Corredores, Codinome Locura

[Há dias que não deveriam acabar]

Guardou o dia na memória e desenhou a volta. Ninguém se perde no tempo dentro das lembranças… as lanternas chinesas mostram os caminhos percorridos.

[Era ainda ali, ontem e as histórias cantadas nas vozes da irmã e o riso da sobrinha a entoar cânticos de louvor… era ainda ali, ontem e a lua fazia seu caminho pelo céu estrelado – tanto, tanto que parecia um lençol bordado de diamantes]

Repito as mesmas canções da infância no caminho da volta. Colho as frutas na árvore do lado e a rotina acaba por preencher o espaço das horas.

[Era ainda ali, a infância e desenhada dentro dela a fala da irmã mais velha a contar detalhes que passaram em vão… era ainda ali, a vida nos riscos da mãe e lembrou-se de tudo que viveu quando era menina]

O aroma do bolo a assar no forno – e o fogão a lenha a crepitar aquecendo a alma.

[Voltei à casa onde chorei mil vezes. E onde escrevi todos os dias parte da minha história. E na janela, a cortina balança e o vento abriga cheiros que ainda me levam para lá]

Nas mãos trago os instantes vividos e guardo-os em uma caixinha da memória para outra vez viver dentro da saudade.

E sei que continua lá, cada cantinho. Dentro da caixa de papéis que ainda guardam pedaços de mim.

Revolvo a terra, arranco as folhas mortas e dou água aos instantes novos que brotam. A lanterna chinesa floresce como se iluminasse uma nova etapa renovada na energia que me banhei de amor.

[Há dias que não deveriam acabar]

Mariana Gouveia

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