Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

carta para Edi aos cuidados do extraordinário

Edi,

quero te dizer antes de qualquer coisa que o extraordinário me rodeia. Acontece com momentos, com fatos vividos e com amizades. Sempre repito que sou abençoada porque o universo é generoso comigo. O extraordinário acontece no meu quintal, seja em forma de pássaros ou de flores. De céu e de gente.

Eu queria colocar uma foto que me enviou dos caminhos que faz quando volta para casa depois do curso e me contou da placa sobre o amor – essa palavra que sempre me lembra sua mãe – mas, as mensagens temporárias me roubou a foto. É que através dela eu queria falar do extraordinário do universo… essa força estranha que liga pessoas, que liga momentos, que liga carinhos… tudo é como se fosse uma linha que vai dando seus nós e eu chamo de destino.

Sabe, Edi, eu o vejo extraordinário e não ousa me contradizer. O que nos liga é extraordinário. O que nos fez igual em dor e perda é extraordinário e sei que um dia choraremos e riremos juntos de tudo isso que o extraordinário nos liga…

Acho que te falei desse pássaro laranja – da foto que emoldura sua carta – que passou a visitar o meu quintal. Eu o vi, de relance através do vidro da porta num desses domingos frios de julho… Ele vem sempre pela manhã e já me deixa chegar perto. Isso é extraordinário! O comum já nos rodeia sempre.

Lembrei-me de que nossas conversas beiram ao extraordinário e que de repente, é 25 de julho de novo. Um dia santo – que meu pai levantava o chapéu sempre que levantava e fazia o sinal da cruz. A vida é cheia desses momentos, Edi… a gente, às vezes, apressada, não vê. Preocupamos com o futuro e esquecemos do presente – essa palavra extraordinária que sua mãe amava – ou ficamos presos no passado.

Eu queria te contar tantas coisas e ao mesmo tempo queria sentir o silêncio com você. Ainda me lembro de quando te vi a primeira vez e do seu riso de amor para sua mãe. Se eu soubesse que no futuro falaríamos tanto teria te puxado pelo braço e te dado o abraço que hoje pela distância, te mando por aqui.

Que seus caminhos te mostrem sempre o extraordinário e que a vida seja vivida na intensidade dos dias.

Meu abraço carinhoso!
Feliz Aniversário!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

com asas e tudo

A noite veste-se de vento que traz o cheiro de café da vizinha. Na rua de cima há homens que contam histórias sobre o futebol e a gente ri dos causos contados enquanto espio a ave de todo dia em seu voo sem pressa.

As mensagens chegam na rotina do dia, falam da transição, do sonho e uma vagarosa luz na janela e o tesouro que meus olhos veem traz a leveza feito um aeroplano…

Com asas e tudo.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor

Corredores, Codinome Locura

O extraordinário

Para além dos dias comuns eu quero o extraordinário nas manhãs movidas a sol.
Quero o canto dos pássaros e barulho de asas contra o vento.
Quero a realidade de asas no céu do meu lugar e pouso dentro do quadrante do meu quintal.
Para além do tempo o comum se torna em extraordinário aqui.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

De noite o silêncio estica os lírios. 

Jean,

hoje eu pensei muito em você… tentei contar os anos e deixei pra lá… lembra quando a gente desdenhava do calendário na soma dos dias? Lembrei-me disso hoje. Lembrei-me de você e a mochila de sapinho, da maneira como você mexia e jogava o cabelo para trás… lembrei-me de você se espantando com minha tatuagem e de como isso nos aproximou… lembrei-me de você hoje….

Recebi um poema logo cedo e nas primeiras linhas pensei nos lírios que plantei e coloquei seu nome… sempre dei importância para eles, mas hoje, incrivelmente, sem sinal algum de botão pela manhã, eles estavam abertos a noite, ainda com a garoa desse tempo doido de julho.

Quando lembro de você, em consequência, vem sua mãe e seus irmãos… e eu evito algumas perguntas para evitar a dor. Mas, em silêncio, faço milhares para você – está em algum lugar bonito? Os lírios se esticam a noite em silêncio? Há silêncio aí? Tem noite? – e sei que tudo é um mistério indefinido diante das coisas que vivemos. a vida é esse pedaço tão pequeno de tempo, que às vezes, nem o calendário define. E nem o dicionário explica saudade…

Hoje, mais uma vez, meu coração te dedica amor para além da vida. Ouvi Charlie Brown Jr, ouvi Bob Marley e de alguma forma te toquei…

Agora, vou molhar as plantas e os lírios que como o poema diz? de noite o silêncio estica os lírios. Será que você sente daí?

