Estávamos em Julho, fechei o caderno contigo lá dentro, nunca mais voltei a apaixonar-me.
Al Berto.
Ph: Pinterest
Porque o melhor lado é o dentro
Estávamos em Julho, fechei o caderno contigo lá dentro, nunca mais voltei a apaixonar-me.
Al Berto.
Ph: Pinterest
Hoje, acordei com ele invadindo a sala toda… já não era só o lado poente, dele.
Tomou conta do jardim. As pétalas salgadas cheirando a pele, sorriram.
E o mar cantou suas ondas bravias no interno de mim… e de maresia cobriu meu nome.
De improviso o oceano me cobriu inteira.
Às vezes, com as mãos em conchas o mar me banha…
Em alguns momentos – ele recua.
Mansamente recua e me deixa cheia de saudades, mas plena de viver.
Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Livros Artesanais
*Imagem: Mira Nedyalkova
Comi palavras doces e delirei amor.
Previ as cores dos girassóis de Van Gogh. Entre Matisse e Monet cantei Gadu.
Tenho na ponta dos dedos a percepção da pele. A dela.
E a magia do jardim onde a toco.
Visito mitos para abrir caminhos. Acendo estrelas para ela sorrir.
Um século em uma frase de amor.
A cor que ela deu ao meu dia.
Escrevo o nome dela em tudo que toco.
De um poema sem nome eu só sei sentir.
E assim, caminho na beleza onde ela planta todo dia encanto na lentíssima explicação do divino.
(O nosso amor).
Mariana Gouveia
* Imagem: Anna O Photografy
Perto da janela desejou voltar no tempo,
costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia,
às vezes,
as sensações que viveu.
Tocou o céu com os olhos.
Lembrou das chuvas.
Mexeu nas anotações da mesa.
Sentiu saudades.
A flor, quase sol em giro,
trazia à memória os poros.
Miúdas flores como se fosse pele.
Digitais
No canto do lugar
– o cheiro –
como um arqueólogo
vasculhou antiguidades dentro dela.
Revisitou estações noites inteiras.
Pele, toque, mão.
Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –
quando a amo e desenho partituras em seu corpo.
Um modo de amar é assim.
Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço.
Em guerra e paz.
Da pele
– a palavra –
de um dia que se abria
e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.
Mariana Gouveia
Ph: Els Vanopstal
Permitiu a espera.
Passos lentos atrás da cortina. Canção que fala de música.
Quis dançar. Lembrou de danças de outrora. No quintal vazio. Só as duas. O céu povoado de estrelas. Abraço apertado enquanto olhos vasculham se alguém espia pelo muro. Coloca no repeat a música. Já sabe a letra de cor.
Digita errado o recado que queria dar.
Fala apressada, como se depois não conseguisse mais.
Foi dia de cumprir promessas. Tudo saiu fora da rotina.
Ela não anota nada. Pensa apenas que viveu tudo que podia viver.
Tem ainda o gosto do beijo na boca. Inventa nomes para os sabores sentidos.
Agridoce na lógica da alma.
Pensa nos signos e no mapa astral que a música sugere.
Viu os recados enviados na ausência. A secretária do médico lembra do exame. Alguém disse que sentia saudades. Não tinha ligações dela. Nem podia.
Faltou o ar. Corre até a janela. Reparou que a cortina foi trocada.
O estilo meio vintage combina com o dia de hoje.
A moça do tempo fala de mais frio. O pé gelado aquece o outro.
Sai sem despedir -é possível que ainda volte hoje – há tanta coisa pra falar. Momentos vividos que a canção registra.
Lembra do disco de vinil da canção preferida. Perdido no baú das lembranças.
Faz o que a canção sugere ao tocar o dedo na boca.
Inspiração no aroma do vinil que Maria Gadu canta.
Analógica se sente. Vai em busca da vida.
Mariana Gouveia –
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura
*fotografia Tumblr
só porque em alguns dias nem a terapia resolve
[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos]
Que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado.
É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras.
É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção.
No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz.
Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem.
[Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades]
Quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento.
A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala.
Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora.
Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e
de novo dentro do mais belo amor.
