação escurece dentro do calendário
e o relógio estagnado no sol de meio dia.

A mesa posta
e as xícaras esparramadas.
Tudo ficou perdido na palavra encanto.
O mar é esse azul que ninguém enxerga quando anoitece.

A solidão é essa xícara vazia
e a metamorfose diante da vida.
Serve-se a cura através de asas.

A parede dá colo para o instrumento que toca.
A música ecoa dentro de você.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Havia escuridão sobre as ruas.

Não havia luz feita pelos homens
e o céu se nublou.
O vento veio primeiro
– feroz –
com sua raiva,
fazendo a meteorologia errar nas previsões.

Depois, o céu rugiu
e suas nuvens ganharam contornos de água.
Só se via o vulto das torres, ao longe.
Dizem que em algum lugar caiu granizo.
E na escuridão, a alma se mostra cansada.

As árvores com seus galhos formam figuras assustadoras…
Havia um homem na esquina
com seus espirais de um fogo frágil,
feito para enganar criança,
enquanto nos minutos das horas eu espero o amanhecer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tatuagem

Tatuou a vida nas costas, assim que nasceu a primeira vez – a mãe “plantou” o cordão umbilical embaixo dos pés de bananeiras. Era a magia de permanecer na essência de quem acredita em coisas surreais, de geração em geração… Assim que entendeu que o seu lugar era o mundo teceu as asas de borboletas e descobriu que podia voar…

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Corredores, Codinome Locura

Costura japonesa

Doeu em mim a foto da lua. O braço do mar elevando a maresia em um dia que ardeu.
O galho da árvore a acolher o satélite que brilha no céu. A flor que foi coadjuvante no jardim com o céu habitado de desejo.

Bebo em tua lua o sabor a sal de sua boca. Era um arvoar dentro do peito e essa vontade louca de escancarar a janela e tocar seu nome, feito pétala de flor. Escrevo-te cartas que a noite escura apaga e o calor ignora a vontade enquanto no noticiário falam da delicadeza do papel. Lembro de sua arte que faz textura no papel.

Da janela vazia, quase te grito e respiro. Desafiei a mesma que você enxerga a me transferir nessa saudade para o inédito e antigo ato de te surpreender e mais uma vez, murmuro seu nome dentro do amor.

Mariana Gouveia
São os dedos que tocam as flores

Corredores, Codinome Locura

esse dia deveria estar gravado em algum postal

A estação errada surgiu dentro de outra estação. A paixão que nasceu em séculos atrás ecoa no quintal onde a vida escolhe a cor. Li sobre os búzios que cintilavam há um ano atrás. A canção sertaneja repete em algum lugar. Visito suas coisas no baú. As recordações bate recorde de fugas – o nome ecoa – em azuis desbotados de presença.

Alguém anuncia um mês – o das flores – enquanto que para mim os dias emendam um no outro nessa busca. A espera é essa fragrância de flores secas ainda no pé.

A lua hoje não está para peixes e os búzios trazem o barulho do mar para a margem do rio que seca. Flores desenham caminhos que levam para o nada. Depois do jardim molhado, a noite rescende essência de amor.

O vento vindo do sul traz a maresia feita à mão… essa mesma mão que afaga o corpo como se fosse pétalas de flor e desenha no ar seu rosto, visto através do vidro fosco de algum museu.

A saudade é esse quadro fora da exposição.

Mariana Gouveia
Quando chegar setembro e a primavera colorir as flores…

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Codinome: Coragem

Querida Maria,

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.
Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.
Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.
Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.
Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
Portas Abertas – Codinome Lucidez
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoSuzana Martins e Bob F

Corredores, Codinome Locura

Para sempre é muito tempo para quem não tem tempo.

Para sempre é muito tempo para quem não tem tempo. No corredor, a cortina foi trocada por persianas por sugestão do vento que veio do sudoeste. A esperança trazia a sorte na mão. As asas tinham a dimensão exata da dor. Os vidros das janelas dos casarões da esquina foram quebradas além do muro. Sentiu saudades da chuva. O céu anda tão estável. A mão é esse abandono de toque. A vida, parada, sem diagnóstico e endoidava com a tarefa simples de viver.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A asa é essa obscuridade da mão que oferece colo.

A vida é essa corrente de ar. Ao mesmo tempo que prende, dá a liberdade. Os quandos descritos nas receitas e nos diagnósticos claros de poesia. A pele solta na oscilação do tempo. A asa é essa obscuridade da mão que oferece colo.
Você, por acaso sabe quando o tempo determina as eras?
Quando a pergunta do porque eu é apenas a resposta do porque sim?

Um dia, o amor vem em movimentos de abraços. A vida é esse carrocel sem controle e sem luzes piscando – tirando as asas dos insetos tantos – e no meu jardim, a mão quase toque…
O lugar é esse mesmo caos dentro da gente. Podia ser um nome, qualquer coisa. Podia ser apenas esperança e que eu pudesse tocá-la e oferecer como vontade.

Mariana Gouveia