Eu existo dentro das memórias que guardei. Ainda consigo vislumbrar com o instante como se fosse hoje. O vento ainda era brisa no quintal e ela aconteceu.
Os dias voaram no calendário para além do tempo. Não consigo dizer se parte das minhas memórias sejam lembranças de fato, ou se no relance da vontade eu a criei no interior de minha mente.
Parece o mar mas é o céu. A rotina, Mariana, tem feito me esquivar da beleza, interromper soluços que fantasio para pensar em mapas e conceitos e mais mapas, tem também me feito entrar devagarinho nos lugares como quem evita fazer golos de impedimento. Tenho estado (Tiago gosta quanto falo assim), logo, tenho estado abstrata, azulada e voadora como os personagens de Chagall. Hoje precisava trabalhar tanto e a poesia a me fazer muito mal, porque me força buscar metáforas para dizer o que se resolveria de chofre, o que me faz um bicho prolixo e esquisito. Ontem pintei a lápis de cor. Precisava voltar ao hábito de colorir (colorir é como varrer, percebes, Mariana? Se não, me pergunte de onde tirei essa ideia). Houve uma época em que pintei minúsculas marinhas, é tão fácil pintar marinhas, mas o azul me incomoda um pouco, porque sinto um frio quando uso azul tanto na pele, quanto no ver e tocar. Já contei que, quando pequena, não suportava ter unhas? Achava que elas atrapalhavam e apertava contra as palmas para não sentir, aí que as sentia mais… São tão bobas as crianças pequenas que morro de ternura por elas. Ainda hoje acho que poderia bem viver sem unhas. O azul, a poesia e as unhas me atrapalham, mas são coisas que existem e não posso fazer nada contra a existência delas.
Luci, o caminho até a aldeia tem seus encantos. Às vezes, são miudezas que o olho nem enxerga… Nesses casos, como diz o pajé, é preciso olhar com o olho do coração. Acho até que já te contei sobre isso. Mas o que eu queria mesmo te contar, Luci, é que eu voltei a viver esses instantes junto deles e com eles. Às vezes, a aldeia é muito longe, e de alguma forma, eles a trazem para perto de mim. Seja nas ações, no que faço no dia a dia e nas conversas sobre a vida deles. Eu ainda me lembro do pajé que se foi, Luci… Acho até que ele virou flor pela estradinha agora aonde ele colhia ervas para curar os doentes. É lá, de vez em quando que eu o abraço quando toco as pétalas das flores.
Quando o dia alaranja no meu quintal e o pássaro canta a melodia da vida, é para ti que falo. Quando as nuvens douram no céu e o sol abre sua cortina majestosa, é para ti que falo. Quando falo do riso da criança e do cachorro que faz arte na varanda, é para ti que falo.
Quando falo de amor e de poesia, e te canto uma doce melodia, é em ti que derramo. Quando eu fico em silêncio diante da vida, e ao falar teu nome me acalmo, é de ti apenas que falo e amo.
escrevo mil mensagens só com seu nome e tatuo na pele – a sangue-frio – o coração que você descreveu em palavras. Abro todas as gaiolas para que as saudades acumuladas voem e grito como a louca da rua.
Gasto a revolta da não chegada, da não notícia, do não chamado em passos ao redor do quintal. Era ainda ontem no calendário quando a palavra do poeta me tocou em meu olhar gasto da espera.
Antes que a vergonha do afeto que te emprestei me domine eu rasgo as palavras todas, as cartas, os bilhetes, as mensagens. Rasgo em mil pedacinhos seus toques em mim… faço ranhuras no espaça da agenda onde tem seu nome… nessa hora, eu começo a te esquecer.
situação que eu não conheça.
nem fases em que eu não me veja.
e em cada estação me submeto ao teu amor.
O meu olhar te descobre mesmo quando esconde e se refugia nos teus pensamentos.
É quando eu mais te descubro.
Não haverá em ti lugar em que eu não habite.
Trilho pelas tuas pegadas e é em teu interior minha morada.
Não haverá lugar em ti que eu não me encante e pelas tuas ruas cantarei meu amor.
Quando ia imaginou o caminho da volta. A ave da sabedoria desenhou a rota em seu voo. Virou o corpo para ver o mundo de pernas para o ar. Viu pirueta no riso das crianças. O cão que gosta da rua escala o muro em sua fuga. Tudo é rota enquanto explicou o sentido da asa. Contei histórias de princesas para quem já é uma – três já são – e as outras cabiam dentro do abraço.
A chaleira apita quando a água aquece e o cheiro do chá invade os quintais.
Às vezes, aqui, a terra se contorce debaixo dos pés; dizem que há um epicentro uns tantos de mil metros abaixo… e eu fico a pensar que a terra também sinta tremura e se a ave voará assim que sentir o tremor. Invento outra história enquanto a xícara pousa em um pires – elas, as meninas não se impressionam – fazem parte do conto de fadas ou não sabiam? Digo que a Branca de Neve nasceu Maria e que o brigadeiro tem a cor doce da Manu…
E a princesinha tem uma pulginha no riso da Bianca. Crio o vento para falar outra vez de asas. Penso de novo no que faz tremer o chão e se a terra também agita, vale a pena ensaiar o destino de voos e preparar o corpo e a mente para prevenir os ritmos sísmicos das histórias. As meninas voam dançando.
Guardou o dia na memória e desenhou a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos.
[Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes da irmã e o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem e a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado – tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes]
Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas.
[Era ainda ali, a infância e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina]
O aroma do bolo a assar no forno – e o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma.
[Voltei à casa onde chorei mil vezes. E onde escrevi todos os dias parte da minha história. E na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá]
Nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade.
E sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim.
Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.
O campo dá certeza das coisas. O vento aqui traz a leveza da brisa e é cada coração em cada grito; O céu tem asa em tudo quanto é canto e de noite, traz estrela em cada espacinho dele. Dá para ver as nebulosas e o caminho de Santiago… O Cruzeiro do Sul, bem ao sul vagueia no laguinho onde o cão se banha. Os vaga – lumes oscilam perto do lago e ele – o cão – corre atrás de algo que voa… Aqui, tudo voa – ou quase – e quando a asa vira coração, vira folha – de dia – e de dia, o azul é deslumbrante! Parece vestido de festa e as folhas ficam rendadas para ficar a altura da beleza. É tudo simples… a beleza da noite se esconde, porque fica tudo mais bonito, assim a olho nu. O campo ao longe, o barulho da floresta e o riacho sempre espera para depois… E depois, se transforma em sonho. E de sonho, em toda leveza de ser, eu sou.