Mariana Gouveia
Ph: Pinterest
Entrei. Sentei-me na poltrona onde podia ver a janela. Pediu que eu falasse sobre o que eu sentia. Calor – o sol está castigando esses dias – há um sol para cada um nesta cidade… Acaba com meu jardim. Ela se sentou no divã vermelho. Clássico.
e desabou a falar de flores. Quis descobrir o que eu sabia das lanternas chinesas e comecei a falar de luz. Falei das histórias que li e do poema em mandarim do livro verde e de como a semente veio parar em minha mão. Ela achou tudo poesia pura e me pediu para voltar amanhã.
Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar os quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Guardou-me dentro das fotografias. Pendurou-me no lado esquerdo da porta. A chave, de cores variadas lembrava a conversa sobre os séculos habitados de ausências. Eu só queria dizer que choveu e que as cartas que foram esquecidas no baú, ganharam atenção em cada palavra. Os desenhos feito à mão e o eco do mar a desafiar minha lembranças das coisas. As poesias escritas por suas mãos cabem na minha saudade. Enquanto revirava o baú, fiquei ali confinada nas tuas fotografias de vento. Cabelo preso em alguma folha que lembrava um coração. A frase que você descobriu em um muro, era apenas motivo de quebrar regras. Quase ganhei asas nas tuas cores e sua voz ecoa feito onda do mar. Quando a janela se fechou, virei quadro caído na parede, inseto parado na mão e história para ser contada depois, como se o pretérito imperfeito fosse o ponto principal de um século inteiro que passou. A ave ecoa o silêncio na árvore seca. Tudo era solidão dentro da tarde onde as cartas viraram asas de papel ao vento.
Mariana Gouveia
*imagem: Nishe
Era ali, onde eu morava. Meu país era o aconchego dos braços dela.
Mesmo quando não havia presença era ali que eu me aninhava e estava segura. Feliz. Em paz.
Mas, em guerra, o peito dela não abriga mais minha cidade. Transformou em ruínas o que era meu lugar.
Virei peregrina desse deserto intenso. Endoideci.
Vaguei incessante em terras alheias buscando abrigos.
Nenhum lugar me pertence.
É comum em noites banais desenhar ela, seu nome, suas lembranças em meu corpo todo.
É comum ela estar em mim.
Enquanto vagueio, meu olhar de louca procura sinais de uma reconstrução que não tem mais.
Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Ali Perrault
Recaí.
Entrei sala adentro repetindo várias vezes a frase que evitei tanto nos últimos dias. Recaí.
De novo não resisti ao vício que ela causa em mim.
Ela anota. Me olha como se precisasse de explicações e explicações eu não tenho.
Respiro para a sonolência das horas e repito. Recaí. Fui em busca de seiva da flor, como se disso dependesse para eu viver.
Primeiro busquei o objetivo lógico da saudade.
Sabe o que é saudade? – pergunto – e não obtenho resposta.
Despejo palavras como se fosse uma ampulheta do tempo e se eu não falar logo, morro.
A falta dela é cronológica em mim. É como se eu sempre vivesse com ela e para ela.
Sem ela as palavras são vazias e se perdem. Onde ir buscar alívio para esse vazio?
Falo sozinha sobre o tempo. Sobre as coisas do meu quintal. Sento perdida no meio do nada.
E por um momento, eu só queria ouvir o silêncio dela, do outro lado, de algum lugar qualquer, do oceano, do outro canto, da outra parede.
Eu só queria contar sobre esse ópio que me provoca quando olho no jardim e a papoula segue seu destino de planta e ganha vida no meu inverno. Logo terei a flor para registrar.
Comecei conversando com a semente. Ajeitei o vaso, fiz poemas com elas e as plantei.
Durou sete dias e germinaram em prosa, dentro de mim.
Todos os dias o aguar o fio verdinho que desponta e que com o passar dos dias, ganha jeito de flor. E com isso, conto os dias na sensação plena de que ela não está ali. A sensação da falta é alucinante. Tal qual o vício do meu amor. Porque é isso que sinto por ela. Essa abstinência que ela me causa e provoca alucinações no peito. Reviro todo o jardim. Reconto os dias e o calendário acusa o tempo sem ela.
Era isso que eu queria falar e por isso, recaí na loucura de não segurar o meu amor.
Saio sem rumo em direção ao abismo que essa saudade me causa.
Sabe o que é saudade?
Ela anota e diz:
Sei. Todos os dias eu morro disso.
Mariana Gouveia
Fotografia: Anna O. Photography