Te amo sempre,
um beijo,

de sua tia Lurdes

Corredores, Codinome Locura

Que céu você povoa?

O pai contou histórias do tempo que a curva do rio teve de ser modificada para proteger as nascentes. A sabedoria das coisas estava em recuar quando fosse preciso e a brisa matinal era a lição mais lógica para isso. A ave espreitando a vida e o mundo sendo sufoco diante do grito. O filho sendo a imensidão da angústia. A ave sendo ameaça para o novo. A revolução na voz de quem já não pode cantar. Essa era a hora que eu queria ser menos, igual ao poema da minha escritora favorita. Tem como devolver perfume dentro das palavras? Ou voar junto com o pássaro que fica à cata de comida? Quando o riacho se abre e a flor do pântano morre, o lago vira morada dos sonhos ocultos. Era como o arrozal não semear o cheiro da colheita pela floresta inteira. Há dias tão vazios de vida que eu pergunto: onde você nasce quando morre? Ou que céu você povoa quando ele fica nublado? Que sol amanheceu em seu dia?

Mariana gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sobre salvar pássaros e outros seres que voam

Contou o verbo do dia. Perdeu – se. E ainda era o avesso da dor. E era ninho e abraço.
Dá para prender voo dentro de gaiola? O infinito é logo ali…
E de romãs tingiram as cortinas. Do sonho que revolve o mundo, tem as flores respingadas de asas. A vida é escondida em aves. E o ninho cabe a solidão a dois.

A voz a ecoar canções que de novo só se repetirá quando o gravador sentir saudades de um tempo de amor. Quando fechei a carta e o envelope travou nas palavras que diziam que era amor.

Eu escrevia sem deixar de prestar atenção às nuvens. Há casas que são feitas para os chocolates feitos em noites frias – quentes – e a delicadeza era um lugar bordado no bastidor. Para mim, a vida é essa oração. De dois quando tudo se resume em presença e vontade,

Éramos viajantes em um céu que abriga peregrinos em seu espaço aéreo.
O meu amor humano tem instinto de céu e de asas.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quem disse que é preciso estar junto para estar perto?

Júnior,

de repente, é 16 de julho de novo e mais uma vez estou aqui te escrevendo. Quando olhei o calendário lembrei-me de você, de seus irmãos e de sua mãe… havia uma rotina que ela seguia nessas datas especiais… ela esperava meia noite… era quando o “especial” acontecia. E eu sempre fazia parte do especial. Mesmo com sono, sabia que ela ligaria e dizia: é aniversário do Júnior!

Nessa hora, estivesse onde estivesse ela falava com você, para logo depois me recontar pela milésima vez como foi o trabalho do parto, o jeito “só seu” de quando nasceu. Eu poderia escrever um livro só desse momento. Da sua ida à escola, do seu amor pelos irmãos e do jeito marrento ‘chic” que é único seu. Com todas as sílabas reforçadas por ela. O Júnior é diferente! Ele brilha!

Acho que dos filhos dela, você foi o que mais convivi pessoalmente. Embora Marcelo seja o principal motivo de ligações entre nós, eu e você estávamos juntos em alguns sábados, na mesa do almoço, no sofá da sala, na conversa sobre fotos e depois, sobre Duda. Eu era parte de sua família mesmo não fazendo parte dela, porque sabia de tudo que se passava ali, dentro do coração e no olho de sua mãe.

Sabia suas paixões, seus sonhos e vontades. Rezava junto com ela para que algum anjo no universo inteiro te guiasse sempre no caminho do bem e continuo rezando…

Esse universo é tão amplo… as estradas tão intensas/imensas e cheias de obstáculos. Mas, a gente sabe do seu potencial e do quanto você se dedica e do quanto de kms você percorre para ultrapassá-los. Você também sabe quantas pessoas te esperam e torcem por você em cada curva. Quem disse que é preciso estar junto para estar perto? Você está sempre dentro dos corações dos que te amam. Tão perto! Todos os dias, além de aniversários e vida afora.

Eu aprendi a ser coadjuvante nessa torcida e vou estar sempre aqui, torcendo para que em seu caminho as imagens sejam motivos para a chegada. Que em cada momento que você olhar para o lado e se encantar com o que vê, seus pensamentos te levem para os que te esperam… e que em cada abraço, a natureza que te protege seja guia nos caminhos em que trihar.

Feliz aniversário!
Abraço carinhoso ❤
Mariana Gouveia


Corredores, Codinome Locura

Não se prende quem tem asas

Podia surgir dentro da noite a estação das flores e as sementes colhidas no jardim. E em todos os jardins, o cravo chinês da infância, quando pela primeira vez e por causa do cravo, foi parar na delegacia. Havia arrancado a flor no jardim do moço que se chamava Abdo e a mãe passava roupas para a família dona da loja de brinquedos. O moço a falar em uma língua que não entendia – sabia apenas que estava bravo – e que queria a flor de volta. Como colocar uma flor de volta do pé onde foi arrancado? A flor seria para mostrar para a mãe que no Inverno as flores podiam brotar e fazer ela compreender que em uma estação o gesto entre duas mãos era mais oferta do que encontro. Era como se fosse urgente colher a flor, logo ali, e a mão a estender como uma prece. Falou com voz tímida sobre como a mãe iria gostar de ver a flor a brotar no quintal dela, onde borboletas voavam como se ali, a flor fosse parte do inseto e o inseto, parte da flor. Depois, as mãos, justapostas, em oração, para que a mãe não aparecesse em frente ao delegado e perdesse de vez o emprego na casa do moço que falava estranho. Alguma coisa aconteceu e a flor ficou ali, na mesa da delegacia, enquanto o moço de linguagem estranha se embrenhou noite adentro pela rua. Olho perdido no jardim. E no dia seguinte, haverá borboletas sobre a flor a mostrar a delicadeza do pouso, mesmo quando a vontade será de voar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O vento havia parado tudo com o seu silêncio

Enquanto as mãos viram asas me contam histórias de amor.
Alguém perdeu o equilíbrio na vida. Vi a fé dentro da mesquita e o sino da igreja badalar.

Talvez o dia impossível dentro da possibilidade da flor. Só tive a ideia… a vaga ideia de que o vento havia parado tudo com seu silêncio na folha e que o diagnóstico era quase inaudível.

A dor era confundida com a espera. Sinto dentro da ternura e o cheiro de gengibre lembra o chá da tarde o que arde – e a secura do quintal pede acolhida de água na terra.

O pássaro engole o céu e sua fome de voo combina com a minha de paz. Essa inquietude que grita e me abraça toda noite enquanto a madrugada avança junto com a chuva de meteoros e que não consigo registrar.

Era quase um registro de sonho onde seu nome é dissolvido na boca feito nuvem.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das dezenas de histórias sem fim

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspens
os
Miriam Reyes

Ph: Pinterest

Ana,

tive que formatar meu notbook e com isso, perdi alguns arquivos que não consegui salvar, mesmo o técnico tentando inúmeras vezes. Com isso, perdi alguns áudios onde a gente falava bobagens e que me alegravam em dias difíceis.

Por várias vezes, nossas conversas foram motivos de força quando algo errado acontecia. Daí, de repente, entre esses anos todos, que se transformaram em séculos eu vi que a história chegou ao final… sem fim… como algumas séries que amo e ficam com a ‘suposição’ de segunda temporada e sabe, Ana? A segunda temporada piora a história que às vezes acho que poderia ter ficado apenas a suposição.

Penso que foi assim com a gente. Um fiasco… os momentos, as ausências e de repente você não faz parte mais da vida da pessoa. Tudo se transforma em lugar comum.

De repente, fica as lembranças dependuradas na janela, na cerca como se fizessem partes dos momentos, mas ficaram ali expostas e tudo bem. Sabe, Ana, o tempo é esse inimigo íntimo da gente – ou seria a distância? ou seria o sentimento? – e quando percebi, você se transformou na memória de carinho que me faz rir quando lembro, mas que o afago está ou ficou inacansável.

Não houve adeus, não houve fim – e mesmo assim, entendemos que houve um final – como os doramas que eu amo e fico imaginando as segundas temporadas e prefiro que não aconteçam.

Eu entendo que podemos esquecer o 11, o 13, o 23 e até o 1º… mas, não podemos esquecer as respostas e como elas não vieram e sejam por quais motivos, subentendi que nem valiam a pena responder.

E fica suspenso um final como se nem precisasse chegar ao final para se saber que é o fim. E nem precisamos dizer adeus para entendermos que o fim não tem explicação.
Beijo meu,

Mariana Gouveia